Diálogos da Fé

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Onde está a fé? Para Bolsonaro, essa pergunta não faz sentido

Felizmente, existe também quem confia na mensagem deixada por Jesus de Nazaré, de que ‘foi do agrado do Pai dar-nos o seu Reino’

Papa Francisco beija uma escultura do menino Jesus na Basílica de São Pedro, no Vaticano. 

Foto: Filippo MONTEFORTE / AFP
Papa Francisco beija uma escultura do menino Jesus na Basílica de São Pedro, no Vaticano. Foto: Filippo MONTEFORTE / AFP
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Ao constituir-se como disciplina científica, a sociologia da religião adotou a distinção entre fé e religião, herdada da Teologia luterana. A se caracteriza por sua dimensão subjetiva: a confiança na palavra de outra pessoa, ainda que esta não esteja fisicamente presente; já a característica principal da religião reside em sua objetividade: o conjunto de ritos e crenças que podem ser observados também por quem não crê neles.

Estabelecido que a religião é a expressão coletiva de uma fé socialmente partilhada, a sociologia pode estudar os fenômenos religiosos sem ocupar-se com a dimensão subjetiva da fé. A suspeita sartriana da má-fé, porém, me faz extrapolar os limites da sociologia e aventurar-me no pantanoso terreno da religião que se esvazia da fé para tornar-se veículo da política.

A internet tem mostrado episódios de visita de Bolsonaro a templos católicos para rezar em tempo de quaresma. O de maior repercussão foi sua ida, no dia 4 de abril, ao Santuário do Corcovado. Acompanhado por alguns ministros, ele firmou um acordo com a Arquidiocese do Rio de Janeiro para facilitar o acesso ao Santuário, que é parte de um parque nacional.

Embora fosse um acordo de pouca importância, o cardeal-arcebispo, Dom Orani Tempesta, fez o possível para dar realce ao evento. Acompanhado por um bispo-auxiliar e pelo reitor do Santuário do Cristo Redentor, todos solenemente paramentados, celebrou a missa para um pequeno grupo de governantes e fizeram fotos para divulgar o evento. Para todos os efeitos, aquela missa foi um momento de oração em ação de graças, inserido nas comemorações do centenário do lançamento da pedra fundamental do Cristo Redentor. Cabe perguntar, porém, se aquela celebração foi uma expressão da Fé cristã.

Para Bolsonaro, essa pergunta não faz sentido. Político profissional há mais de trinta anos, e dando mostras de que quer permanecer no posto, usou a missa como oportunidade para associar sua imagem a da alta hierarquia católica, num espaço religioso de grande prestígio.

Frequentador de qualquer Igreja, transita com a mesma tranquilidade em espaços católicos e evangélicos, desde que favoreçam sua imagem. Ele se mostra agradecido quando recebe as bênçãos de pastores em meio a louvores ao Senhor. Mostra-se muito satisfeito, também, quando na missa é convidado a ler um texto bíblico diante das câmeras de alguma TV católica. Mas não fica constrangido se tudo que consegue é ficar na primeira fileira durante a missa. Para ele o que importa é manter a imagem do governante que coloca “Deus e a Família acima de tudo”. Competentemente trabalhada por sua equipe de comunicação, essa imagem será veiculada por suas redes na medida que se revelarem úteis à sua permanência no governo.

Aproveitando o palco religioso, o ministro Paulo Guedes resolveu dar uma roupagem cristã ao seu plano de privatizações de bens públicos: propôs transferir imóveis e recursos da União para atender as necessidades de famílias pobres. Segundo foi noticiado, o ministro disse que o governo, tendo “um trilhão em ativos imobiliários, em ações de empresas estatais, em recebíveis, é inconcebível que, em tempos difíceis como esse que atravessamos e com a dificuldade trazida pela pandemia […], não aprendamos a lição da fraternidade, que está aqui, que é o símbolo da igreja.” Não falou em repassar essa riqueza diretamente para as famílias pobres, mas em vendê-la para fazer caixa e assim poder atender os pobres. Quem conhece a passagem bíblica que fala da mulher que perfuma os pés de Jesus – João 12, 4-6 – talvez evoque outro personagem que naquele tempo fez proposta similar…

Fica em suspenso, porém, a questão sobre a fé dos celebrantes. Com certeza Dom Orani conhece bem o que seu homenageado tem feito à frente do governo federal, com sua política de morte, de ódio e contra os direitos humanos. Apesar disso, ofereceu-lhe o espetáculo de uma missa diante do Cristo Redentor. Isso é um escândalo para quem ainda acredita na Igreja católica como continuadora da missão de Jesus Cristo. Por essas e outras, aumenta a decepção dos fiéis com sua Igreja, tão apegada aos rituais religiosos, mas tão tímida quando precisa condenar as violações aos direitos humanos, o massacre de populações indígenas e de jovens negros das periferias, e a devastação da Amazônia.

Felizmente, existe também quem confia na mensagem deixada por Jesus de Nazaré, de que “foi do agrado do Pai dar-nos o seu Reino”. Com Francisco, um punhado de bispos, padres, religiosas e religiosos, leigas e leigos, teimamos em levar a sério a Fé cristã. Com ou sem religião oficial.

 

Pedro A. Ribeiro de Oliveira
Leigo católico, nascido em 1943, doutor em sociologia, foi professor nos Programas de Pós-graduação em Ciência/s da Religião da UFJF e PUC-Minas. É membro de Iser-Assessoria e da Coordenação do Movimento Nacional Fé e Política.

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