“Talita cumi!”: uma mensagem de Jesus para as meninas violentadas

Duas garotas, duas mulheres, retratos do Brasil

Foto: Reprodução

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Diálogos da Fé

O evangelho de Marcos, um dos livros da Bíblia cristã, tem uma narrativa muito bonita, no capítulo 5, que conta sobre um homem de nome Jairo, um dos principais líderes religiosos que procurou Jesus na multidão.

Jairo se ajoelhou e implorou a Jesus: “Minha filha está à morte; rogo-te que lhe imponhas as mãos, para que seja curada, e viva”. Jesus atendeu o pedido e seguiu com Jairo.

No caminho, Jairo recebeu a notícia de que a filha havia falecido. Jesus, então, disse: “Não tenha medo; crê somente”. Depois de ouvir zombarias por ainda tentar salvar a menina, Jesus seguiu ao quarto onde ela estava e lhe disse: “Talita cumi!”, que, o evangelho explica, na língua aramaica, quer dizer: “levanta-te, menina!” Segundo o relato, logo a menina se levantou e andou; ela tinha 12 anos.

“Não tenha medo”, “levanta-te menina!” As palavras da narrativa ecoaram na minha mente na última semana, em que tomamos conhecimento de duas situações cruéis sofridas por meninas brasileiras.

Primeiro, a história da menina de 12 anos, de Araçatuba, interior de São Paulo, que foi tirada da guarda da mãe, quando passava por um ritual de iniciação no Candomblé.

A ação foi movida pelo Conselho Tutelar da cidade, com o apoio da Promotoria local, que acolheu denúncia de familiares de que a menina teria sofrido lesão corporal no terreiro por causa do cabelo raspado (parte do ritual de iniciação).

Sem considerar as declarações de mãe, filha e testemunhas quanto às práticas rituais que estavam sendo exercidas sem qualquer violência, a Justiça transferiu a guarda para a avó materna. As visitas da mãe passaram a ser restritas a cinco minutos e por vezes negadas pela avó. A menina chegou a fugir da casa da avó em protesto e foi resgatada por uma viatura policial.

 

Uma denúncia anônima já havia sido feita, antes, em julho, ao Conselho Tutelar, afirmando que a menina era vítima de maus-tratos e abuso sexual no terreiro de Candomblé.

O Conselho também já havia acolhido a denúncia, desprovido de bases, interrompido o ritual e forçado uma passagem de mãe e filha por uma delegacia e pelo Instituto Médico Legal, sem nada ter sido provado. Em 14 de agosto, a Justiça restituiu a guarda da mãe, depois de 17 dias de afastamento.

A menina de 12 anos foi vítima de uma violência brutal de familiares com o apoio do Estado. A ação cruel provoca a “morte” da existência desta menina como ser humano e de sua identidade de fé.

Os Conselhos Tutelares, como os leitores e leitoras devem se recordar, têm sido alvo, nos últimos anos, de aparelhamento de grupos fundamentalistas.

O de Araçatuba ajudou a promover essa violência. Ele deveria estar a serviço do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que garante a pais, mães ou responsáveis o direito de transmissão de suas crenças, cumprindo o artigo 5º da Constituição do Brasil, que assegura a “inviolável liberdade de consciência e de crença” e “o livre exercício dos cultos religiosos”.

O Conselho Tutelar e a Promotoria de Araçatuba foram instrumentos de intolerância religiosa, afetando intensamente a vida de uma família. Ao atingir filha e mãe, o Estado fundamentalista e intolerante violenta também as pessoas de fé.

Mais recentemente, soubemos de uma menina de 10 anos, que deu entrada em hospital público na cidade de São Mateus, no Espírito Santo, com suspeita de gravidez, que acabou confirmada.

Com o caso encaminhado à polícia, foi descoberto que a menina era vítima de estupros por um tio havia quatro anos e estava grávida de cinco meses.

Em cumprimento da lei, que permite que um aborto seja realizado por meio do serviço público de saúde, no caso de a gravidez ser resultado de um estupro e quando representar situações de risco para a mãe ou de anencefalia do feto, a Justiça autorizou o procedimento.

Violentada no âmbito da própria família, a menina estava morta em vida – não era considerada humana, mas uma coisa usada por um tio para prazer, sob o silêncio dos demais.

Porém, ela foi violentada mais três vezes depois que o caso veio à tona pelas mídias. Primeiro, pelo Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes (Hucam), que recusou o aborto legal, o que foçou a menina a viajar para outro estado, por decisão judicial, acompanhada de uma assistente social e um parente, com o local devendo ser mantido em sigilo.

Segundo: a informação vazou e foi espalhada por mídias sociais que a menina estava internada no Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam-UPE), em Recife (Pernambuco). Nas redes, a viagem de avião a Recife foi divulgada. Mais uma violência perpetrada.

A terceira violação cruel foi promovida por grupos religiosos, católicos e evangélicos, que fizeram atos em frente ao Cisam, com uma espécie de barreira humana para tentar impedir a realização do aborto legal, não permitindo a entrada do médico responsável pelo procedimento.

Ao chegar ao hospital, o médico foi recebido aos gritos de “assassino”. Tudo isso foi reforçado pela ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos Damares Alves, que usou as mídias sociais para expor o caso.

A ativista fundamentalista Sara Geomini (autodenominada Sara Winter), que já esteve presa por conta do inquérito das fake news, teve acesso ao processo, que deveria ser sigiloso, e publicou vídeo com o endereço da unidade de saúde e com o primeiro nome da menina.

Ao fim, pediu que seus seguidores rezassem e “colocassem os joelhos no chão”. O vídeo foi retirado do ar pela Justiça mas a violência já estava cometida, mais uma vez, pois a menina foi colocada no centro de uma verdadeira batalha discursiva nas mídias sociais, a que se somam declarações de religiosos que soam como sentença de morte àquela que é tratada como uma “coisa a ser discutida”. Mesmo com tudo isto, o procedimento foi realizado e a menina passa bem.

Duas meninas, duas mulheres, retratos do Brasil. Meninas que nasceram em um país que, historicamente, cultiva racismo religioso, negando, na prática, o direito de o Candomblé existir como religião, e que fecha os olhos para o uso das meninas e das mulheres por seus homens cidadãos. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2019 registra que, a cada hora, quatro meninas de até 13 anos são estupradas no país.

Não, Deus não está acima de todos neste Brasil que violenta meninas! Ainda mais com o apoio do próprio Estado tal como está aparelhado no presente! Deus está no meio das pessoas, como Jesus, indo às casas, chorando com estas meninas feitas mortas em vida e dizendo: “não tenha medo! Talita cumi: levanta-te menina!” Fiquem de pé! Lutem como meninas! Ganhem a vida! É seu direito! Não aceitem que “sepulcros caiados”, “cheios de hipocrisia e iniquidade”, lhes tirem a vida e a identidade! Eles hão de prestar contas desta violência! Vivam com justiça e todas as coisas lhes serão acrescentadas!

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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