Fé em Deus no fim do arco-íris

Dentro da maioria das igrejas é assim: parecem seguir a política de melhor nem saber

Em 28 de junho, o mundo celebrou o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+. Foto: SatyaPrem/Creative Commons/Pixabay

Em 28 de junho, o mundo celebrou o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+. Foto: SatyaPrem/Creative Commons/Pixabay

Diálogos da Fé

Se engana quem pensa que as igrejas evangélicas são um bloco homogêneo. Se engana também quem pensa que os pastores midiáticos representam essa fé tão plural e diversa com um discurso único. Podemos relembrar o binômio de ortodoxia – opinião/doutrina correta – e heresia – o que foge à norma estabelecida – resgatando que aqueles que dizem ter a “verdadeira fé”, punem, ridicularizam e menosprezam tudo aquilo que se difere desse centro de poder.

A ortodoxia surge posteriormente às “heresias” e é marcada pela vontade de dominar e suprimir o diferente. Então, para fugir disso, apresento aqui uma outra via, que é o assumir a polidoxia – diversas opiniões dentro da fé cristã. A polidoxia, então, é a exposição das multiplicidades que cabem dentro do cristianismo, do não-saber místico de Deus e da relacionalidade, que é o conhecimento com base nas relações humanas e com a natureza. E para esse breve texto, trouxe comigo algumas vozes que já me acompanham por anos a fio, que vieram antes de mim, nessa caminhada de fé e luta.

Dentro dessas tantas vozes, desses tantos conhecimentos baseados nas experiências do cotidiano, das lutas e da fé, nos deparamos com uma realidade que confronta o cristianismo: a violência contra a população LGBTQIA+ no Brasil. A pastora Alexya Salvador, a primeira mulher trans a ser nomeada reverenda na América Latina diz: “O Brasil é o país que mais mata travestis, homens e mulheres trans no mundo.” E a carência de dados oficiais sobre as atrocidades que ocorrem é um indicativo de necropolíticas estabelecidas pelo des-governo de Bolsonaro e sua tropa, que cada vez mais manipulam números, dados para seu próprio benefício.

Dentro da maioria das igrejas é assim: parecem seguir a política de “melhor nem saber” e muitos pastores e pastoras preferem fechar os olhos e não enxergar que: nós, LGBTQIA+, estamos nas igrejas! E não só estamos, como fazemos parte da espiritualidade viva do cristianismo, merecemos respeito, dignidade e também produzimos teologia a partir das nossas alegrias, dores e lutas.

Nos últimos dias, um vídeo de um pastor andou circulando nas redes sociais de famosos e famosas, gerou cerca repercussão nas mídias e expôs uma ferida profunda dentro das comunidades de fé: a LGBTfobia cordial. Murilo Araújo, ativista negro LGBT+ e católico uma vez escreveu: “a LGBTfobia cordial é uma forma pior e mais nociva do que a violência explícita – porque como é implícita é mais difícil de perceber e se defender.” O pastor Bob Botelho da Iglesia Antigua de Las Américas, e fundador do Evangélicxs pela Diversidade, compartilha sua experiência quanto a fala como essas: “ É nocivo e como discursos como esse geraram em mim tentativas de suicídio e uma depressão profunda por longos 5 anos, e de que como essa narrativa segue gerando sofrimento na vida de várias pessoas LGBTs que hoje chegam ao Evangélicxs Pela Diversidade”. E tais discursos vão de encontro às falácias da “cura gay” propagada por igrejas e pastores que impoẽ inúmeras violências aos que passam por esse processo.

A ativista Camila Mantovani, evangélica, bissexual e fundadora de Frente de Evangélicas pela Legalização do Aborto partilha suas vivências: “A prática da cura gay precisa ser repudiada e banida. Ela é tortura psicológica e fere a dignidade humana. Eu passei por essas sessões de tortura e se dependesse delas, eu não estaria viva hoje. Eu vivo pela graça de Deus que está sobre a minha vida (…)”

É necessário ir além do diálogo, conhecer as diversas realidades é um passo para superar esses pensamentos que promovem morte. Camila Mantovani diz “muita gente que não tem ideia do que é a realidade de uma pessoa lgbt de fé e, assim, nos deslegitima. É quase como se fosse incompatível nossa sexualidade e nossa fé”. Para o Alexandre Pupo, advogado e sociólogo, assessor de projetos em KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, LGBT+ e membro da Igreja Metodista: “Não se trata de trazer um tópico de diálogo, mas de reconhecer que a diversidade sexual e de gênero existe dentro das igrejas. Se não são expulsos sumariamente, sobra nas igrejas evangélicas uma boa quantidade de homens e mulheres LGBTs, a maior parte deles no armário, outros vivendo uma vida dupla.”

A teóloga queer, doutora em Ciências da Religião e pastora da Igreja Comunidade Metropolitana Revda Ana Ester, avalia que “a sexualidade e espiritualidade são campos em disputa”! E essa disputa é também uma agenda política carregada das falácias acerca da “ideologia de gênero”, que articulam alas católicas e evangélicas, em um “ecumenismo (neo)conservador”, que dizem defender a “família, moral e bons costumes”, como aponta a pesquisadora Tabata Tesser: “São as agendas anti-gêneros “novas formas de totalitarismo” no século XXI baseadas em dogmas religiosos cristãos conservadores que visam a defesa da “lei natural” e provocam um retorno da Igreja Católica aliada a setores pentecostais a um regime de diferença sexual.”

Entretanto, até mesmo entre os evangélicos progressistas há resistências acerca do trabalho efetivo com igrejas nessa temática, sendo sempre adiada ou colocada em segundo plano. A Revda.Ana Ester pontua que esse tipo de progressismo teológico é seletivo, e não abrange a celebração e afirmação das identidades: “Costumo dizer que muitos dos “progressismos evangélicos” estão na página dois de uma proposta radicalmente inclusiva. (…) O avanço do diálogo deve permitir que esses corpos deixados de fora da mesa da comunhão, por tanto tempo, entrem nos templos não mais como corpos castrados, mas celebrando a experiência de uma fé integral”

Mas claro que, assim como pontua o Revdo. Bob Botelho: “O termo “grupos evangélicos progressistas” é extremamente amplo e heterogêneo”. Um exemplo disso foi a realização do 1º Congresso Igrejas e Comunidade LGBTI+ em 2019, que contou com o apoio de diversas igrejas como a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Igreja Batista do Pinheiro em Maceió, e a participação de diversas denominações como igrejas metodistas, mórmons e igrejas inclusivas. Alexandre Pupo nos contou que a ideia surgiu como uma articulação das igrejas e comunidades de fé que estavam já envolvidas nas construções de comunidades afirmativas, porém desarticuladas.

Ocupar esse espaço da fé é crucial para cultivarmos uma espiritualidade plural. A Revda.Alexya Salvador deixa a letra “Ser ordenada clériga é a confirmação de que pessoas iguais a mim podem estar em todos os espaços da sociedade e da religião”! Devemos assumir a polidoxia, assumir as diversas cores do arco-íris, da vida, da natureza! Compreendendo que a diversidade é divina, e que escorre em amor dos braços de Deus. Encerro com uma bênção e prece escrita pela Revda. Alexya, que diz:

“Deus, hoje, mais do que nunca, nos faça pessoas construtoras da DIVERSIDADE (…) É nos teus múltiplos nomes, cores, cheiros e sabores, que hoje reafirmamos nosso compromisso com diversidade, sua maior manifestação. Amém, axé, namastê, motumbá, shalom …”

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Teóloga, mestra em Ciências da Religião, professora e pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social

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