Por que evangélicos foram às ruas em 15 de maio

Tomar a forma de Cristo: este é o grande e forte desafio colocado aos cristãos no passado e no presente

Por que evangélicos foram às ruas em 15 de maio

Blogs,Diálogos da Fé

Tudo o que diz respeito à fé tem muito da vivência de cada fiel. A relação que as pessoas têm com Aquele em quem depositam sua fé deve-se fortemente a uma síntese da religião experimentada (a que lhes foi transmitida e foi aprendida) com o jeito de ser, a formação social, cultural, a história de vida de cada uma, desejos e necessidades.

Por isso somos o tempo todo confrontados com diferentes formas de se relacionar e de falar sobre o mesmo Deus. No caso dos cristãos, e, particularmente, dos evangélicos (sobre os quais esta coluna dedica espaço às quartas-feiras), já existe uma significativa diversidade de grupos originários da Reforma Protestante. E por mais que haja doutrinas, tratados teológicos, orientação de bispos e presidentes de igrejas, líderes e personalidades afins, as pessoas realizam mesmo é uma síntese do que recebem como regras de fé com aquilo que sua consciência e seus afetos (o que lhes afeta – ou não), bem como as necessidades, também orienta na vida.

Daí termos evangélicos reconhecidos como conservadores, alinhados com a agenda da direita política. E também há aqueles do mesmo segmento cristão evangélico caracterizados como progressistas, libertários, alinhados com a justiça social e a cidadania.

Historicamente, dada a teologia e a cultura construída pelos missionários estadunidenses que trouxeram para o Brasil a fé protestante (evangélica) no século 19, este grupo é majoritariamente identificado como conservador, nos costumes e na relação com a sociedade. Desde então, estes traços de conservadorismo foram provocadores do isolamento cultural dos evangélicos (o que foi parcialmente rompido pela cultura gospel, das mídias e do mercado). Foram motivadores também da constituição de celebridades do segmento, cuja mentalidade é fechada e reativa a avanços sociais, especialmente aqueles relacionados à liberdade dos corpos e à pluralidade de ideias. E foram responsáveis tanto pelo silêncio frente às injustiças sociais, ou pelo assistencialismo que as mantêm, quanto pelo apoio aos promotores destas mesmas iniquidades.

 

Entretanto, nesta história também há grupos minoritários, com mentalidade aberta e progressista, que, orientados pelos mesmos princípios religiosos, fazem uma leitura da fé que os move a andar na contramão da tendência conservadora. Promovem uma caminhada de interação com a sociedade, com as suas demandas por justiça e paz, pela defesa de direitos. Estes grupos estão presentes desde a chegada dos missionários ao país em organizações e movimentos, nas mais diferentes frentes, contra a pobreza, contra o racismo, pelas mulheres, pelos povos indígenas, pela/os LGBT+, pela juventude, pelo estado de direito, para citar algumas.

Estas posturas diferentes mostram como a mesma fé, o mesmo batismo, a mesma Bíblia levam a leituras e compromissos sociais e políticos distintos, porque, no fim das contas (a síntese sobre a qual falei acima) são a vivência, a consciência, as necessidades e a sensibilidade humana que as determinam.

Uma pessoa evangélica que concorda que a população deve receber armas para eliminar quem a ameaça, ou que a polícia pode dar tiros aleatórios do alto sobre uma favela, não faz isto por conta da doutrina cristã, uma vez que esta é pela paz com justiça e contra a pena de morte. A defesa deste tipo de política dá-se pelas afinidades pessoais com tal proposta, por vezes sob orientação de líderes religiosos ou políticos. São as histórias de vida e a formação baseadas na cultura da violência que orientam a fé nesse sentido.

Da mesma forma, o extenso número de evangélicos que ocuparam as ruas neste 15 de maio contra a deformação da Previdência Social e contra a destruição da educação pública, promovidas pelo governo federal, o fizeram pela fé baseada em uma formação e uma história de vida na direção da justiça, dos direitos e da paz.

Quem está certo? Não é fácil julgar a partir dos nossos próprios valores. Quem tender a uma postura conservadora, dirá que é esta a correta. Quem tem afeição por princípios democráticos e libertários afirmará ser esta a dimensão correta.

No entanto, se formos “terrivelmente cristãos”, independentemente de doutrinas ou regras denominacionais, existe um parâmetro de julgamento, afirmado desde os primórdios da era cristã. Ele é orientado pelo apóstolo Paulo, quando escreve um dos textos mais antigos do Novo Testamento da Bíblia, dirigido à igreja da Galácia: “É bom ser sempre zeloso pelo bem e não apenas quando estou presente convosco, meus filhos, por quem, de novo, sofro as dores de parto, até ser Cristo formado em vós…” (Gálatas 4.18-19). Tomar a forma de Cristo: este é o grande e forte desafio colocado aos cristãos no passado e no presente.

Tomar a forma de Cristo é assumir as posturas de Jesus de Nazaré, o Cristo, o Messias, razão da fé dos cristãos. Este que foi todo amor, misericórdia, paz, respeito, inclusão, despojamento, inconformismo e indignação frente à exclusão de iguais e às injustiças sociais do seu tempo e lugar. Foi julgado e morto por religiosos justamente por isto. Eis aí um parâmetro acima de qualquer doutrinação ou discurso de celebridades e lideranças para se definir rumos a tomar no Brasil 2019.

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

Compartilhar postagem