Reverendo que disse não ter contatos no governo foi recebido 4 horas depois de enviar e-mail

Senadores se irritaram com as respostas de Amilton Gomes de Paula em depoimento à CPI da Covid nesta terça-feira 3

Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Política

Senadores da CPI da Covid se irritaram nesta terça-feira 3 com o depoimento do reverendo Amilton Gomes de Paula, fundador da Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários, a Senah. A entidade entrou na mira da comissão por negociar vacinas da AstraZeneca com o governo.

 

 

E-mails indicam que o então diretor de Imunização do Ministério da Saúde, Laurício Monteiro Cruz, autorizou o reverendo a negociar 400 milhões de doses do imunizante com a Davati Medical Supply, outra peça fundamental no xadrez das vacinas.

Na oitiva, Amilton tentou negar a proximidade com a gestão federal. Confirmou, no entanto, ter conseguido reuniões no Ministério da Saúde horas depois de enviar e-mails. Os encontros aconteceram em 22 de fevereiro, 2 de março e 12 de março.

“Eu não tinha contatos. Os contatos que eu tinha eram sempre de forma formal, eletrônica”, disse o reverendo.

O depoente afirmou ter sido procurado pelo policial militar Luiz Paulo Dominguetti, apresentado como representante da Davati, em 16 de fevereiro. Dois dias depois, teria enviado à Saúde o primeiro e-mail, o qual teria sido respondido quatro dias depois. Naquele 22 de fevereiro, pouco antes das 13h, Amilton disse ter encaminhado uma mensagem ao Ministério da Saúde solicitando uma reunião naquela mesma tarde, às 16h30, para tratar sobre a compra das vacinas.

“Nós encaminhamos o e-mail e nos dirigimos ao SVS”, disse Amilton, em referência à Secretaria de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde. A senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) questionou como o reverendo poderia ter ido à pasta sem obter uma resposta ao e-mail enviado.

“O senhor não recebeu resposta do e-mail, foi para a reunião das 16h e foi recebido?”, questionou a parlamentar. Ele afirmou “não ter conhecimento” da resposta. “Enviamos o e-mail e nos dirigimos ao SVS”.

“Reverendo, não dá para acreditar, me desculpe”, emendou Gama. “Eles não lhe responderam”.

O vice-presidente da CPI da Covid, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), usou as redes sociais para ironizar as respostas de Amilton Gomes de Paula.

“Pela ordem: Pfizer: 101 e-mails ignorados. Butantan: ‘Já mandei cancelar. O presidente sou eu’. Covax Facility: nível de inglês usado como justificativa na demora do contrato. Reverendo Amilton: e-mail às 12h39; reunião às 16h30 no MS. Qual era a prioridade de Bolsonaro?”, escreveu Randolfe.

A reunião de 12 de março, da qual participou o então secretário-executivo da Saúde, Élcio Franco, foi articulada pelo coronel Helcio Bruno, presidente do Instituto Força Brasil. Gomes, porém, disse ter somente “relações institucionais” com o militar.

No depoimento, o reverendo ainda classificou como “bravatas” as menções ao presidente Jair Bolsonaro e à primeira-dama Michelle Bolsonaro em mensagens encontradas no celular de Dominguetti. “Eu queria mostrar algo que não tinha”, disse o reverendo. “Eu não tinha convicção do que estava sendo escrito”.

Em diálogo de 3 de março deste ano, Dominguetti escreveu a um interlocutor: “Michele (sic) está no circuito agora. Junto ao reverendo. Misericórdia”.

Após a menção à primeira-dama, o interlocutor, identificado como Rafael, insistiu: “Quem é? Michele Bolsonaro?”. Dominguetti, então, confirmou: “Esposa sim”.

Rafael sugeriu, por fim, que Dominguetti acionasse o CEO da Davati no Brasil, Cristiano Carvalho. “Pouts. (sic) Avisa o Cris”.

Em 16 de março, o reverendo escreveu no Whats­App: “Ontem falei com quem manda! Tudo certo! Estão fazendo uma corrida compliance da informação da grande quantidade de vacinas!” A mensagem do fundador da Igreja Batista Ministério Vida Nova dirigia-se a Dominguetti.

Uma interlocutora do pastor, a misteriosa Maria Helena, deu a informação igual ao policial: “Ontem o rev esteve com o presidente”. Assim como um empresário de Santa Catarina, Renato ­Gabbi, parceiro do religioso na tentativa de vender imunizantes a estados e prefeituras: “Ontem o Amilton falou com Bolsonaro, ele falou que vai comprar tudo”.

Três dias antes, em 13 de março, em meio a tratativas do reverendo para falar com o “01”, Cristiano Carvalho escreveu a Dominguetti: “Verifica pra mim se o presidente vai atender hoje ou amanhã ou até na terça, porque aí eu preciso mudar o voo e preciso reservar o hotel, tá bom?”.

O PM, via áudio, respondeu: “Para falar com ele em agenda, eles conseguem marcar segunda, terça, quarta, que aí entra na agenda oficial. O que eles estão tentando é que o presidente te receba de forma extraoficial, entendeu?”.

Carvalho, também por áudio, devolveu: “O reverendo está falando que está marcando um café da manhã com o presidente amanhã, às 10h, 9h, sei lá, que vai ter um café com os líderes religiosos e a gente vai entrar no vácuo, tá? Agora tem que fazê-lo confirmar isso aí para a gente colocar uma pulguinha atrás da orelha do presidente, tá?”

Foi nessa negociação de 400 milhões de doses da AstraZeneca, segundo Dominguetti, que houve cobrança de propina de um dólar por dose por Roberto Dias, então diretor de Logística do Ministério da Saúde. Ele nega as acusações.

 

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