Das contradições do capitalismo, a religião é a mais potente

Coalização Evangélica Contra Bolsonaro chama para o Grito dos Excluídos no 7 de Setembro

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Diálogos da Fé

A primeira vez que ouvi sobre capitalismo foi em uma aula de história na qual a professora usou a metáfora do coração para explicar o que seria a futura queda desse sistema econômico-político. Ora, o coração ao passo que bate, ele morre. Cada batida é uma batida a menos. Naquele momento, eu não entendia muito sobre luta de classes, nem das contradições que as trabalhadoras e trabalhadores estão submetidos, neste mundo capitalista. Mas nunca esqueci a metáfora ao pensar nas tantas contradições que vivemos em uma sociedade desigual.

Venho há um tempo defendendo que devemos pensar o processo histórico brasileiro na articulação de cinco eixos opressivos: da perspectiva econômica, exploratório; da perspectiva de gênero, patriarcal; da perspectiva de raça, escravizador; da perspectiva da cultura, colonizador e da perspectiva da religião, cristianizador. E é na articulação dessas opressões que o sistema capitalista se estrutura e nas contradições apresentadas nessas articulações que temos a possibilidade de esperançar a queda deste sistema, como diria David Harvey.

No contexto brasileiro, então, a cristianização é parte importante na estruturação das desigualdades sociais e produz discursos que hierarquizam os corpos, principalmente os corpos femininos, negros e indígenas. Contudo, dentro das comunidades religiosas existem redes de solidariedade e ação que expõem as contradições do capitalismo. Gosto muito de pensar na sociedade da Nossa Senhora da Boa Morte, pela qual mulheres negras moviam suas redes de solidariedade e afeto, uma centena de anos antes de existir a palavra feminismo.

Quando penso, também, em Margarida Alves, mulher camponesa e evangélica, lutadora pelo acesso à terra e que inspira a maior marcha de mulheres do Brasil: a Marcha das Margaridas. Quando penso, ainda, nas Comunidades Eclesiais de Base, movimento popular e católico que moveram redes de alfabetização de adultos em plena ditadura militar com o Movimento de Educação de Base, por meio de cartilhas e programas radiofônicos. Penso em como as contradições das lutas dos trabalhadores acontecem, também, na religião cristã.

Ora, se essas redes que se movem em favor da classe trabalhadora não são uma potente contradição do capitalismo, não sei como pensar nelas. Digo isso porque certos noticiários, criminosamente, têm homogeneizado os evangélicos como bolsonaristas, fundamentalistas e reacionários. Digo que é um crime, pois é uma maneira de esconder as potentes contradições que existem entre o povo evangélico brasileiro.

No dia 2 de julho passado, cerca de 50 coletivos evangélicos progressistas se encontraram em plenária virtual para criar uma Coalizão Evangélica Contra Bolsonaro, que chamou evangélicas e evangélicos que são contra o governo genocida para as ruas nos atos de 3 de julho. O movimento cresceu e no dia 24 de julho teve blocos organizados nos atos espalhados pelo Brasil. Com o mote do trecho da Bíblia de João 10. 10, ‘ele veio para roubar, matar e destruir’, crentes uniram luta e fé para denunciar as atrocidades que o atual governo tem feito em nome de Deus.

A participação desses grupos demonstra que a classe trabalhadora fratura o sistema, tergiversa uma religião colonizadora e hegemônica para lutar por comida no prato, vacina no braço e dignidade para a população brasileira. Eu mesma, vivi e vivo nas redes de solidariedades que são criadas nas comunidades de fé.

A igreja ao passo que acolhe, explora. Ao passo que humaniza, oprime

Não há dúvida disso, mas existem contradições que ao serem expostas se mostram potentes para fraturar esse sistema que oprime a classe trabalhadora. Segundo pesquisa do Instituto Datafolha, a cara evangélica brasileira é de uma mulher negra; há como dizer que a mulher negra, no Brasil, sustenta o projeto de dominação? Não. Há de se fazer outro balanço sobre isso.

Neste momento, em que pastores evangélicos fundamentalistas fazem um chamado às ruas pela defesa do governo Bolsonaro, a Coalizão Evangélica Contra Bolsonaro faz o chamado para evangélicos e evangélicas se unirem ao Grito dos Excluídos. Ela é uma manifestação popular, que ocorre em todo o Brasil, há 26 anos, desde 1995, nascida na 2ª Semana Social Brasileira da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, da Igreja Católica, é realizado longo da Semana da Pátria e culmina com o Dia da Independência do Brasil, em 7 de setembro. É bom lembrar que o contexto é de avaliação de segurança física e sanitária em cada região do país.

Contudo, devemos escolher um lado neste momento no qual tendem a forçar um apoio artificial dos evangélicos ao presidente da República. Não há unanimidade, há desigualdade de visibilidade. Há pastores e igrejas com dinheiro, acesso à mídia e apoio financeiro de empresas para circular uma narrativa branca-masculina-fundamentalista de que Deus está do lado do genocida. Ora, se o próprio Cristo andou com excluídos, quando esteve nesta terra, sua Igreja jamais estaria em uma comemoração de Independência, na qual a morte fica com o povo. Veja, em sua cidade, onde ocorrerá o Grito dos Excluídos e vamos defender os interesses do povo, nas ruas.

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Evangélica, cientista social, mestra em educação e doutoranda em antropologia. É da Rede de Mulheres Negras Evangélicas e articuladora da Coalizão Evangélica Contra Bolsonaro

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