Diálogos da Fé

O Brasil vive um calvário, mas espera por ressurreição

O momento no País é de sofrimento, violência e morte

Jovens mortos em uma chacina em Maricá, Rio de Janeiro
Jovens mortos em uma chacina em Maricá, Rio de Janeiro

No clima da semana chamada santa por cristãos e cristãs, difícil não pensar que o Brasil vive um calvário. Além dos tempos árduos de se viver, com redução de direitos que sucateiam trabalho, educação e saúde, as disputas políticas polarizadas extrapolam palavras e símbolos e extremistas ganham protagonismo.

Este março de 2018 fica marcado pela execução da vereadora Marielle Franco e pela escalada de violência política. Somam-se a ela a morte dos cinco jovens do hip hop de esquerda de Maricá, no Rio de Janeiro, ameaças à integridade física do ministro do Supremo Edson Fachin e sua família, e os atentados terroristas à caravana do ex-presidente Lula, no Sul do País.

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Vive-se aqui o calvário, sinônimo de sofrimento, violência, silenciamento do oposto, morte.

Em busca de reflexão sobre estes tempos dramáticos, deparo-me com estes versos de “Que estou fazendo se sou cristão?”, compostos durante a ditadura pelo pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil João Dias de Araújo (1931-2014), transformados em canção pelo médico e músico Décio Lauretti:

Que estou fazendo se sou cristão? Se Cristo deu-me o seu perdão

Há muitos pobres sem lar, sem pão, há tantas vidas sem salvação

Meu Cristo veio pra nos remir, o homem todo sem dividir,

não só a alma do mal salvar, também o corpo ressuscitar.

Há muita fome em meu país, há tanta gente que é infeliz,

Há criancinhas que vão morrer, há tantos velhos a padecer.

Milhões não sabem como escrever, milhões de olhos não sabem ler

Nas trevas vivem sem perceber que são escravos de outro ser.

Aos poderosos eu vou pregar, aos homens ricos vou proclamar

Que a injustiça é contra Deus, e a vil miséria insulta aos céus

(A canção pode ser ouvida na gravação do Grupo Milad, disco Água Viva, 1985) https://www.youtube.com/watch?v=rnQ643PBVJw)

Para além da busca pela salvação da alma com uma morada no céu, o pastor João Dias e muita gente no seu tempo havia construído um jeito de entender a fé e a relação com Deus, transpondo a dimensão individualista. Isto significava um olhar sensível dirigido para o ser humano, sem dividi-lo em alma e corpo, com os óculos da misericórdia e da solidariedade, inspirado na ação de Jesus de Nazaré, o grande mestre.

Esta fé relacionada com a vida gerava compromissos por relações justas entre os indivíduos e se desdobrava em ações com base na compreensão expressa no refrão de 1966: “A injustiça é contra Deus e a vil miséria insulta os céus”.

Nestes dias em que cristãos recordam a última semana de Jesus de Nazaré, vale pensar como Deus é insultado pelo que acontece em nosso País. Importa recordar a esperança da passagem (Páscoa) do calvário (morte imposta) para a ressurreição (vida plena). Com isto, nos unimos a cristãos que insistem em buscar viver a fé na contramão das teologias em predominantes expressas em pregações e nas paradas de sucesso gospel.

Entretanto, como foi em 1966 com o pastor João Dias de Araújo, grupos cristãos que caminham nessa direção são incrivelmente acusados de marxistas e comunistas, e recebem xingamentos atualizados como “esquerdopatas” e “petralhas”.

Além de ignorância e maldade, uma compreensão sobre isto pode estar nos próprios estudos do pastor João Dias. Em um deles, denominado “Imagens de Jesus Cristo na cultura do povo brasileiro”, de 1974, ele aponta quatro formas de apresentação de Jesus na mente e nas práticas populares: um Cristo morto, distante, um Cristo sem poder, um Cristo que que não inspira respeito e um Cristo desencarnado.

Provavelmente, quem acusa e xinga quem quer ver “o homem (e a mulher) todo sem dividir”, crê nestas formas de Cristo e desconhece Jesus de Nazaré, aquele das narrativas dos Evangelhos, que viveu nas periferias, se misturou com gente que não era vista como “de bem” pela cultura da época, confrontou injustiças e abusos do poder político e da religião, chorou e caminhou com o povo sofrido e excluído.

Por isso foi condenado à pena de morte, depois de ser preso e torturado. Viveu o calvário, mas segundo a fé de seus seguidores, experimentou a passagem para a vida, a ressurreição, fonte de toda esperança de que as forças da morte imposta não prevalecerão.

Quem desconhece Jesus de Nazaré precisa de conversão (e aqui uso linguagem evangélica). É a chance de se juntar a outros, como o pastor João Dias de Araújo, tantos que os precederam e a muitos do Brasil de hoje que se inspiram na humanidade divina de Jesus e buscam respostas para a pergunta “Que estou fazendo se sou cristão?”

Gente que empenha a vida para “não só a alma do mal salvar, também o corpo ressuscitar”, no compromisso com a justiça e se insere em inúmeros esforços de solidariedade: com empobrecidos, com dependentes químicos, com presos, com vítimas de violência nas cidades e no campo, com indígenas, com mulheres, com pessoas com deficiência, com a população negra, com imigrantes. Nos processos de transformação das realidades de exclusão e discriminação. Na militância política institucional e nos movimentos sociais, nas ruas, nas redes digitais.

Com isso, cidadãos de boa vontade permanecem reavivando a fé de que podemos viver um calvário, mas a Páscoa virá, tornando possível a passagem da morte, imposta por um sistema político e econômico injusto, para a vida plena, que é nosso direito humano: Ressurreição.

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