Cristianismo revolucionário: o Internacionalismo como princípio sagrado

'As grandes ajudas ou a mais simples das rebeldias populares nos fortalecem a todos', escreve Angélica Tostes

Foto: iStock

Foto: iStock

Diálogos da Fé

“O internacionalismo é um princípio sagrado, e não é só um dever, mas também uma necessidade.” Fidel Castro

Uma das coisas que sempre aprendi na igreja evangélica foi a ter esperança. Lembro-me dos louvores que ressoavam o antigo salmo e diziam: “embora o choro dure uma noite, a alegria vem pela manhã” (Salmo 30:5).

Jesus foi-me apresentado como uma esperança que dava e ainda dá forças para continuar a lutar. Paulo Freire dizia que é a esperança do verbo esperançar, não do esperar. Esperar que as coisas aconteçam, que as coisas melhorem, seguindo no “deixa a vida me levar”. Mas antes, Freire dizia que essa esperança é “ ir atrás, é se juntar, é não desistir. É ser capaz de recusar aquilo que apodrece a nossa capacidade de integridade e a nossa fé ativa nas obras. Esperança é a capacidade de olhar e reagir àquilo que parece não ter saída. Por isso, é muito diferente de esperar; temos mesmo é de esperançar”!

Outro ensinamento que levo para a vida é de enxergar todos e todas como irmãos e irmãs, que fazem parte de um mesmo corpo. Gosto das metáforas do corpo que encontramos na Bíblia, pois é através dele, que por vezes ainda renegado pela tradição cristã, que conhecemos o mundo, Deus, os prazeres e as dores. Somos um corpo. Unidos e unidas. Então, as Escrituras me ensinam que se uma parte desse corpo sofre, todo o corpo sofre. A unidade é a marca de um cristianismo revolucionário.

Jesus rompeu as fronteiras, religiosas e geográficas, construídas e entendeu que a libertação é para todas as nações, todos os territórios, todos os corpos. Essa libertação tem o compromisso com a transformação do mundo e a dissolução de todas as opressões. Uma espiritualidade com pés no chão e punhos cerrados para a luta: Jacarezinho, chacina, mães que enterram seus filhos, o extermínio da juventude negra. Colômbia, a militarização, mortes, sequestros dos/das jovens ativistas que buscam vidas dignas. Palestina, terras tomadas por poderes coloniais de Israel, bombardeios que tiram vidas de crianças, que tiram a esperança. Myanmar, golpe militar, violência policial e mortes. Os inúmeros fundamentalismos na nossa América Latina e Caribe.

Precisamos retomar o internacionalismo de classe como um valor, um “princípio sagrado”, como diria Fidel Castro, da fé revolucionária cristã, que ainda resiste nas pequenas chamas de companheiros e companheiras que lutam por um mundo melhor. Michel Löwy aponta que: “Os cristãos radicalizados são uma componente essencial, tanto de movimentos sociais do Terceiro Mundo — como o Movimento dos Sem-Terra no Brasil — quanto de associações europeias de solidariedade com as lutas dos países pobres. Inspirados pela ética humanista e ecumênica do cristianismo, eles dão uma contribuição importante na elaboração de uma nova cultura internacional.” (1998, “Por um novo internacionalismo”).

“Globalizemos a luta, globalizemos a esperança”, como inspira o lema da Via Campesina, articulação internacional dos movimentos camponeses criada em 1992, e que reúne movimentos sociais camponeses de todos os continentes. Como Miguel Enrique Stédile, da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), aponta, o internacionalismo é um valor e também parte da estratégia de luta dos nossos povos: “não é possível alcançar a emancipação humana apenas em alguns países, é necessário lutar pela libertação de toda a humanidade, em todo o mundo” (2018).

O cristianismo também me ensinou a chorar com os que choram (Romanos 12:15) e, ao mesmo tempo, buscar saídas comunitárias para que a cura, que é a plenitude de vida, seja instaurada no mundo. Que o caminho de Jesus, que quebrou os muros de divisão, nos inspire na fé e na luta anti-racista, anti-imperial e anti-heteropatriarcal. Finalizo com as palavras de Fidel Castro, na Conferência Internacional de Solidariedade à Luta dos Povos Africanos e Árabes, 14 de setembro de 1978, como uma profecia a todos e todas nós: ”O internacionalismo revolucionário é uma lei de nossa luta. Isolados não poderemos triunfar. As grandes ajudas ou a mais simples das rebeldias populares nos fortalecem a todos, visto que são a expressão de uma humanidade nova, que luta em favor de uma sociedade mais justa.”

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Teóloga, mestra em Ciências da Religião, professora e pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social

Compartilhar postagem