…

Sobre a impotência e a potência de mudar

Diálogos da Fé

Quero sair do imediato que muitas vezes nos submerge. Quero deixar de lado por instantes os conflitos que nos atormentam, o sensacionalismo dos jornais, as polarizações de posições. Quero tentar pensar com os leitores de forma mais ampla para que formemos posições mais bem refletidas e possamos agir de forma consequente.

Hoje sugiro algumas ideias sobre a impotência e a potência de mudar. Há um sentimento difuso de impotência ou mais precisamente impotência de alguns e potência de outros. É como se a vida nos dividisse em potentes e impotentes.

Por que, querendo mudar muitas coisas na vida pessoal e coletiva, não conseguimos? Ou por que muitas vezes as consequências de nossos atos em vista da mudança vão no sentido contrário ao que estávamos esperando?

Leia também:
Quem tem medo de macumba?
A Palestina continua a clamar

Muitas são as respostas possíveis. Alguns filósofos alegaram a fragilidade e o descontrole das paixões humanas como causa dessa situação. Outros, a nossa finitude. Outros ainda a violência inscrita em nosso ser. Mas o fato é que sempre mudamos. Mudar é cotidiano. Entretanto, o problema não é a mudança que se verifica em nossos corpos ou no bairro ou na cidade em que vivemos.

O que mais nos preocupa e atormenta é que certas mudanças necessárias que marcam passo não saem do papel ou permanecem nas palavras ou nos sonhos sem consequência eficaz.

Cada uma de nós pode elencar uma quantidade imensa de mudanças necessárias, mas não efetivadas pessoal e coletivamente. Daí nasce um sentimento de impotência, como se não conseguíssemos nos mover, como se um peso enorme estivesse atado aos nossos pés e impedisse o nosso passo.

O que é mesmo essa impotência coletiva que impede a mudança de nossas relações sociais e políticas para melhorar a vida uns dos outros?

O que é essa espécie de quase epidemia paralisante que nos insensibiliza diante da dor dos outros?

O que é esta espécie de ignorância coletiva que nos assola e é capaz de comer as entranhas uns dos outros?

Falamos, gritamos, marchamos nas ruas berrando ‘palavras de ordem’. Abaixo! Contra! Fora! Não! Sim! Já! Agora! Nem uma a mais! Nenhum mais!

Para onde vão nossos gritos? Quem os ouve? Que produzem eles? O que de fato mudam de forma mais ou menos durável?

Vivemos uma impotência coletiva, um sentimento de não saber por onde e como instaurar ao menos parte da ‘felicidade’ que tanto buscamos. A impotência é às vezes tão intensa que nos faz esquecer que existe uma potência capaz de manter a impotência viva e atuante.

A impotência é alimentada por uma potência múltipla que se instaura pelo hábito individualista de não olhar a dor do outro como minha dor, o grito do outro como meu. Hábito de repetir palavras como se elas pudessem ser por si mágicas e transformar a realidade.

Passamos para o outro lado da rua fugindo dos maltrapilhos por medo de sermos assaltados, doamos a menor moeda que possuímos e o pão envelhecido já atingido por um esverdeado bolor.

Aos filhos dos pobres podemos oferecer farinha fabricada com os restos dos mercados, as roupas usadas e muitas vezes sujas que doamos, podemos suportar que durmam em restos de colchões como se fossem animais errantes pelas ruas.

Naturalizamos os pobres e a pobreza. Habituamo-nos que alguns tenham e outros não. A preguiça do hábito nos invade e buscamos então nos divertir para não sentir nem ver o que nos atribula.

As religiões nos falam dessa divisão e nos convidam às vezes a superá-la. As políticas e as economias prometem dividir o bolo quando estiver bem crescido. Promessas. Para que servem as promessas?

