É possível uma convivência pacífica baseada na alteridade

Se for um problema religioso o que acontece na Palestina, eis um exemplo da pessoa que nos ensinou a religião, escreve Atilla Kuş

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Diálogos da Fé

No dia 20 de maio, foi declarado que Israel e Hamas tiveram misericórdia de seus respectivos povos e chegaram a um acordo de cessar-fogo depois de 11 dias de trocas de foguetes e perda de vida 232 palestinos (65 crianças) e 13 israelenses (2 crianças). Só comparando os números, dá para perceber que há uma assimetria de poder entre os dois lados – e, sim, existem dois lados que não abrem mão da violência – e que isso causa danos apenas aos seus povos. Porém, hoje não vou discutir nada negativo.

Quero trazer aqui uma sugestão que, quem sabe, talvez alguém veja, escute e ponha em prática. Mas a minha esperança neste sentido é ZERO. Infelizmente, os poderosos que nada sofrem durante estas beligerâncias não vão ouvir ninguém que fale pela paz. Pois vamos lá!

Apesar da minha falta de esperança em relação à paz no território que é sagrado para os judeus, cristãos e muçulmanos, acredito que um documento histórico que foi elaborado entre muçulmanos e judeus possa em muito contribuir para uma convivência pacífica entre os seguidores das três religiões que compõem a Terra Santa. O documento é a Constituição de Medina. Foi elaborada entre os anos 622 e 624, quando o profeta Muhammad imigrou para a cidade de Medina em busca de algum lugar seguro e livre. A busca dele e dos seus seguidores era pela liberdade religiosa, por um lugar onde houvesse alteridade entre os seguidores de diferentes religiões.

Pois bem, o Profeta Muhammad, chegando em Medina, encontra uma sociedade plural em termos religiosos. Numa população de 10.000 pessoas, havia 4.500 judeus (componentes de 11 diferentes tribos), cerca de 3.500 árabes politeístas e 2.5000 muçulmanos. A maioria dos muçulmanos era composta por nativos da cidade e a minoria era de migrantes que tiveram que fugir de Meca por causa das hostilidades sofridas. Sobre esses detalhes da migração, dois anos atrás escrevi a respeito. Além da pluralidade religiosa, registra-se um cansaço social por causa de uma guerra de vinganças de sangue entre as duas tribos de Medina, al-Aws e al-Khazraj, e as lideranças tribais também estavam à procura de alguém que estabelecesse a paz.

Com base nos dados, que estudei profundamente na minha dissertação de mestrado, o profeta Muhammad reuniu os árabes em torno de uma identidade social para além dos tribalismos e exclusivismos étnicos. Em primeiro lugar, houve uma declaração de irmandade entre os muçulmanos que foi a primeira etapa da Constituição de Medina – esta etapa compôs os primeiros 27 artigos da Constituição. Aqui observa-se o uso da palavra Umma que literalmente podemos traduzir como “nação, povo, comunidade”. O conceito foi a palavra-chave da união e do fim da guerra entre os árabes da cidade. Ainda na primeira etapa, no artigo 18, encontramos a menção aos judeus considerando-se uma eventual aliança com eles e, desta forma, juntá-los a recém-formada nação.

Em segundo lugar, provavelmente em 624, ou seja, 2 anos depois da primeira etapa, o profeta acrescentou mais 30 artigos juntamente com as tribos judaicas. Daí, observamos os artigos que seguem o 28 que começa por dizer que “Os judeus da tribo Banû ‘Awf são, juntamente aos crentes, uma nação”. Aquilo que foi considerado uma possibilidade dois anos antes e mencionado no artigo 18 se tornou uma realidade. Ainda os artigos 18 e 28 mencionam que “cada qual com sua fé” estabelecendo, de certa forma, a liberdade religiosa para os integrantes da nação medinense. Não se procurou superioridade de um sobre o outro, mas, sim, uma alteridade e equidade perante à constituição que por todos foi aceita.

Até onde pude ler, indagar e estudar, no momento do falecimento do profeta Muhammad, em 632, havia judeus que habitavam a cidade de Medina. Aliás, os dados revelam que ele estava endividado com um judeu no momento de sua morte e por causa disso o seu escudo estava com a pessoa como uma garantia de pagamento. Portanto, como abordei na minha dissertação que em breve pretendo publicar em formato de livro, houve uma convivência pacífica entre os muçulmanos e judeus.

Apesar de saber que a minha sugestão ficará restrita apenas a este espaço, quero fazê-la, pelo menos, aos meus irmãos de fé. Espero que algum deles tenha a lucidez de tomar o exemplo do profeta Muhammad e leve aos povos uma proposta de paz baseado naquilo que o profeta fez em Medina 1.443 anos atrás. Ao muçulmano cabe levar as propostas de paz e convivência. Não renunciar a paz, como vi no exemplo dos líderes do Hamas e de Israel.

Se for um problema religioso o que acontece na Palestina, eis um exemplo da pessoa que nos ensinou a religião.

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Cientista da religião, mestre e doutorando em Ciência da Religião pela PUC-SP. Membro do Centro de Estudos das Religiões Alternativas e de Origem Oriental no Brasil-CERAL da PUC-SP e do Grupo de Trabalho Oriente Médio e Mundo Muçulmano-GTOMMM da USP.

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