A pastora e o primeiro-ministro evangélicos promotores da paz e do amor

Medalha Tiradentes e Nobel da Paz, significativas premiações à Pastora Kaká e ao etíope Abiy Ahmed, felizes fiéis aos princípios cristãos

Pastora Kaká, homenageada com a Medalha Tiradentes, dedica sua vida e pastoreio a adolescentes em privação de liberdade (Foto: Atilon Lima @sagaz)

Pastora Kaká, homenageada com a Medalha Tiradentes, dedica sua vida e pastoreio a adolescentes em privação de liberdade (Foto: Atilon Lima @sagaz)

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Duas significativas premiações aconteceram na sexta-feira, 11 de outubro, honrando evangélicos que, por serem fiéis aos princípios cristãos no espaço público, são considerados “felizes”. Isto porque, de acordo com as palavras da Bíblia, “felizes são os promotores da paz porque serão chamados “filhos de Deus” (Evangelho de Mateus 5.9).

O Prêmio Nobel da Paz de 2019 foi concedido a Abiy Ahmed, o primeiro-ministro da Etiópia, por conta de “seus esforços em alcançar a paz e a cooperação internacional e em particular por sua iniciativa decisiva para resolver o conflito com a vizinha Eritreia”.

Ahmed é o governante mais jovem da África, 43 anos, que chegou ao poder em 2018. É parte do maior grupo étnico da Etiópia, Oromo, que liderou os movimentos que levaram à renúncia do primeiro-ministro antecessor Hailemariam Desalegn, em busca de democracia e reformas.

Ao assumir, Abiy Ahmed cedeu à Eritreia um território fronteiriço disputado entre os dois países por 20 anos, com a assinatura de um pacto de paz, em julho de 2018. A negativa da Etiópia em abrir mão daquela área impedia relações bilaterais e foi motivo para uma guerra que deixou 80 mil mortos.

Uma informação é omitida no amplo noticiário sobre o ganhador do Prêmio Nobel de Paz: Abiy Ahmed é evangélico, pentecostal ativo da Igreja do Evangelho Pleno. A mãe dele é da Igreja Ortodoxa e o pai é muçulmano. Ahmed aprendeu a tolerância religiosa em casa e tem uma trajetória de promoção da paz entre cristãos (de maioria Ortodoxa) e muçulmanos em seu país.

Ahmed já atuava na superação da intolerância religiosa em Beshasha, sua cidade natal, quando era parlamentar. Tão logo assumiu como primeiro-ministro, reuniu-se com o Patriarca da Igreja Ortodoxa Abune Mathias e ofereceu apoio para a superação dos conflitos religiosos. A fé de Abyi Ahmed é vista como um fator determinante em sua busca pela paz.

Primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, o Nobel da Paz de 2019
(Foto: EDUARDO SOTERAS / AFP)

Mais perto de nós, especificamente no Rio de Janeiro, ocorreu outra premiação significativa: a entrega da Medalha Tiradentes, concedida pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) à Pastora da Igreja Metodista Maria do Carmo Lima, conhecida popularmente como Kaká.

Há 25 anos, Kaká dedica sua vida e pastoreio a adolescentes em privação de liberdade, atuando no Departamento Geral de Ações Socioeducativas (DEGASE) da Secretaria de Estado de Educação.

De fato, a pastora começou sua atuação social aos 15 anos como voluntária no cuidado de dependentes químicos. Anos depois, estudando Teologia, passou a trabalhar com famílias cujas responsáveis eram mulheres, na Central do Brasil. Por acompanhar um adolescente que cumpria medida socioeducativa, foi convidada pela Defensoria Pública do Rio a realizar o serviço pastoral com adolescentes privados de liberdade, logo no início da criação do DEGASE, em 1993, como indicado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Desde então, a Pastora Kaká está presente na instituição sempre atuando na defesa da dignidade de adolescentes e funcionários, no Educandário Santo Expedito, na Escola João Luiz Alves e, há 17 anos, no Centro de Atendimento Intensivo (CAI), de Belford Roxo, Baixada Fluminense. Mesmo com problemas de saúde que dificultam a sua mobilidade, a pastora nunca se afastou dos adolescentes.

Durante sua formação, Kaká identificou-se com a Teologia Negra, tendo participado de encontros e processos de formação na África (em Gana, Benim, Zâmbia, Zimbábue, África do Sul e Angola). Ampliou sua capacitação no curso de Ciências Teológicas da Universidade Bíblica Latino-Americana, com a Teologia Negra Latino-Americana, e se tornou uma das primeiras pastoras a praticar e defender uma Teologia Negra e Feminista no Brasil.

A concessão da maior honraria do Estado do Rio, a Medalha Tiradentes, à Pastora Kaká, proposta pelo deputado estadual Flavio Serafini (PSOL), representa o reconhecimento público a uma pastora evangélica, mulher, negra, da Baixada Fluminense, que dedica sua vida a uma parcela da população esquecida, descartada. Jovens que não são considerados como tais, que muita gente quer ver mortos, eliminados. No entanto, são eles que Kaká, suas famílias e os/as educadores/as, a quem ela também acompanha, acreditam terem direito a uma chance na vida.

Somos todo o tempo confrontados com inumanidade, indignação seletiva, falta de misericórdia, egoísmo, individualismo, meritocracia, da parte de lideranças políticas e, lamentavelmente, também, religiosas. Por isso, é fonte de muita esperança ver o reconhecimento público a uma cristã evangélica que faz diferença. Na cerimônia de entrega da medalha, as palavras mais pronunciadas foram amor, cuidado, autodoação, respeito, valorização, promoção da paz. Além disso, a honraria foi concedida a uma pessoa que faz um trabalho invisível, inclusive aos olhos das igrejas, porque não apresenta “resultados” numéricos e patrimoniais, que gerem status.

Kaká não quis receber a medalha nas dependências da ALERJ. Decidiu que a cerimônia deveria acontecer na sua comunidade, na sua paróquia, no CAI Baixada, no contexto dos muros, das grades, das barras, onde se pode viver a fé, como Jesus ensinou, entre os desprezados e esquecidos, que Deus não abandona e não esquece nunca. Mais um testemunho de humildade da pastora, algo tão escasso entre líderes religiosos hoje.

Primeiro-ministro Abiy Ahmed e Pastora Kaká: evangélicos que testemunham o verdadeiro Cristianismo e mostram que existem cristãos fiéis à paz com justiça, à reconciliação e ao cuidado com os desprezados deste mundo. É possível ser evangélico e simplesmente “amar como se não houvesse amanhã”.

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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