Diálogos da Fé

Blog dedicado à discussão de assuntos do momento sob a ótica de diferentes crenças e religiões

Diálogos da Fé

Nestes tempos de dor e desesperança, cuidemo-nos!

Essa dor coletiva de ver as injustiças sociais aumentarem, dos desmontes institucionais, aos ataques à democracia, tem gerado um ‘tormento mental’

Foto: Kenzo Tribouillard/AFP
Foto: Kenzo Tribouillard/AFP
Apoie Siga-nos no

A conjuntura tem nos atravessado de maneira abrupta. São tantas mazelas acontecendo em nosso país que quase não há mais tempo para se enlutar e processar essa multidão de sentimentos amargos que temos vivido. Os militantes dos movimentos populares e ativistas religiosos de diversas tradições têm sentido, o que Eduardo Losso pontua como, depressão cívica. Losso retoma o conceito já utilizado por Benedetto Croce no contexto do fascismo italiano, e também mencionado por Frei Betto, em 2015,  quando nem mesmo o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff havia ocorrido, muito menos a nefasta eleição de 2018. Essa dor coletiva de ver as injustiças sociais aumentarem, dos desmontes institucionais, aos ataques à democracia, tem gerado um “tormento mental” para essa camada progressista da população: “Sofremos, portanto, mais como cidadãos e não tanto como sujeitos individuais.”  

A Bíblia nos mostra em diversos momentos essa incompreensão e confusão mental de algumas pessoas ao observar as maldades se multiplicando. Retomo o livro de Salmos, que sempre trago em minha caminhada como uma prece e lembrete. O biblista da libertação Milton Schwantes (no artigo “Sabedoria: textos periféricos?”, revista Estudos de Religião, 2008) dizia que: “Salmos não só são orações, são também encaminhamentos sábios e práticos para a vida.” 

Quero trazer à memória o Salmo de número 73, conhecido como um dos salmos de Asafe. É uma lamentação frente à violência imposta por opressores que enriquecem a custas do povo, um lamento-protesto: “Como assim que os que planejam o mal, que zombam da vida e do povo,  que só falam violências e maquinam o mal estão prosperando? Como assim os justos, aqueles e aquelas que tem buscado a justiça, a vida em abundância, tem perecido?” O desabafo vem: “Quando tentei entender tudo isso, achei muito difícil para mim” (Sl 73:16)…

O sentimento que o salmista expressa é o que muitos de nós temos vivido: “o meu espírito se amargurava, e sentia picadas no meu coração” (Sl 73:21). 

O assassinato brutal do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips nos fez rememorar a dor da perda de Marielle Franco, como bem colocou Magali Cunha em seu último artigo na coluna Diálogos da Fé, testemunhos vivos, mártires que pagaram com a própria vida o preço de seu compromisso com a justiça. Algo mexe em nossas entranhas quando vemos pessoas engajadas na busca pelo bem-viver da humanidade, das florestas, rios e matas se indo pelas mãos de um projeto de poder corrupto que destroça tudo o que vê pela frente pela simples ganância. 

Entretanto, há feixes de luz de esperança, no salmo de Asafe, que após seu lamento nos lugares sagrados, compreendeu o destino dos corruptos: “São destruídos de repente, completamente tomados de pavor! São como um sonho que se vai quando a gente acorda…” (Sl 73:19-20).  

Eu diria que são como um pesadelo que nos assombra, seja quando estamos acordados ou dormindo!  As últimas eleições de Nuestra América, com a vitória de Gustavo Petro e Francia Márquez, o primeiro governo de esquerda da história da Colômbia, nos fazem relembrar a chama da esperança. Uma esperança que foi construída com a classe trabalhadora dos movimentos de mulheres, de negros e de juventude.  Uma esperança-luta que nos convoca a trabalharmos, avançarmos em nossas ações e estratégicas, para as eleições deste ano.

Schwantes aponta que: “Horizontes contidos não necessariamente obscurecem o dia-a-dia. Cancelas fechadas ainda não acabam com a vida, ainda que a encurtam. Tempestades no horizonte tendem a aproximar pessoas, corpos, pois o medo que vem pode agrupar. (…) No centro estamos nós, pessoas, e aquilo que fazemos ou deixamos de fazer.”

Eduardo Losso inicia seu texto sobre a depressão cívica retomando a fala de Lula, candidato à presidência, no lançamento de sua chapa. O ex-presidente assim disse:“ é preciso mais do que governar – é preciso cuidar (…) e nós vamos outra vez cuidar com muito carinho do Brasil e do povo brasileiro”.  

A fé cristã traz a dimensão do cuidado como um elemento central na vivência da fé, o versículo conhecido de muitos que está em João 13:34, “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Não é algo passivo, um sentimento abstrato, mas uma ação. “No centro estamos nós”: Amar é o cuidado com o próximo, com nossos companheiros e companheiras de luta, nas trincheiras dos movimentos populares, dos irmãos e irmãs de fé plural e anti-fundamentalista que tem sofrido os tantos males psicossociais intensificados desde 2018. Losso nos dá uma esperança, uma ação, tal qual a estrutura de um Salmo: “os progressistas precisam de um verdadeiro cuidado coletivo.” Pois, então, cuidemo-nos!

 

Angelica Tostes

Angelica Tostes
Teóloga, mestra em Ciências da Religião, professora e pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social

Tags: ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor...

Apoiar o bom jornalismo nunca foi tão importante

Obrigado por ter chegado até aqui. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, que chama as coisas pelo nome. E sempre alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se este combate também é importante para você, junte-se a nós! Contribua, com o quanto que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo completo de CartaCapital.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor...

Apoiar o bom jornalismo nunca foi tão importante

Obrigado por ter chegado até aqui. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, que chama as coisas pelo nome. E sempre alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se este combate também é importante para você, junte-se a nós! Contribua, com o quanto que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo completo de CartaCapital.