Diante dos Reverendos-Mercenários, fiquemos com os Reverendos-Pastores!

O pastor Antônio Olímpio Sant’Anna atuou pela igualdade racial até que suas forças físicas começaram a se esgotar

Revrendo Antônio Olímpio de Sant´Anna (Foto: Imagem retirada do site Metodista)

Revrendo Antônio Olímpio de Sant´Anna (Foto: Imagem retirada do site Metodista)

Diálogos da Fé

O patético e constrangedor depoimento do pastor Amilton Gomes de Paula, na reabertura dos trabalhos da CPI da Covid, diz muitas coisas sobre o atual cenário brasileiro moldado por uma controversa mistura de política e religião.

O pastor, que curiosamente prefere ser chamado de “Reverendo”, título registrado em seu currículo, concedido por uma sociedade secreta (Ordem dos Cavaleiros de Sião), está envolvido em uma negociata de vacinas com o governo federal.

No depoimento, de posse de uma habeas corpus que lhe garantiu omitir informações e mentir, ele relatou de forma confusa a origem do seu livre acesso a autoridades do governo federal, não conseguiu explicar um projeto sequer da “instituição humanitária” que dirige e tampouco qual é a igreja, afinal, que pastoreia (citou a vinculação com, pelo menos, três).

Estudiosos da política e da religião têm farto material do depoimento em vídeo para analisar. São oito horas de discurso do “reverendo” e seus interlocutores, desde a forma com que ele se apresentou, na terceira pessoa, passando pelo choro estimulado por seu par, o senador pastor Marcos Rogério (DEM/RO), até a admissão de ser “bravateiro” e ter mentido no processo de negociação de vacinas.

De fato, o episódio é um retrato do cenário evangélico no Brasil assentado, de forma hegemônica, em projetos de ocupação do espaço público que passam por visibilidade, gerenciamento de influência, aquisição de vantagens. A presidência da Câmara, nas mãos do então deputado evangélico Eduardo Cunha, em 2015 e 2016, seguida da candidatura e do governo do pseudo-evangélico Jair Bolsonaro levaram a esta hegemonia na relação religião e política no Brasil. A exposição pública das falcatruas do pastor Amilton Gomes de Paula é o retrato deste cenário.

No entanto, não quero tratar desta temática neste artigo. Enquanto eu assistia às lamentáveis cenas do depoimento, não tive como não pensar nos tantos pastores e pastoras que conheço e com quem me relaciono (eu mesma sou casada com um!). Fiquei pensando como eles/elas, presenciando tal exposição pública, se envergonham e se indignam, uma vez que a imagem de sua tarefa religiosa, já tão negativada com as personagens expostas cotidianamente no rádio, na TV e nas mídias sociais, só tende a se corroer ainda mais.

Também não tive como não pensar imediatamente no querido pastor, este devidamente tratado como Reverendo na Igreja Metodista, Antonio Olímpio Sant’Ana, falecido em 17 julho passado, aos 81 anos, depois de ter lutado contra um câncer. Marcado por uma pequena estatura, o Reverendo Sant’Ana foi um grande pastor! Nele estava guardada uma grandeza que não cabia nele e ele transbordava no pastoreio comprometido com a vida plena, em abundância, especialmente para as pessoas de pele preta como a dele.

Foi na minha juventude na Igreja Metodista e no movimento ecumênico nacional e internacional que construí um respeito enorme por este pastor evangélico e por tudo que pude aprender com seu ministério de enfrentamento dos racismos dentro e fora das igrejas. Não foram poucas as histórias que ele contou de discriminação sofrida quando era enviado pelo bispo de sua região para uma nova igreja. Ele dizia da “decepção” que algumas congregações e membros manifestavam por “terem que receber” um pastor preto e baixinho. Quanto preconceito e ignorância! Entretanto, ele provava do que era capaz.

