Que Natal é este?

'É uma oportunidade de nos afirmarmos como pessoas de boa vontade dispostas a aprender sobre o que realmente importa nesta vida''

(Foto: DOUGLAS MAGNO / AFP)

(Foto: DOUGLAS MAGNO / AFP)

Diálogos da Fé

A pergunta deste título é a expressão mais pronunciada, nestes dias, entre as pessoas
responsáveis com a saúde e a vida, certas de que não poderão ter um Natal de abraços e
confraternização entre família e amigos. Por mais que haja quem não goste dos festejos de
Natal, e quem tenha poucos recursos para celebrar, a época se caracteriza pelos encontros,
pela troca de presentes, pelo comer juntos.

O Natal do inusitado 2020 não será marcado apenas pela necessidade de isolamento e
preservação física, mas também pela dor. São quase 200 mil famílias nos números oficiais da
covid-19 no Brasil (certamente mais do que isto no real) que viverão um Natal triste por conta
da morte de membros ou de pessoas próximas queridas.

É significativo que esta situação acabe nos levando para mais perto do sentido primeiro do
Natal. A data é religiosa, do cristianismo, e foi criada para lembrar o nascimento da inspiração maior desta confissão de fé, Jesus, compreendido como Deus feito carne, transformado em gente para habitar entre homens e mulheres, sua criação. A celebração com muita gente, luzes, presentes, comida e bebida é, na verdade, algo bem distante do primeiro Natal, motivo da festa religiosa.

Segundo as narrativas de dois evangelhos da Bíblia cristã, Mateus e Lucas, que se dedicaram a
contar a história do nascimento de Jesus, a encarnação de Deus não foi nada fácil. A mãe de
Jesus, a adolescente judia Maria, engravidou antes de se casar com o noivo José e, por isso,
teve que fugir para as montanhas, e passar uns tempos na casa de Isabel, sua prima, pois
corria o risco de ser apedrejada como pervertida.

Quando Jesus estava para nascer, foi necessário cumprir uma regra do Império Romano que
controlava a vida do seu povo: o censo. Maria, quase em vias de ter o bebê, teve que viajar
com o marido da periferia onde habitavam para uma cidade grande, Belém, para cumprir o
protocolo dos invasores. A cidade estava lotada de gente que precisava se recensear para não
ser perseguida, por isso José e Maria acabaram não encontrando lugar adequado para ficar.
Como eram pobres de periferia, só lhes restou improvisar abrigo num curral, habitação de
animais com condição e aromas nada agradáveis. E o menino-Deus nasceu ali nas piores
condições de higiene e conforto. Frágil, inseguro, já sofrendo os efeitos da injustiça da
dominação dos mais fortes.

 

Não tinha muita gente, e a comida não devia ser farta. O Evangelho de Lucas conta que
apareceram apenas uns trabalhadores rurais, homens de boa-vontade, que estavam por ali e
fizeram festa. O texto de Mateus já fala do aparecimento de gente mais importante, três
magos orientais, de outra religião, que foram avisados por uma estrela-guia, e levaram
presentes. Seja um ou outro grupo, ou os dois, o que importa é que não era grande a festa.
Jesus nasceu em condições muito precárias, pobre, inseguro, na simplicidade, já mostrando ali a que e para quem veio. Que Natal era aquele, gente?

O teólogo católico Leonardo Boff sempre nos lembra que o primeiro Natal representa a inversão que Deus fez à lógica humana: “Todo menino quer ser homem. Todo homem quer ser rei. Todo rei quer ser ‘Deus’. Só Deus quis ser menino”. Por isso foi chamado de Emanuel que, na língua local, significa “Deus conosco”. Não Deus acima de nós, mas Deus entre nós, frágil, pobre, inseguro, excluído, como a grande maioria do povo hoje.

E as dificuldades não paravam por ali. O livro de Mateus conta que o terrível rei Herodes, que
vivia da exploração do seu povo para satisfazer os invasores romanos, com o apoio dos líderes
religiosos da época, ficou sabendo do Natal pelos magos do oriente que estavam em busca do
Deus-menino. Como era genocida, exterminador de opostos, ao se dar conta que os magos
não voltaram para ele para relatar o encontro, e com medo de o menino crescer e lhe tirar o
trono, não se deu ao trabalho de investigar, e simplesmente ordenou o extermínio de todos os
meninos de até dois anos que estivessem em Belém. Foram muitas as famílias desesperadas
com a dor das execuções cruéis.

Diante desta tragédia, Maria e José fugiram com o bebê Jesus para outro país, o Egito, e se
tornaram refugiados lá, onde moraram até que Herodes morresse e só então retornaram para
sua terra. Retomar estas narrativas neste Natal de 2020, marcado por isolamento, restrições, choro e dor de famílias enlutadas, forçosamente nos aproxima do primeiro Natal, aquele sem luzes, sem festa, marcado por dificuldades.

Os que negaram lugar digno a uma mulher grávida prestes a ter um filho e o Herodes assassino estão também entre nós, na forma de gente insensível às necessidades e à dor alheia, e na figura de agentes do Estado. Seja entre pessoas comuns e desde os mais altos cargos até o mais básico, irresponsáveis negacionistas da pandemia e exterminadores de minorias estão aí a produzir morte.

Que Natal é este? É uma oportunidade de nos afirmarmos como pessoas de boa vontade
dispostas a aprender sobre o que realmente importa nesta vida. Por isso, que este seja um
tempo feliz, na medida do possível, de espalhar amor e esperança, como fez o Deus-menino
naquele primeiro Natal.

FÉRIAS
A partir deste 24 de dezembro estarei em férias. Retornarei a atividades e compromissos
formais e aos textos desta Coluna na primeira semana de fevereiro de 2021. Que tenhamos
paz no novo ano de muitos desafios!

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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