Diálogos da Fé

Blog dedicado à discussão de assuntos do momento sob a ótica de diferentes crenças e religiões

Diálogos da Fé

Mais do que nunca, precisamos de Dorothys, Chicos, Marielles, Brunos e Doms

A pergunta de Marielle ainda ecoa: ‘Quantos mais vão precisar morrer…?’

Dorothy Stang. Foto: Reprodução
Dorothy Stang. Foto: Reprodução
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Escrevo este artigo no clima de desesperança em torno do paradeiro do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, após nove dias de desaparecimento dos dois no Vale do Javari, Amazonas. A agonia de acompanhar o caso foi agravada com a confusão criada pelo governo brasileiro por meio de informações conflitantes de corpos encontrados e de buscas que continuam.

As circunstâncias do desaparecimento causam indignação. Bruno Pereira, muito experiente na região, foi exonerado da Coordenação Geral de Indígenas Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) da Funai em outubro de 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro. Um mês antes, o indigenista da Funai, Chefe do Serviço de Gestão Ambiental na Frente de Proteção, Maxciel Pereira dos Santos havia sido assassinado, em Atalaia do Norte, Amazonas. 

A exoneração de Bruno Pereira aconteceu depois que ele coordenou uma operação que expulsou centenas de garimpeiros da Terra Indígena Yanomami, em Roraima. Logo depois, o delegado da Polícia Federal Marcelo Xavier Silva assumiu a presidência da fundação, apoiado pela bancada ruralista. No lugar do indigenista assumiu o missionário evangélico Ricardo Lopes Dias, que ficou apenas nove meses na posição, após contestações judiciais sobre a incompatibilidade de tal nomeação. 

No Brasil, durante a ditadura militar, foram sete os presbiterianos e metodistas executados pelo regime

Bruno Pereira passou a atuar na União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), para colaborar com a fiscalização da região, contra o ataque de garimpeiros, madeireiros e pescadores. As ameaças que o indigenista recebia eram constantes e foram denunciadas às autoridades.

Já o britânico Dom Philips vive no Brasil há 15 anos.  Em seus trabalhos como jornalista sempre revelou compromisso com a defesa da região amazônica. A viagem com Bruno Pereira tinha o objetivo de coletar mais conteúdo para o livro que está escrevendo sobre a região.

Não é difícil inferir o rumo dos acontecimentos e ficar indignada com a morosidade das buscas pelas autoridades quando o desaparecimento foi anunciado pela Unijava.

Esta tragédia me trouxe à memória que um dia antes de sua execução, a vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, em referência à violência policial que mata jovens negros das favelas perguntou: “Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”. No dia seguinte, ela se tornou a própria resposta à pergunta que fez.

Por que tocar neste assunto em um espaço dedicado a discussões religiosas? 

Não é comum entre evangélicos no Brasil recordar pessoas que abraçaram a fé cristã e perderam a vida por causa do compromisso com ela. É mais comum na tradição católica, sobretudo nas Comunidades Eclesiais de Base, com a memória dos mártires, como a irmã Dorothy Stang e Chico Mendes, assassinados por defenderem direitos na mesma Amazônia de Bruno Pereira e Dom Phillips. No entanto, em sua paixão pela Bíblia, evangélicos precisam ser desafiados ao aprendizado com o tema do martírio.

O termo é originado do grego martyria, que significa testemunho, de onde nasce a palavra mártir. Estes termos jurídicos do início da era cristã se referiam à pessoa que era convocada como testemunha, que deveria ter o compromisso de garantir a todo custo, inclusive com a vida, a verdade de seu relato. A garantia da verdade do testemunho era a própria vida. 

Ao longo da história das igrejas é muito extensa a lista de mártires – pessoas que professam a fé cristã e, movidas por ela, buscam a verdade e a justiça, e acabam pagando com a própria vida por conta deste compromisso.

Unindo-se à lista dos mártires sempre lembrados por católicos e ortodoxos estão nomes destacados de evangélicos como o pastor batista dos EUA Martin Luther King, assassinado em nome dos direitos das pessoas negras, e o pastor luterano da Alemanha Dietrich Bonhoeffer, executado em uma prisão nazista.

No Brasil, durante a ditadura militar, foram sete os presbiterianos e metodistas executados pelo regime: Juarez de Brito, os irmãos Daniel, José e Devanir de Carvalho, Heleny Guariba, Ivan Motta Dias, Paulo Stuart Wright. Somam-se a estes, 18 pastores e leigos, que foram presos e sofreram torturas e sevícias nas prisões do Brasil em nome da democracia e da justiça.

A mesma Bíblia que instrui sobre o martírio, explica que testemunhas não se restringem a quem abraça a fé cristã. O livro de Mateus registra, em uma das histórias contadas por Jesus sobre o Dia Final, que Deus irá chamar pessoas para junto de si por terem sido solidárias com ele. Conforme a narrativa, estas pessoas, que nem sabiam que serviam a Deus, perguntam: “quando foi que fizemos isto”? E Deus responde que lhe fizeram todas as vezes que foram solidárias a outras que perderam seus direitos como humanas. É como se estivessem fazendo para Deus.

É aqui que entram os mártires, testemunhas que foram até o fim no seu compromisso com os direitos humanos e da terra, pois em tudo que atuaram, fizeram em sintonia com o propósito divino. Bruno Pereira e Dom Phillips se unem a Marielle Franco e a toda a nuvem de pessoas, que testemunham com sua própria vida o compromisso com a justiça.

Em tempos em que fazem sucesso propostas religiosas de acomodação ao sistema político e econômico, que domina por meio da violência, da exploração, do individualismo, da concorrência e da busca de sucesso, mais do que nunca, precisamos de Dorothys, Chicos, Marielles, Brunos e Doms, na esperança de que “um outro mundo é possível”, onde a justiça enfim seja uma realidade e toda a vida preservada.

Magali Cunha

Magali Cunha
Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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