Diálogos da Fé

Não existe o “voto evangélico”

Para a maioria dos fiéis, aponta pesquisa, não faz diferença se um presidenciável pertence ou não ao mesmo grupo religioso

Concentração da Marcha para Jesus
Concentração da Marcha para Jesus

Assim como mostraram os resultados das eleições majoritárias de 2010 e 2014 e têm indicado as pesquisas de voto para as eleições 2018, a equação “evangélicos + voto” não tem um resultado automaticamente estabelecido na conta política.

Esta afirmação é corroborada com a mais recente pesquisa com evangélicos realizada pelo Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política (NEAMP) da PUC-SP em parceria com o Grupo de Pesquisa Comunicação e Religião da INTERCOM (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação).

A pesquisa PUC-SP/INTERCOM, coordenada pelo professor Leandro Ortunes, foi realizada na Marcha para Jesus, evento anual promovido pela neopentecostal Renascer em Cristo, realizado no último 31 de maio, com a participação de amplo e variado público de igrejas evangélicas.

Os resultados mostram que a maioria dos participantes é pentecostal (entre históricos e neopentecostais) com presença de históricos, o que corresponde aos números do quadro que compõe os evangélicos hoje no País. Há também a presença de um expressivo número de comunidades independentes, indicando a cada vez maior fragmentação desse grupo religioso.

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Outro dado relevante é o fato de quase um quarto dos entrevistados terem renda de apenas 1 a 2 salários mínimos, 12% terem até um salário mínimo e 17,5% estarem desempregados.

Destaque para apenas 15% terem concluído o ensino superior, enquanto 22,5% não chegaram ao fim do ensino médio, o que foi alcançado por 35%. Neste perfil de classe, a pesquisa confirma que os evangélicos refletem os contornos de um Brasil de famílias empobrecidas.

Portanto, não é coincidência que os dados levantados pela pesquisa quanto à intenção de voto para presidente da República nas próximas eleições reproduzam o que foi mostrado por institutos de pesquisa como Datafolha, Ibope e Vox Populi.

No cenário eleitoral com uma possível candidatura do ex-presidente Lula (PT), ele lidera as intenções de voto entre os participantes da Marcha para Jesus (20,09%), com Jair Bolsonaro (PSL) em segundo lugar (15,6%) e Marina Silva (Rede) em terceiro (5,9%).

Quando as opções não incluem a candidatura de Lula, Bolsonaro lidera com apenas 17,5%, Marina Silva assume o segundo lugar (9,5%) e Geraldo Alckmin (PSDB) aparece em terceiro (6,1%), um pouco acima dos 4,02% que consegue concorrendo com Lula. Brancos e nulos com Lula são 37,12% e sem ele 42,08%.

A maior parte dos entrevistados não mostra preferência por algum partido político (81,8%), e entre os que possuem, o PT se destaca com 9,22%, com o PSDB em segundo lugar com 3,78%. Estes dados refletem pesquisa Datafolha de 2017 que relacionou preferência de voto a religião.

O fato de Marina Silva e Flávio Rocha (PRB, com 0,24% nos dois cenários) serem evangélicos não lhes garante votos no segmento, segundo a pesquisa.

A maioria revelou ainda que não prefere que a próxima pessoa a ocupar a Presidência da República seja evangélica (32,62%), enquanto 41% são indiferentes a isto e 25% dizem ter esta preferência.

Ou seja, mesmo diante do apelo de lideranças evangélicas por um candidato evangélico e frente a estratégias de presidenciáveis que trabalham para “parecerem” evangélicos, como Jair Bolsonaro, um número significativo de entrevistados não prefere ou não faz questão que o próximo presidente seja do mesmo grupo religioso.

Estes elementos são reforçados pelo fato de a pesquisa indicar que a Bancada Evangélica no Congresso Nacional tem baixo nível de representatividade. Entre os entrevistados, 18,2% dizem não conhecer a bancada e 27,66% afirmam que não se sentem representados por ela. Ou seja, 45,86% não se veem relacionados aos políticos evangélicos eleitos deputados federais e senadores, frente a 28,84% que se declararam representados.

Um outro elemento demonstrado na pesquisa merece destaque: apenas 4,5% declaram escolher candidatos a partir da indicação de pastor, pastora ou da igreja, enquanto 46,81% disseram que decidem o voto por identificação com o discurso ou as propostas de um candidato.

Isto significa que a religião não é determinante na escolha. Pode ocorrer de a religião se tornar importante no processo decisório quando candidatos assumem estrategicamente o discurso religioso, predominantemente o conservador, como tem acontecido, para alcançarem as graças de eleitores evangélicos que com eles se identificarem. Elemento importante para pesquisadores e candidatos.

De qualquer forma, estes dados levantados na pesquisa PUC-SP/INTERCOM corroboram o que já tratado anteriormente nesta coluna: em tempos eleitorais e eleitoreiros, é cada vez mais importante reafirmar que, ao nos referirmos a “evangélicos”, não estamos tratando de um grupo homogêneo, coeso.

É um segmento muito plural, diverso, com teologias, práticas, costumes, visões de mundo, estruturas organizacionais as mais variadas.

Portanto, é um grande equívoco falar de “voto evangélico”. Há até casos de má-fé, como na condução de campanhas oportunistas, como a promessa feita por um senador evangélico e por um pastor midiático de que integrantes deste grupo elegerão Bolsonaro.

Não existe voto evangélico assim como não existe um apoio único de evangélicos a algum político ou partido ou um representante que fale pelos evangélicos. São cidadãos autônomos que decidem por identificação com propostas e a partir de sua própria condição social.

Com um olhar teológico mais crítico, centrado nos conselhos de Jesus de Nazaré aos seus seguidores, como “Sede, portanto, prudentes como as serpentes e símplices como as pombas” (Mateus 10.16), é possível avaliar que Jesus passa bem distante de muitas das caminhadas traçadas e de escolhas feitas, mas esta é uma outra conversa…

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