Como o preconceito no Brasil atual alimenta a intolerância religiosa

A generalização da crítica e a desinformação só reforçam as expressões de preconceito

Crédito: Pixabay

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“Irmã Dulce, Chico Xavier, Mãe Menininha… Agora cite um evangélico com a vida dedicada à caridade.” Este texto foi postado em perfil de mídia social de um homem adulto. Até a redação deste artigo, ele tinha 484 curtidas, 819 comentários (entre críticas e apoios) e 8.700 compartilhamentos.

O sucesso da postagem é o retrato da realidade sociopolítica e religiosa do Brasil: uma reação ao protagonismo do segmento ultraconservador evangélico na política, representado por cinco ministros de Estado, pela Bancada Evangélica e seus cerca de 100 deputados e senadores, e um destacado membro do Ministério Público, fora os políticos evangélicos estaduais e municipais. Estas lideranças estão pública e notoriamente aliançadas com o presidente da República que, como se observa, instrumentaliza a religião em suas ações. Isto ocorre desde a campanha eleitoral e se estende por 2019 diante da falta de projetos e atos que façam diferença positiva na vida da população. Escrevi sobre isto no artigo Evangélicos conservadores são, hoje, prioridade no governo Bolsonaro.

Ao mesmo tempo em que o protagonismo desta parcela evangélica na política é motivo de ufanismo para quem com ela se identifica, a imagem deste segmento cristão no Brasil torna-se muito comprometida. Além da nítida instrumentalização da religião pelos políticos no poder, muitas declarações públicas de boa parte das lideranças são baseadas em expressões de ódio, mentiras e má-fé. Sem contar os projetos que elas defendem nas áreas da economia, da educação, da cultura, da agricultura, do meio ambiente, que mais trazem prejuízos e malefícios à grande massa da população e ao País do que avanços sociais.

Portanto, que haja críticas e reações negativas a evangélicos por conta desta postura potencializada pelo atual contexto político do País, é compreensível. No entanto, as abordagens críticas precisam ser sempre acompanhadas do contraponto de que os evangélicos não são um segmento religioso homogêneo.

Como insistimos nesta coluna, há sempre a necessidade da informação de que existem inúmeros e distintos grupos cristãos evangélicos espalhados pelo Brasil, que, historicamente, colocam-se na vida do País de forma distinta ao que está em evidência hoje.

Se assim não for, temos uma expressão de preconceito e de intolerância religiosa, pela generalização da crítica e pela desinformação. Como no caso da referida postagem que desinforma, desqualifica, promove “guerra” entre religiosos, como se a prática da caridade fosse exclusiva de determinados grupos e não fosse realizada por evangélicos.

Revestida da responsabilidade de informar, por meio deste espaço, reafirmo ser importante recuperar a memória dos mais de 170 anos da presença evangélica no Brasil. Neste período, igrejas evangélicas tiveram presença fundamental na vida do País em diversas áreas de ação social já no início do século XX. Algumas igrejas abriram seu espaço de reuniões para serviços sociais, educativos e recreativos durante a semana e fundaram centros sociais como o Instituto [Metodista] Central do Povo, na Gamboa, no Rio de Janeiro, em 1906.

O Rev. Erasmo Braga (sobre quem já escrevi nesta coluna) e outras lideranças evangélicas na história despertaram em diferentes denominações o interesse por campanhas comunitárias de serviço social. Entre elas: missões com imigrantes, Serviço de Proteção aos Índios, Hospital Evangélico, Associação Cristã de Moços e Associação Cristã Feminina, Departamento Nacional de Saúde Pública, Associação de Tutela de Menores, Federação Universitária, Instituto José Manoel da Conceição, Fundação Umuarama, Cruz Vermelha, Cruzada para Extinção da Febre Amarela, Profilaxia da Lepra e Doenças Venéreas.

A Confederação Evangélica no Brasil, criada em 1934, durante anos, atuou por meio do seu Departamento de Ação Social e do Setor de Responsabilidade Social da Igreja em muitas frentes em todas as regiões do Brasil. Foram pastores, pastoras, leigos e leigas, jovens e adultos, que empenharam suas vidas, a ponto de, durante a ditadura, vários/as terem sido presos/as, torturados/as, exilados/as, expulsos/as e mortos/as por conta de seu compromisso com a fé cristã (também já escrevi sobre isso nesta coluna).

São inúmeros os nomes que se destacaram nestas práticas e inspiraram outros tantos que, até o presente, dedicam suas vidas ao amor ao próximo, especialmente aos mais pobres e vulneráveis. Há outros tantos evangélicos que vão além da caridade e se lançam na defesa dos direitos humanos, que é o amor em sua face mais profunda. Na semana passada, esta coluna destacou a história da Pastora Kaká, da Igreja Metodista, ganhadora da Medalha Tiradentes do Estado do Rio de Janeiro, por seu trabalho com adolescentes em privação de liberdade.

Há centenas de pessoas evangélicas no Brasil, pastores, pastoras e membros de igrejas evangélicas, premiadas ou não, reconhecidas ou não, que espalham muito amor por este País de forma concreta, seja para aliviar sofrimentos de forma imediata, seja para defender os direitos que são negados a tantos.

Não vou fazer uma lista para não alimentar o preconceito da “guerra” proposta na postagem citada. Entretanto, vale registrar que não é difícil recordar as que já se foram ou encontrar as que estão presentes. Para enxergá-las basta disposição de superar a intolerância: assumir a ignorância e desfazer a dureza de coração e o rancor.

 

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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