O messianismo perverso da Lava Jato

Toda a atuação de Dallagnol passou a ser divulgada em eventos de igrejas e pelas mídias como uma vocação cristã, se distanciando da Justiça

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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Messias, mais do que um nome, é, na origem do termo hebraico mashiah (ungido), um título atribuído a uma pessoa escolhida por Deus para resgatar o povo das mazelas, um salvador, que implantaria, com suas ações, uma nova ordem social. Jesus de Nazaré foi aclamado por seus seguidores como mashiah, traduzido na língua mais usada na época, o grego, por christos.

A partir desta compreensão, passaram a ser identificadas situações no mundo em que, para além de Jesus, figuras religiosas ou grupos, com motivação religiosa, liderados por uma personalidade carismática, assumiam o papel de Messias em causas as mais diversas. Estes são denominados movimentos messiânicos.

No Brasil, temos registros de muitos deles. Variam de contestações pacíficas a oposições armadas. Entre os mais destacados estão Juazeiro do Padre Cícero e Canudos de Antônio Conselheiro (no século 19), o Contestado dos monges João e José Maria (início do século 20), os Borboletas Azuis, dos anos 1970.

Ao escrever sobre este tema, o sociólogo Lísias Nogueira Negrão faz uma profecia: “Devemos estar preparados para o surgimento de novos movimentos nos centros urbanos, orientados não mais por visões religiosas específicas, mas por perspectivas ecléticas e plurais (…). O pluralismo religioso e a difusão pela mídia das mais variadas práticas religiosas e sistemas alternativos de conhecimento criam um caldo de cultura místico capaz de produzir os mais surpreendentes resultados”.

Parece que a profecia de Lísias Negrão se concretizou na forma como foi estabelecida a Operação Lava Jato no Brasil. A imagem construída em torno do procurador evangélico líder da força-tarefa Deltan Dallagnol e do seu parceiro juiz Sérgio Moro, como a consciência moral do Brasil, não se mostrou relacionada ao Direito ou à Justiça mas, sim, a uma missão divina.

 

O ex-juiz, hoje ministro da Justiça, Sérgio Moro não tem identidade religiosa mas o jovem procurador do Ministério Público, sim (é membro da Igreja Batista do bairro Bacacheri, Curitiba), e durante estes cinco anos de destaque nas mídias isto foi ressaltado pelo próprio e por lideranças evangélicas que buscavam benefícios na popularidade dele.

Toda a atuação de Dallagnol passou a ser divulgada em eventos de igrejas e pelas mídias como uma vocação cristã. Essa repercussão estabeleceu um caráter messiânico à atuação do procurador e da operação. Deltan Dallagnol e Sérgio Moro tornaram-se não apenas paladinos da justiça, mais ainda, foram ungidos por uma parcela cristã, tornados Messias, salvadores do Brasil.

Os agentes públicos investiram-se desta missão, de acordo com as bombásticas revelações da agência de notícias The Intercept Brasil, publicada no domingo 9, e colocaram a Operação Lava Jato como algo divino, acima do bem e do mal. “Dentro da minha cosmovisão cristã, eu acredito que existe uma janela de oportunidade que Deus está dando para mudanças”, disse Dallagnol, em palestra em uma Igreja Batista na Tijuca, Rio de Janeiro, em 2015, depois de afirmar que Deus colabora com a Lava Jato.

Numa das conversas pelo Telegram, vazadas pela agência, Dallagnol celebra o apoio público ao trabalho da Lava Jato e diz ao juiz Moro: “Seus sinais conduzirão multidões, inclusive para reformas de que o Brasil precisa, nos sistemas político e de justiça criminal”. O juiz aceita a louvação, parabeniza todos e conclui condenando o Congresso Nacional e desdenhando do STF: “Ainda desconfio muito de nossa capacidade institucional de limpar o congresso. O melhor seria o congresso se autolimpar mas isso não está no horizonte. E não sei se o STF tem força suficiente para processar e condenar tantos e tão poderosos”.

 

Nesse messianismo havia lugar, inclusive, para o sacrifício pela fé. Em abril de 2018, nos dias que antecederam a prisão de Lula, Dallagnol publicou no Twitter que estaria em jejum e oração para que ela acontecesse: “Quarta-feira é o dia D da luta contra a corrupção na #LavaJato. Uma derrota significará que a maior parte dos corruptos de diferentes partidos, por todo país, jamais serão responsabilizados, na Lava Jato e além. O cenário não é bom. Estarei em jejum, oração e torcendo pelo país”.

Todas as controvérsias dos cinco anos da operação liderada pelo procurador evangélico acabam de vir à tona com a reportagem do The Intercept Brasil. Evidencia-se a ilegalidade de ações como a prática de escutas telefônicas sem autorização judicial e a apresentação pública de acusações sem provas para destruir a reputação de acusados. Além disto, Dallagnol está envolvido na aquisição de apartamentos do Programa Minha Casa Minha Vida como investimento e no recebimento mensal de verbas públicas para auxílio-moradia (4.377,73 reais), mesmo sendo possuidor de imóvel próprio em Curitiba, onde mora.

O crescimento numérico, geográfico, patrimonial, midiático e político dos evangélicos no Brasil produziu muitos efeitos, entre eles a potencialização de um pluralismo religioso, conforme a profecia de Lísias Negrão citada acima. Isso tudo gera um caldo de cultura místico capaz de produzir os mais surpreendentes resultados, entre eles um messianismo judiciário. Só que desta vez, o caráter iníquo deste messianismo, em que os fins (uma luta seletiva entre o bem e o mal) justificam os meios (práticas ilegais, de logro do Direito), acaba revelando o lado mais obscuro que a instrumentalização da fé pode promover.

Por isso, os Evangelhos registram um alerta de Jesus sobre os falsos messias (Mateus 24) e o mesmo faz o apóstolo Paulo: “Ora, o aparecimento do iníquo é segundo a eficácia de Satanás, com todo poder, e sinais, e prodígios da mentira, e com todo engano de injustiça aos que perecem, porque não acolheram o amor da verdade para serem salvos. É por este motivo, pois, que Deus lhes manda a operação do erro, para darem crédito à mentira, a fim de serem julgados todos quantos não deram crédito à verdade; antes, pelo contrário, deleitaram-se com a injustiça” (Carta aos Tessalonicenses 2. 9-12).

E eu nem falei da vaidade que o reinado messiânico pode promover… Mas isto é tema para outro artigo.

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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