Seja gentil com as pessoas, quase ninguém está bem

'Gentileza é uma qualidade de quem age com bondade, generosidade, empatia, afeto, lealdade, cordialidade, leveza e amor'

Foto: Reprodução

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Diálogos da Fé

“Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade.” – Gálatas 5:22

Desde quando recebi pelo WhatsApp, na semana passada, um meme com essa frase do título eu fiquei com vontade de escrever algo sobre, embora escrever, nos últimos tempos, não tenha sido uma tarefa muito fácil. Aliás, vários amigos/as têm relatado queixas parecidas: dificuldade na concentração, ansiedade, fadiga, medo, estresse, irritabilidade, cansaço físico e insônia.

Importante lembrar que o desequilíbrio emocional facilita o surgimento de doenças mentais e que ajuda especializada pode ser bem importante em alguns casos.

No texto de algumas semanas, intitulado “Militante, como está sua saúde mental?”, dialoguei sobre a importância da pausa e do autocuidado: “Você pode começar com atividades que demandem um tempo curto, como 15 ou 30 minutos, iniciando pelas necessidades básicas, como comer e dormir de uma forma satisfatória e se organizar em torno disso. É importante ter paciência e focar-se no processo do que pensar no resultado. Contar com uma rede de apoio pode ser fundamental. Além disso, falar de suas questões e construir um saber sobre si, por meio da psicoterapia, pode ser interessante. Autoestima e autocuidado são termos inseparáveis.”

Voltando ao título, imediatamente, ao ler a frase, recordei da canção “Gentileza” – imortalizada pela linda voz de Marisa Monte – em especial o trecho que diz: “Nós que passamos apressados pelas ruas da cidade merecemos ler as letras e as palavras de Gentileza”.

A canção foi composta pela própria Marisa, homenageando José Datrino, o José Agradecido ou Profeta Gentileza, figura lendária da cidade do Rio de Janeiro, que distribuía flores pelas ruas e que, a partir de 1980, escreveu em cinquenta e seis pilastras (aproximadamente 1,5 km) do viaduto da Avenida Brasil inscrições em verde-amarelo com sua crítica do mundo, em especial, ao que chamava de mal-estar da civilização. A frase mais conhecida do profeta é “Gentileza gera gentileza”.

Gentileza é uma qualidade de quem age com bondade, generosidade, empatia, afeto, lealdade, cordialidade, leveza e amor. Ser gentil não diz respeito apenas a gestos esporádicos, é um comportamento genuíno, autêntico e cotidiano. Ou se é gentil ou não se é!

Para nós espíritas (ou cristãos de modo geral), a gentileza é descrita em algumas passagens dos evangelhos, como por exemplo “amar o próximo como a ti mesmo” ou “faça aos outros o que gostaria que fizessem com você” e serve como uma bússola para aqueles/as que querem seguir os ensinamentos de Jesus.

Pois aí está o ponto em que gostaria de chegar: nós não podemos fazer pelos outros aquilo que não fazemos por nós mesmos. Não dá para ser gentil com as pessoas, se não formos gentis com a gente. Nos perdoando, revendo atitudes que nos fazem mal, se libertando.

Destinar atenção para si é mostrar que somos dignos/as de nosso tempo, e merecemos o bem estar. Ignorar necessidades e desejos, viver em função de opiniões dos outros e colocar-se em segundo plano, prejudicam na construção de quem somos.

Embora estejamos passando por um momento mundial bem triste e desafiador, precisamos nos respeitar, respeitar nossos limites, encerrar conversas quando essas não nos fazem bem, se afastar de algo ou alguém que nos oprime, dizer não. E tudo isso pode ser feito com gentileza e compaixão.

O povo brasileiro vem sendo estimulado, principalmente pelo governo, a incendiar-se de um ódio altamente destrutivo. Massacrar a população, tirar a esperança de gerações e ainda estabelecer um culto hediondo a violência são formas de fomentar a autodestruição.

Sermos gentis – com a gente e com as outras pessoas – é combatermos o racismo, o machismo, a LGBTfobia, o capacitismo!

É preciso tomar partido, descer do muro, sair do armário e nos posicionarmos, radicalmente, contra todo tipo de intolerância e violência.

A indiferença e a omissão serão cobradas e este é o momento de cumprirmos o nosso papel de agentes transformadores, conforme recomendado por Jesus no seu sermão inesquecível.

Ver espíritas em marcha com o atraso, com o preconceito, com a ruptura democrática, com a retirada de direitos e com o ódio e fundamentalismo, me faz acreditar que essas pessoas estão bem distantes dos postulados de Kardec e dos ensinamentos de Jesus, afinal, “se alguém afirmar: Eu amo a Deus, mas odiar seu irmão é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1 João 4:20).

Kardec foi ainda mais enfático na questão 350 de O Livro dos Médiuns: “De que serve acreditar na existência dos Espíritos, se essa crença não torna o ser humano melhor, mais benevolente e mais indulgente para com seus semelhantes, mais humilde, mais paciente na adversidade?”

A Doutrina Espírita, essencialmente educativa, tem como objetivo libertar e proclamar o reino de Deus – de justiça, amor, gentileza e paz – para todas as pessoas.

Há de passar!

* A frase do título foi recebida pelo WhatsApp e, infelizmente, não sei a autoria. Se alguém souber, por favor, me avise, que eu retifico no texto.

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É psicólogo, educador, militante pelos direitos humanos e um dos idealizadores do movimento de espíritas pelos direitos humanos.

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