E agora, como ficam as “psicografias” que diziam ser Jair o Messias e Moro o venerando?

O bolsonarismo desidrata, mas o estrago já foi feito e levaremos um bom tempo para nos libertarmos dos seus efeitos

Foto: Allan White/FotosPublicas

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“Caríssimos, não acrediteis em todos os Espíritos, mas provai se os Espíritos são de Deus, porque são muitos os falsos profetas que se levantaram no mundo.” João, Epístola I, cap. IV:1

Em tempos de polarização, é preciso tomar partido, descer do muro, sair do armário e se posicionar contra todo tipo de intolerância e violência. Seja contra quem for. Mas em hipótese alguma, podemos confundir “a reação do oprimido com a violência do opressor”, como afirmou o defensor dos direitos dos afro-americanos, Malcom X.

O bolsonarismo não destruiu apenas as questões políticas e nossa frágil democracia, ele também fez estragos nas relações familiares, sociais e religiosas. Milhares foram os religiosos, de todas as denominações, que, vencidos pelas suas sombras, com o seu lado mais obscuro, apoiaram um candidato que desde sempre defendeu torturador, ofendeu mulheres, negros e LGBTs e prometeu, se eleito, iria acabar com uns 30 mil esquerdistas. Essa postura, vulgar e violenta de Bolsonaro, não faz eco em nenhuma religião.

Ninguém foi enganado/a! As pessoas votaram e sabiam em quem estavam votando, embora houvesse, da direita a esquerda, 13 candidatos/as à corrida pelo Palácio do Planalto nas eleições de 2018. Escolheram o mais odioso e despreparado.

Eleito, não desceu do palanque e continuou atacando adversários, criando rachas dentro da sua própria base. O resultado é o que todos nós estamos vivendo: uma pandemia avassaladora não sendo enfrentada como deveria pelo governo federal, disputando manchete com sucessivos escândalos do governo, deposição de ministros da Saúde e da Justiça e debandada de sua base de apoio.

Pelo que tudo indica, o bolsonarismo desidrata, mas o estrago já foi feito e levaremos alguns anos, quem sabe, mais de uma encarnação, para nos libertarmos dos seus efeitos.

Em todo esse horror – até para que fique registrado na história – não podemos esquecer do papel protagonista de parte do movimento espírita brasileiro, abandonando os princípios de Kardec e os ensinamentos de Jesus.

Em obras póstumas, Kardec defende: “Liberdade, igualdade, fraternidade. Estas três palavras constituem o programa de toda uma ordem social que realizaria o mais absoluto progresso da humanidade, se os princípios que elas exprimem pudessem receber integral aplicação”.

Logo, os espíritas que flertaram com o fascismo, assim como fizeram com o golpe militar e com o apoio a Fernando Collor, repetem seus erros só que desta vez bem pior, por que as informações são muito mais rápidas e diversas do que 20, 50 anos atrás.

Um texto desmentido até pela Federação Espírita Brasileira (FEB) e atribuído ao médium Chico Xavier sempre circula durante os pleitos presidenciais. Já disseram se tratar de Caiado, Serra, Aécio e até de Sergio Moro. Segundo a postagem, a mensagem do espírito André Luiz, psicografada por Chico Xavier em 1952, previa a chegada de Jair Bolsonaro (sem partido) à Presidência. Essa mensagem foi compartilhada também por não espíritas, para vocês entenderem o tamanho do estrago que mensagens como essas podem fazer.

No que diz respeito ao Moro, já havíamos nos posicionado sobre um assunto similar, que atribuía uma certa “santidade” ao ex-juiz e agora ex-ministro da justiça, no artigo intitulado “Espíritas progressistas respondem à entrevista coletiva de Divaldo Franco e Haroldo Dutra”.

Na ocasião, tornamos pública a nossa desaprovação a diversas opiniões que foram expostas em vídeo que circulou em fevereiro de 2018 nas redes sociais, e que depois foi retirado do YouTube.

