Islam está em uma crise?

'Religião e extremismo devem ser distinguidos', escreve Atilla Kuş

Manifestantes se reúnem perto da embaixada da França na cidade costeira de Tel Aviv, em Israel. Foto: JACK GUEZ / AFP

Manifestantes se reúnem perto da embaixada da França na cidade costeira de Tel Aviv, em Israel. Foto: JACK GUEZ / AFP

Diálogos da Fé

No dia 2 de outubro, o presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou que “o islam estava em crise”. Conforme acompanhei as notícias, a tal crise se dava do que o presidente francês chamou de “separatismo islamista” e defendeu que “islam e o islamismo não devem ser confundidos”.

 

 

Anteriormente, eu também escrevi um artigo neste mesmo portal refletindo sobre a diferença entre o islam e o islamismo. Neste sentido, concordo plenamente com ele. Porém, curiosamente, semanas depois das afirmações supracitadas, houve uma onda de ataques terroristas.

Em primeiro, houve a morte infeliz do professor Samuel Paty após a apresentação de uma charge publicada pelo jornal Charlie Hebdo na sala de aula; depois, vi notícias de que algumas mulheres muçulmanas foram insultadas na França; e por fim, houve um ataque abominável à Catedral Notre-Dame, em Nice. Neste último ataque, três pessoas perderam a vida e uma delas é uma brasileira.

Em demasiadas ocasiões, tenho afirmado e defendido que a religião e o extremismo devem ser distinguidos. Não se deve estigmatizar toda uma população seguidora de uma religião por causa de práticas distorcidas de alguns adeptos. Há, neste sentido, no âmbito islâmico, quem afirme que o terrorista não pode ser sequer muçulmano e quando um muçulmano se torna terrorista, ele perde toda a característica de ser o que era anteriormente. Portanto, não se deve julgar toda uma população de 1,7 bilhão de pessoas por causa de uma minoria barulhenta. Claro, a maioria silenciosa deve se destacar mais do que esta minoria e possui várias responsabilidades. Silêncio perante injustiça e erros é a colaboração com o injusto e errado. Por isso, acredito que os muçulmanos devem se esforçar mais do que nunca para comprovar que o islam é uma religião que preconiza a preservação da vida humana e a paz, como afirmou Ali Hussein el Zoghbi, vice-presidente da Federação das Associações Muçulmanas no Brasil – FAMBRAS, durante uma entrevista à GloboNews.

Se é que a crise que o presidente Macron afirma o islam sofrer é esta questão de extremismo, isso deve ser problema das sociedades muçulmanas, e não necessariamente do islam.

Pode haver divergência de práticas de uma religião e isso se dá várias vezes na interpretação e leitura diferenciadas dela e dos textos sagrados dela. Porém, isto não pode ser interpretada como uma crise da religião de maneira alguma. Como um cientista da religião, que estuda o islam, acredito que este tipo de afirmação cabe apenas aos teólogos sobre suas próprias tradições e não aos políticos. Se é que o presidente Macron possui alguma especialização em religião ou religiões, ele deve demonstrar isso na área acadêmica com embasamento teórico convincente e não por meio de um discurso político no espectro de um país laico onde a comunidade islâmica tem uma significância em termos demográficos.

Por outro lado, o mesmo presidente Macron, que na mesma sequência prometeu defender os princípios de laicitë, prometeu um “islam iluminado”. Ora, se é que a filosofia laica da França quase extingui a religião da esfera pública, como um presidente afirma que criará a “versão iluminada” de determinada religião? Isso não seria totalmente contra o princípio de laicitë? Ou será que a laicidade francesa tende a dominar e controlar as religiões, ao invés de deixá-las serem praticadas pelos seus adeptos em suas vidas particulares? Se for esta última opção, é a França que está em crise com o seu próprio princípio laicista e não esta ou outra religião. Para deixar claro, o islam não está em crise alguma. Ele é uma das religiões que têm mais questões resolvidas no seu âmbito teológico e doutrinário. Agora os muçulmanos da atualidade, isto é discutível e precisa de autocríticas deles mesmos.

Por fim, quero deixar as minhas condolências e solidariedade sinceras aos familiares e amigos de vítimas dos ataques. Todo e qualquer tipo de extremismo e de terrorismo é abominável e deve ser repudiada por qualquer indivíduo de boa vontade. Porém, como já afirmei noutra vez neste portal, devemos repudiar e abominar qualquer ação e afirmação que podem provocar o extremismo.

 

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Cientista da religião, mestre e doutorando em Ciência da Religião pela PUC-SP. Membro do Centro de Estudos das Religiões Alternativas e de Origem Oriental no Brasil-CERAL da PUC-SP e do Grupo de Trabalho Oriente Médio e Mundo Muçulmano-GTOMMM da USP.

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