Diálogos da Fé

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João de quê? De Deus é que não é

“Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, porém, avaliai com cuidado se os espíritos procedem de Deus, porquanto muitos falsos profetas têm saído pelo mundo.” João, Epístola I, cap. IV: 1 Hoje, 10 de dezembro, a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 70 anos e […]

João de Deus (Foto: Pedro Ladeira/AFP)
João de Deus (Foto: Pedro Ladeira/AFP)
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“Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, porém, avaliai com cuidado se os espíritos procedem de Deus, porquanto muitos falsos profetas têm saído pelo mundo.”

João, Epístola I, cap. IV: 1

Hoje, 10 de dezembro, a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 70 anos e foi criada para servir de referência para os direitos humanos em todo o mundo, a partir de eventos como a Segunda Guerra Mundial e o colonialismo presente na época de sua promulgação.

Era sobre isso que eu gostaria de escrever neste dia: a defesa intransigente da dignidade humana e o respeito às reivindicações que cobram dos Estados e da sociedade o cumprimento dos compromissos assumidos com a garantia dos direitos civis, políticos, sociais e ambientais previstos no documento.

Em decorrência dos últimos acontecimentos e escândalos de abusos sexuais, pedofilia e estupros no movimento espírita, irei me ater a essas pautas, pois é urgente nos posicionarmos contra todo tipo de violência, física, simbólica ou sexual, sob o risco de nos tornarmos cúmplices da barbárie.

Assim que as denúncias contra João Teixeira de Faria, médium conhecido como João de Deus, famoso pela realização de “cirurgias espirituais” em um centro em Abadiânia (GO), vieram à tona, antes mesmo da veiculação das entrevistas veiculadas, uma amiga me marcou em um post de uma dessas mulheres. Tentei contato, mas em decorrência da gravidade do caso e das ameaças que ela relata sofrer, nosso diálogo foi bem curto, limitado à solidariedade e ao desejo que receba a reparação necessária, inclusive espiritual.

Poucas horas depois, outra mulher relatou-me uma situação que tem acontecido com sua amiga. Disse ter deixado de frequentar um centro espírita pela postura, pouco cristã, dos trabalhadores e, em especial, do dirigente da casa. Ela relata que o dirigente assedia essa moça, mesmo sabendo que ela é casada (aliás, ele também é), convidando para “saírem”, sempre de modo muito sutil, fazendo com que o assédio possa ser configurado apenas como uma gentileza.

João Teixeira de Faria escancara o que muitos de nós vínhamos a denunciar: a idolatria, a gurutização e a fé irracional que alguns adeptos do espiritismo tem praticado.

O episódio de João Teixeira infelizmente não é isolado.

Dois outros casos, tão famosos quanto, haviam sido denunciados neste ano.

Um deles envolve o médium Maury Rodrigues da Cruz, diretor-presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas (SBEE), acusado pelos crimes de violação sexual mediante fraude e estelionato.

Segundo uma das vítimas, o médium se aproveitava da fé daqueles que procuravam a SBEE para tentar se aproximar e cometer a violação sexual.

As violações aconteciam, segundo ele, durante as sessões de ectoplasmia, quando os espíritos se manifestam em um vivo. O médium, na simulação de incorporar um espírito, dizia que este teve uma relação íntima passada com quem participava da sessão espírita.

Leia também: João de Deus e o machismo nosso de cada dia

O outro caso é o do abuso sexualmente de duas discípulas do guru das celebridades e líder espiritual Sri Prem Baba, que nega a violação, mas admite ter mantido relações sexuais com elas.

Segundo os maridos, Prem Baba teria conquistado a confiança das mulheres para manter relações sexuais com elas e que tudo teria começado com exercícios tântricos até evoluir para relações sexuais.

Há um modus operandi nos três casos: três homens, com prestigio e status social, boas relações e certeza da impunidade, aproveitam-se da (boa) fé e da fragilidade de suas vítimas, convencendo-as, inclusive, a permanecer em silêncio.

Esses indivíduos, segundo as próprias vítimas, são portadores de um egocentrismo exacerbado, que leva a uma desconsideração em relação aos sentimentos e opiniões dos outros.

Geralmente não tem apego aos valores morais (embora vivam deles) e é capaz de simular sentimentos, para conseguir manipular os outros. Além disso, a sua incapacidade de controlar as emoções negativas e seus impulsos torna muito difícil estabelecer um relacionamento estável.

O que mais precisa acontecer para que o movimento espírita e outros médiuns famosos e midiáticos que se preocupam mais com o combate ao comunismo e a ideologia de gênero venham a público ajudar no combate a toda violação de direitos humanos?

Em especial, aquelas cometidas nos espaços sagrados e que, baseada em um machismo estrutural, prefere desconfiar das vítimas, considerando-as loucas, obsidiadas (possuídas), do que encarar o problema, criando espaços de acolhimento, amorosidade, resgate e vivência íntegra da fé, cuidando para que mulheres não tenham mais que passar por isso.

Repudiando qualquer tipo de violência, em especial aquela que se utiliza da fé, da fragilidade espiritual, da confiança e da posição social para oprimir, silenciar, violentar, humilhar, excluir e estigmatizar.

Interessante destacar também que os preceitos espíritas não recomendam atendimento isolado, não cobra por nenhuma atividade e não utiliza de nenhuma prática – nem mesmo o passe – para tocar ou apalpar alguém.

Nós, do Movimento de Espiritas pelos Direitos Humanos, aproveitamos para manifestar toda nossa solidariedade às mulheres vítimas do médium João “do que ele quiser”, mas temos certeza que de Deus não é.

Franklin Félix

Franklin Félix
É psicólogo, educador, militante pelos direitos humanos e um dos idealizadores do movimento de espíritas pelos direitos humanos.

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