Diálogos da Fé

Blog dedicado à discussão de assuntos do momento sob a ótica de diferentes crenças e religiões

Diálogos da Fé

Os que se comprometeram a acabar com a corrupção a cometeram em nome da religião

‘O problema é quando o indivíduo começa a tirar o proveito do seu cargo para o seu próprio bem ou para o bem do grupo a que pertence’

O pastor Milton Ribeiro. Foto: Evaristo Sá/AFP
O pastor Milton Ribeiro. Foto: Evaristo Sá/AFP
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Antes de mais nada, quero começar a minha reflexão para esta semana pedindo desculpas pelo sumiço de tanto tempo a quem acompanhava os escritos meus neste espaço. Imagino que nada lhes falta nesse meu sumiço longo, mas sinto-me responsável por não ter contribuído com este blog há tanto tempo. Infelizmente, nós, pesquisadores e pesquisadoras, não recebemos verbas tão boas, como ouro, que favoreçam a dedicação total para escrita e produção – sem contar que há quem nem se preocupe com isso, claro. 

Até cerca de 40-50 anos atrás, a teoria da secularização propunha rigidamente o desaparecimento da religião e, por isso, em muitos espaços públicos, houve uma exclusão categórica e, diria eu, sistemática das classes religiosas. O pressuposto de que a religião seria vencida pela razão e ciência modernas – como se fosse uma contrária a outras – fez com que não considerasse nenhum tipo de inclusão dos indivíduos religiosos em vários setores religiosos. Na contramão disso, alguns grupos fortaleciam esse pressuposto colocando a religião no sentido contrário de tudo quanto era produto da modernidade. Um dos resultados foi o surgimento sistemático de fundamentalistas dentro de diversas religiões. 

O ressurgimento das classes religiosas no âmbito da política e das esferas públicas e a adaptação de conceitos das religiões para a modernidade surpreenderam os estudiosos das áreas de humanas e propiciaram a mudança paradigmática no âmbito da secularização. A partir daí, a secularização não mais foi considerada como um fator excludente quanto à religião, mas sim um modo de governar que auxilia na moderação entre várias religiões que compõem as sociedades. 

Sem sombra de dúvidas, a atuação de grupos pentecostais e neopentecostais na política foi um dos motivos para tal mudança de paradigma secularizatória, bem como o crescimento desses grupos. Um fruto disso, no Brasil, é a chamada “Bancada Evangélica” no Congresso Nacional e o outro é a eleição do atual presidente em 2018. Há quase que um consenso de que a aliança entre Jair Bolsonaro e grupos pentecostais e neopentecostais é um fator determinante na sua eleição. Demonstração disso: pastores e pastoras nas pastas ministeriais e a recente descoberta escandalosa de corrupção do pastor Arilton Moura.

Não tenho nada contra a ideia de que pessoas religiosas tenham cargos públicos desde que possam distinguir entre a sua identidade religiosa – esfera privada – e o cargo público que exerce – esfera pública. Em termos que o sociólogo Alfred Schutz teorizou, desde que a pessoa crie as suas “zonas de relevância” e as siga estritamente, não há nada de errado que uma pessoa religiosa exerça um papel político ou público. 

O problema é quando o indivíduo começa a tirar o proveito do seu cargo para o seu próprio bem ou para o bem do grupo a que pertence. E é a partir daí que começamos a chamar essa ação de corrupção. Tínhamos, até ontem, um pastor à frente do Ministério da Educação. Pelo que tenho acompanhado nos noticiários, o presidente “fez acordos com as lideranças evangélicas” para a exoneração de Milton Ribeiro da pasta. Ora, estamos em um País que se declara laico. Por qual motivo um presidente precisa da aprovação de um certo grupo para realizar algo dentro de seu governo?

Pelo visto, meus amigos e minhas amigas, aqueles que “se comprometeram” a acabar com a corrupção a fizeram “em nome da religião”. A educação que o ex-ministro e os envolvidos nesta corrupção não os ajudou em nada para mostrar que poderiam fazer distinção entre seus cargos públicos e seus foros íntimos, concretizando a emblemática afirmação de Paulo Freire mais uma vez: quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor. 

Atilla Kuş

Atilla Kuş
Cientista da religião, mestre e doutorando em Ciência da Religião pela PUC-SP. Membro do Centro de Estudos das Religiões Alternativas e de Origem Oriental no Brasil-CERAL da PUC-SP e do Grupo de Trabalho Oriente Médio e Mundo Muçulmano-GTOMMM da USP.

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