Diálogos da Fé

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Lideranças evangélicas se unem contra a perseguição política nas igrejas

Nas últimas semanas, foram identificadas várias ocorrências de ataques, discriminação, perseguição e linchamentos simbólicos contra quem se identifica com as esquerdas políticas

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“Lideranças evangélicas por liberdade, democracia e paz” é o nome do evento que ocorre nesta quinta, 22 de setembro, no auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio. A promoção é do movimento “Somos um pela democracia. Somos todos pelo Brasil”, em ação motivada por acontecimentos recentes no ambiente das igrejas. 

Nas últimas semanas, foram identificadas várias ocorrências de ataques, discriminação, perseguição e linchamentos simbólicos contra quem se identifica com as esquerdas políticas, com articulações progressistas ou em oposição ao governo de Jair Bolsonaro. Até mesmo um tiro foi dado por um fiel da PM contra membro da Congregação Cristã do Brasil depois de uma discussão sobre política na igreja. O membro era contrário à pregação do pastor que pedia que fiéis não votassem em candidatos de esquerda. 

Além deste caso de violência física, outros dois chamaram a atenção das mídias de notícias: os ataques sofridos pelo pastor da Igreja Batista Sérgio Dusilek e as falsidades divulgadas contra a reputação do pastor vinculado à Comunidade Cristã Reformada Ariovaldo Ramos. Dusilek era o presidente da Convenção Batista Carioca, e foi levado a renunciar ao cargo por conta de ataques intensificados após sua participação em ato da campanha do ex-presidente Lula com evangélicos em 9 de setembro. Ramos é o coordenador nacional da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito e sofre com discursos de ódio e falsidades há alguns anos, por suas posturas identificadas com a esquerda política. A perseguição se tornou mais forte, neste caso, com a presença do pastor em eventos da campanha de Lula.

Estas situações ocorrem no contexto de incitação à violência da parte da campanha de Jair Bolsonaro, desde as eleições de 2018, com gestos e expressões verbais que estimulam “fuzilar a petralhada”, “acabar com a esquerdalha”. Tudo isto sob o discurso de defesa da liberdade. 

Entre as igrejas, este apelo tem ressonância por conta das três décadas de cultura gospel que enfatiza, por meio de canções e pregações, a “guerra contra inimigos da fé”, “do bem contra o mal”. Na atmosfera de extrema direita que se espalhou pelo país desde a campanha eleitoral de 2018, abraçada por muitas lideranças cristãs, os inimigos da fé e o mal ganham nome: parlamentares, partidos e militantes de esquerda, os movimentos feministas e LGBTI+, ativistas de direitos humanos. No contexto eleitoral de 2022, Lula e o PT são adicionados a esta lista.

Três décadas de estímulo à negação da diversidade pelo viés religioso somadas a quatro anos de incitação à eliminação de opositores, da parte de lideranças políticas de extrema direita, acabam por fortalecer a intolerância que, representa a negação da liberdade de pensamento e de expressão. A intolerância é um sentimento que gera posturas e atitudes como as que estão acima descritas. 

Ironicamente, a campanha eleitoral da extrema direita tem usado o tema “liberdade” para convencer cristãos de que, se ganhar as eleições, as esquerdas vão calar fiéis, perseguir e fechar igrejas. Porém, são justamente os partidários desta extrema direita que estão calando e perseguindo pessoas nas igrejas que defendem pautas e candidaturas opostas.

A intensificação deste clima de repressão e de imposição de medo nos ambientes cristãos, levou à criação de campanhas nas mídias sociais em defesa da democracia, da liberdade e da paz. O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs e a Revista Zelota lançaram, em 12 de setembro, a campanha #SouEvangelico e Acredito na Democracia. Já o movimento Novas Narrativas Evangélicas iniciou, em 15 de setembro, a campanha #LivrePraVotar, “Deus não tem candidato”. 

O evento “Lideranças evangélicas por liberdade, democracia e paz” que ocorre nesta quinta, 22 de setembro, no Rio, se soma a estas iniciativas. O movimento Somos um pela Democracia. Somos todos pelo Brasil foi lançado há algumas semanas por meio de uma carta aberta por democracia, direitos, justiça e paz. O encontro busca afirmar, acima de tudo, a identidade presente na tradição protestante por meio das liberdades de consciência e de expressão.

O evento na ABI contará com várias lideranças evangélicas entre elas os pastores Sérgio Dusilek e Ariovaldo Ramos e o Reverendo Bronson E. Woods, da Igreja Batista Ebenezer, de Atlanta (EUA), igreja que foi pastoreada por Martin Luther King e é referência na luta por direitos civis. 

Estas iniciativas são importantes no momento da reta final da campanha eleitoral de primeiro turno no país, para demarcar que o compromisso cristão passa pela defesa da liberdade, não a falaciosa que reclama o falso poder de mentir, de ofender e negar direitos. Não há democracia sem liberdade. Não há paz sem justiça.

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