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Precisamos falar sobre a defesa da família! 

A pauta família acabou se tornando propriedade de grupos fundamentalistas político-religiosos. É preciso retomá-la

Famílias afetadas pelas fortes chuvas em Minas Gerais.

Foto: Douglas MAGNO / AFP
Famílias afetadas pelas fortes chuvas em Minas Gerais. Foto: Douglas MAGNO / AFP
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Maio é o mês tradicionalmente dedicado à afirmação do valor da família. Esta é uma pauta que tem um apelo culturalmente significativo, dentro e fora das religiões, pois está relacionada a afeto, pertença, identidade, cuidado, doação. 

Apesar da imagem em torno do modelo “comercial de margarina”, com pai, mãe e casal de filhos sentados ao redor de uma mesa, os arranjos familiares na prática cotidiana são muito: incluem uniões não civis; casais sem filhos; casais homoafetivos; ex-casais que dividem ou não responsabilidades com filhos e outros parentes; mães solteiras com filhos; casais, pessoas solteiras ou divorciadas que moram com pais e mães cuidam deles quando idosos; entre outras articulações.

Desde 2010, a pauta da família tem permeado os debates políticos e eleitorais. Quem trouxe o tema para a ribalta alega que a instituição família passou a ser ameaçada por avanços no campo dos direitos de gênero, das mulheres e da população LGBTI+. Estes direitos – que passam, especialmente, pelo enfrentamento da violência e pelas garantias de cidadania plena –  acabam interpretados como fontes de destruição das famílias. 

A pauta família é pauta vai muito além da religião – especialmente para as mulheres

Quem levanta esta bandeira se coloca, principalmente, contra a educação sexual de crianças e adolescentes, contra qualquer direito LGBTI+, contra a criminalização da homofobia e, mais enfaticamente, contra a descriminalização do aborto. Desta posição nasceu a falsidade denominada “ideologia de gênero” e projetos políticos de “escola sem partido”, de “cura gay”, de um “estatuto da família”, de qualquer política que inclua “aborto”, mesmo que seja para salvar a vida de uma mulher).

Estas pautas são antigas, propagadas pelos fundamentalismos político-religiosos a partir dos Estados Unidos desde meados do século XX. Lá, embasou a formação do movimento “Maioria Moral”, muito forte nos anos 70 e 80 e que retomou intensidade com o governo de Donald Trump. 

Nestas bases, há uma perspectiva que leva em conta uma única moral social, extraída de leitura seletiva da Bíblia. Implica certo modelo de família tradicional heterossexual, tomando a mulher com submissão ao homem. Neste contexto, o tema “família” passou a ser relacionado a uma propaganda moral e a um apelo político. Estas pautas têm sido propagadas há décadas no Congresso, e, desde 2019, pelo próprio governo federal. Nos planos estadual e municipal, candidatos vêm apresentando-se também como “defensores da família”.

Esta abordagem, que se intensifica a cada ano eleitoral, levanta um problema: a forma como a pauta da família tem sido imposta é criticada pela esquerda e por grupos pró- direitos. Porém, paradoxalmente, eles se distanciam dessa temática. A pauta família acaba se tornando, portanto, propriedade de grupos fundamentalistas político-religiosos.

É aí que se apresenta um forte desafio. A pauta família vai muito além da religião – especialmente para as mulheres, que têm sido consideradas parcela relevante do eleitorado e, nas igrejas, são o público majoritário.

É, de fato, muito importante defender a família das ameaças que a atingem no cotidiano. Podemos listar algumas:

1) a baixa remuneração no trabalho; 

2) falta de convivência e diálogo por conta do excesso de horas fora de casa; 

3) insegurança alimentar 

4) moradia indigna, sem o mínimo necessário para se viver nela; 

5)  medo de perder a casa com tragédias provocadas por chuvas; 

6) medo de perder patrimônio ou a vida nas mãos de criminosos ou das polícias; 

7) medo de ataques à sexualidade das crianças e adolescentes, em especial das meninas; 

8) medo em relação ao acesso a drogas por crianças e adolescentes; 

9) diferentes modalidades de violência e abusos praticados contra mulheres (crianças, adolescentes e adultas); 

10) medo de que pessoas da família padeçam em uma fila de hospital; 

11) medo que os filhos não alcancem educação formal 

12) medo de como se vive ou vai viver a velhice

Poderíamos listar ainda questões específicas referentes a famílias indígenas, de agricultores, de sertanejos, de ribeirinhos, de catadores de coco, de seringueiros…. Neste Mês da Família, é importante que todas as pessoas sensíveis às causas de direitos e preocupadas com a pauta eleitoral deem prioridade a elas. Afinal, como pudemos reconhecer na lista de preocupações, a família precisa ser defendida!

 

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Magali Cunha

Magali Cunha
Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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