Declaramos que aquelas opiniões não nos representavam e nem representam o espiritismo, pois eram apenas opiniões pessoais de seus autores, e que, em nosso entender, careciam de fundamento teórico e científico:

“Divaldo referiu-se à República de Curitiba e a seu suposto “presidente”, Sergio Moro. Não existe uma República de Curitiba, pois segundo nossa Constituição só há uma República a ser reconhecida em nosso território, e é a República Federativa do Brasil. E a referência a um juiz federal de primeiro grau como o Presidente desta acintosa República é um grave desrespeito ao Estado, à nação brasileira, atribuindo a tal república poderes inexistentes em nossa Constituição.

Além dessa nociva postura marcadamente messiânica e de culto à personalidade, pode dar a entender que o restante do povo brasileiro não presta e que não há pessoas boas espalhadas pelo Brasil dando o melhor de si.

Divaldo chamou esse mesmo juiz de “venerando” – o que é altamente questionável, dadas as críticas de grandes juristas nacionais e internacionais à parcialidade desse juiz e a seus atos de ilegalidade, que feriram a Constituição, e às notícias que correm na mídia de seu conluio com determinados segmentos e partidos.”

Espírita nenhum, que estuda e pratica os ensinamentos dos espíritos, acredita em profecias, psicografias proféticas e mensagens aterrorizantes.

“Lembra-te de que os Bons Espíritos só dispensam assistência aos que servem a Deus com humildade e desinteresse e que repudiam a todo aquele que busca na senda do Céu um degrau para conquistar as coisas da Terra; que se afastam do orgulhoso e do ambicioso.” Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Prolegômenos.

A política pode ser desenvolvida por pessoas religiosas ou não. Há princípios religiosos que podem balizar a vida pública (solidariedade, amor, compaixão, justiça social, benevolência), mas aos religiosos cabe sempre lembrar que o Estado brasileiro é laico e que, portanto, não se pode desenvolver políticas públicas a partir de determinadas crenças ou preceitos de fé, sob o risco de deixar de fora aqueles que não comungam das mesmas convicções. Isso é grave e inconstitucional.

Não é novidade a atuação de espíritas na política. Bezerra de Menezes fez isso de maneira brilhante. Liberal e de ideias abolicionistas, Bezerra não foi o “bom velhinho”, doce, que alguns espíritas insistem apresentar ou representar. Enérgico, dono de uma fabulosa oratória, foi contemporâneo de Joaquim Nabuco, Dom Pedro II e Rui Barbosa.

Ainda que o espiritismo não faça nenhuma acepção de indivíduos ou pregue qualquer tipo de discriminação – aliás, nenhuma religião faz, são as suas interpretações, feitas por gente, que gera exclusão e preconceito –, muitos trabalhadores e frequentadores de casas espíritas ainda são rotulados e excluídos por suas ideologias políticas, por sua condição socioeconômica e por questões de sexualidade e/ou gênero.

Percebam que temos muito trabalho pela frente, dentro e fora do movimento espírita: disputando narrativas, denunciando abusos cometidos por representantes espíritas, eliminando velhos paradigmas, construindo pontes em vez de muros, ensinando, didaticamente, conceitos de bem viver e justiça social e, sobretudo, resgatando os preceitos de amor e diálogo de Kardec, esquecidos pelos pseudo-médiuns midiáticos, pelos dirigentes fanáticos e pelos expositores ensimesmados.

O espiritismo não faz milagres, nem prodígios. Propicia aos seres humanos o conhecimento de algumas leis espirituais, também leis da natureza, causadoras de muitos fatos, considerados extraordinários, apenas por desconhecimento de sua origem. Ensina o ser humano a usar esses conhecimentos no exercício da sua transformação moral, por meio de um entendimento melhor dos ensinos de Jesus.

Como disse o pastor Martin Luther King, no livro “Os Grandes Líderes”: “Não há nada mais trágico neste mundo do que saber o que é certo e não o fazer. Não posso ficar no meio de todas essas maldades sem tomar uma atitude”.

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É psicólogo, educador, militante pelos direitos humanos e um dos idealizadores do movimento de espíritas pelos direitos humanos.

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