Diálogos da Fé

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O Papa Francisco e as desejadas mudanças na Igreja Católica

Francisco não parece ter estratégia ao preencher os cargos de direção. No entanto, é mestre quando se trata de acionar processos de mudança

Foto: Filippo MONTEFORTE / POOL / AFP
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Quem olha a Igreja Católica hoje vê o marasmo. Ainda que mude o padre na paróquia ou o bispo na diocese, a rotina não muda. Uma ou outra figura desponta clamando em defesa dos pobres e dos direitos humanos, mas essas são as exceções que confirmam a regra. É claro que o estilo de Francisco é muito diferente de seu antecessor Bento XVI, mas o establishment eclesiástico segue o mesmo de outros tempos.

Será que há algo de novo na velha Igreja Católica Romana? É o que tento responder, a partir de uma análise sociológica dessa instituição.

Em sua primeira encíclica – Alegria do Evangelho, de 2013 – o Papa Francisco diz que “o tempo é superior ao espaço”. E explica que isso significa “trabalhar pensando no longo prazo, sem obsessão por resultados imediatos, dando mais valor ao tempo dos processos do que aos espaços do poder”. Na primeira vez que li esse parágrafo não percebi aonde o Papa queria chegar. Só agora percebo que esta é sua forma de agir no governo da Igreja romana.

Francisco não parece ter estratégia ao preencher os cargos de direção: basta pensar nos cardeais e altos dignitários da cúria romana que, embora fizessem oposição a ele não foram transferidos. Mais grave, talvez, são as nomeações de bispos, ainda a cargo de núncios apostólicos em geral não-alinhados com o Papa. No entanto, ele é mestre quando se trata de acionar processos de mudança. Senão, vejamos em poucas palavras a história recente da Igreja católica.

Ao convocar o Concílio Vaticano II, realizado de 1961 a 1965, o Papa João XXIII queria colocar a Igreja católica em diálogo com o mundo moderno, com o qual ela havia rompido relações desde o século XIX. Para isso o Concílio precisou descentralizar o poder eclesiástico que desde 1870 concentrava-se todo no Papa e na Cúria Romana. Essa descentralização se deu pela recuperação da colegialidade episcopal. Conforme esse antigo princípio, a autoridade do bispo não se restringe ao governo da própria diocese: ela estende-se ao conjunto da Igreja, desde que o bispo não esteja só, mas sim em comunhão com os outros. Fruto mais conhecido do princípio da colegialidade são as Conferências Episcopais – no Brasil, a CNBB – que devem orientar a Pastoral de conjunto no País ou Região.

O papel de destaque coube à Conferência Episcopal da América Latina e Caribe, que em 1968 adaptou as diretrizes do Concílio Vaticano II a nosso Continente. Realizado no contexto europeu, o Concílio pedia que a Igreja se abrisse ao mundo moderno. Aqui, porém, o maior desafio não era a modernidade, mas sim a pobreza fruto da injustiça social e econômica. Por isso, os bispos reunidos em Medellín deram início ao grande movimento de abertura da Igreja ao mundo dos pobres, criando Comunidades Eclesiais de Base, Comissões de Justiça e Paz e as diversas Pastorais Sociais (da Terra, Povos Indígenas, Trabalhadores, Crianças e tantas outras). E o Papa Paulo VI deu sua aprovação a essas inovações pastorais que ele, de Roma, não teria como criar. 

O exemplo do nosso Continente estendeu-se a Conferências de outras regiões e em poucos anos a África, Ásia e Europa fizeram o mesmo esforço de adaptar o Concílio Vaticano II às suas realidades. Assim a Igreja católica foi abandonando o rosto monolítico herdado do século XIX e adquiriu diferentes formas de ser a mesma Igreja, fazendo valer a desejada pluralidade na unidade.

Outra forma importante de colegialidade são os sínodos, prática usual em outras Igrejas cristãs. Diferentemente dos concílios, que devem reunir a totalidade dos bispos, os sínodos reúnem apenas representantes dos bispos, eleitos ou convidados por Roma. Instituído na forma atual logo após o Concílio, o sínodo favorece a pluralidade no interior da igreja católica como instrumentos de aconselhamento do Papa sobre temas por ele escolhidos. Família, Juventude e Amazônia foram os temas dos sínodos convocados por Francisco. O próximo, a realizar-se em 2023, tem por tema a Sinodalidade da Igreja. Na sua forma de preparação fica clara a estratégia bergogliana: só depois de consultadas as bases da Igreja, os bispos se reunirão para produzir a síntese a ser entregue ao Papa.

Francisco já deu mostras de seu desejo de mudança na Igreja: quer uma “Igreja em saída para as periferias sociais e existenciais”. Mas sabe que não haverá mudança efetiva enquanto perdurar a atual forma de poder eclesiástico. Foi superado o centralismo papal – e Francisco, com seu jeito descontraído, está desmontando a figura do Papa como autoridade absoluta – mas é preciso ir além da colegialidade episcopal e introduzir a sinodalidade eclesial. É a Igreja em sua totalidade de Povo de Deus caminhando na História, que deve ir em missão às periferias. Este é o sentido profundo da sinodalidade eclesial, cujos primeiros passos estão sendo dados. O seu resultado não podemos ainda prever, mas que há algo de novo no campo católico, há.

Pedro A. Ribeiro de Oliveira
Leigo católico, nascido em 1943, doutor em sociologia, foi professor nos Programas de Pós-graduação em Ciência/s da Religião da UFJF e PUC-Minas. É membro de Iser-Assessoria e da Coordenação do Movimento Nacional Fé e Política.

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