Nós nos habituamos às mentiras sobre nós, às divisões em nós, à sociedade dividida fora de nós. O hábito dos costumes se tornou natureza naturalizada. O hábito se tornou crença, crença na impotência de mudar as coisas. E deitamos na potência da impotência… Berço esplêndido. E nos consolamos diante da inexorável impotência.

Acreditamos que ‘somos assim’ e não há como mudar. Os mitos religiosos nos contam a história do fratricídio, do parricídio, do matricídio, do ecocídio e acreditamos que isso faz parte de nossa natureza. Que peso tem essa natureza. Que força transcendente ela nos transmite a ponto de nos impedir de mudar o jogo social e, sobretudo, a presença desse jogo em nós.

E se pudesse ser diferente? E se acreditássemos não que o mundo fosse diferente, mas que cada um/uma de nós pudesse introduzir alguma mudança, alguma diferença qualitativa em sua vida?

Não qualquer diferença ou mudança, mas uma pequena mudança que tenha efeitos positivos no relacionamento com os outros. Introduzir uma mudança de hábitos. Mudança contra a preguiça que nos habita. Mudança contra o conformismo que nutre nossa inércia. Mudança contra o medo que nos congela.

Um dia uma lavadeira lavou a roupa de um mendigo na rua. Fedia, mas o mendigo é gente e gente precisa de roupa limpa. Um dia um guarda não aceitou ser subornado e reagiu. Um dia uma mulher comprou o mesmo sorvete para seus dois filhos e para os três meninos que perambulavam na rua. Um dia resolvemos não sair com nosso carro e pegar transporte público. Outro dia saímos de carro e levamos três passageiros de carona.

Um dia queria insultar o homem que pregava sua crença na rua e não o fiz. Um dia disse a meu filho que era preciso dividir seus brinquedos com outras crianças. Um dia resolvi ouvir melhor meu colega de trabalho. Um dia fomos ensinar filosofia, teatro, música para jovens de periferia. Um dia gritamos juntas contra o aumento do preço do feijão.

Faço emergir a boa potência, a potência do comportamento diferente embora saiba que haverá dias em que a potência negativa, aquela que elimina o outro, poderá vencer.

Talvez não seja ingenuidade acreditar que nossa boa potência só é educável pelas ações, por menores que sejam. Não é ingenuidade acreditar que as pequenas coisas acumuladas acabem fazendo a diferença. Não é inocência acreditar que se podem vencer algumas impotências ativando em nós pequenas potências diferentes.

Não haverá grandes milagres, mas haverá acúmulo de bons hábitos. E os hábitos novos talvez transformem os corações em novos e contagiem outros até contagiar as políticas públicas.

A pequena potência ativada na direção daquilo que é um beneficio vital para os outros, para o bem comum, faz diferença. Não uma potência de ter uma ideia minha acolhida, mas uma eficácia positiva imediata, uma ação em favor da vida do outro.

Não é ingenuidade pensar diferente daquela potência que nutre apenas meu eu egoísta, minha ideia tonta, meu pensamento senil?

A materialidade do mundo muda não apenas com as ideias e teorias sobre o mundo, mas com as práticas cotidianas, com ações que nos nutrem e fortalecem. Ações e práticas que dão vontade de continuar alegremente vivo e de fazer mais.

A impotência então diminui. Cresce uma potência para além da globalidade que nos afunda e submerge. A potência cresce com um olhar de acolhida, com um gesto de ternura, com uma comida partilhada, com um abraço aconchegante, com a descoberta do outro diferente que quebra a minha mesmice.

E a gente vira potente e capaz de vencer lentamente a impotência imposta pelos sistemas de dominação.

“Ora direis ouvir estrelas?” Pois é, é preciso ouvir as estrelas, os poetas, os cantadores. Refazer cirandas, comer em casa, brincar pensando de reinventar o mundo a partir das coisas pequenas.

Reinventar o mundo reinventando nossas próprias relações, continuar cantando para abafar as metralhadoras e fazê-las enfim calar.

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Compartilhar postagem