Antônio Olímpio Sant’Ana rompeu as fronteiras confessionais na sua luta e criou a Comissão Nacional de Combate ao Racismo, nos anos 70, transformada posteriormente em Comissão Ecumênica (CENACORA), fonte importante da minha formação anti-racista. O Reverendo Sant’Ana colaborou com órgãos ecumênicos das igrejas, como o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs/CONIC, o Conselho Latino-Americano de Igrejas/CLAI e o Conselho Mundial de Igrejas/CMI).

Com a CENACORA, o pastor atuou pelos direitos da população negra no processo Constituinte depois da ditadura, assessorou as ações de Direitos Humanos nos governos Fernando Henrique Cardoso, e integrou o grupo que elaborou o documento da Presidência da República “Construindo a Democracia Racial” (1998). Ele participou da Conferência da ONU contra o Racismo, na África do Sul, em 2001.

O pastor Antônio Olímpio Sant’Anna atuou pela igualdade racial até que suas forças físicas começaram a se esgotar. Ele chegou ao fim da vida, construída de forma modesta e simples, deixando uma herança para o movimento negro cristão que é de uma riqueza imensurável.

Como não lembrar do Reverendo Sant’Ana e do que ele representa ao assistir à patética exposição de Amilton Gomes de Paula na CPI? Como não pensar nos tantos outros pastores e pastoras que empenham a vida pela causa da paz com justiça de forma incondicional, a partir dos valores cristãos que aprenderam e cultivam!

A figura do pastor é muito destacada na tradição cristã. No contexto rural da Bíblia, o pastoreio de ovelhas era atividade importante para a sobrevivência. O rebanho alimentava o povo e também fornecia lã para tecer roupas e tendas. Além disso, a ovelha era um dos principais animais do sistema religioso vigente. O sangue era instrumento para perdoar pecados, limpar culpas, instituir a paz, ofertar a Deus.

Ser pastor ou pastora, naquele contexto, era tarefa considerada como das mais destacadas: cuidava-se de um animal muito relevante para a sobrevivência e para a prática religiosa. O bonito era que a importância e a fragilidade das ovelhas geravam apego nos pastores. Cuidar significava proteger, tratar os ferimentos, defender dos perigos, buscar quando alguma se perdia do rebanho. Em retorno a esse cuidado, as ovelhas também se apegavam aos pastores, seguindo-os fielmente, reconhecendo até mesmo a voz.

É neste sentido que, nos textos da Bíblia, os governantes da nação eram considerados pastores: eram responsáveis por guiar a vida do povo, protegê-lo, cuidar dos bens dele e ser os guardiões da justiça. E Deus era apresentado como o Verdadeiro Pastor (como no Salmo 23), dedicado ao cuidado, com poder e carinho, com vigor e ternura.

Por isso, os profetas da Bíblia cobravam de governantes e religiosos quando não cumpriam o papel de pastores. Jesus deu seguimento à visão dos profetas e textos relatam como ele lamentou, muitas vezes, a situação de abandono do povo. Como os profetas, Jesus criticou os pastores, governantes e religiosos, que ao invés de conduzirem as ovelhas em um caminho seguro e cuidarem delas, colocavam mais fardos e as fragilizavam ainda mais. Ele traz a noção do “bom pastor” em contraste com o mercenário que não cuida e engana as ovelhas.

Estes registros da tradição cristã e memórias como a de Antônio Olímpio Sant’Anna oferecem um parâmetro do pastoreio. Ele serve a governantes e a religiosos quanto ao caminho pelo qual devem ser guiadas as ovelhas/povo, que carecem de cuidado com a educação, a saúde pública, o trabalho e o emprego, a justiça racial e de gênero, o acesso ao cultivo e à propriedade da terra, incluindo as populações indígenas, as diferentes expressões de cultura, o meio ambiente, entre muitas outras demandas. Com isso superamos o risco de que ovelhas sejam guiadas não por pastores, mas por mercenários.

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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