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“Candomblé paulista”: uma história de resistência e vanguarda

Os desafios da religião numa sociedade de consumo emprestam novos tons aos quadros da memória do povo do axé

Há muita ignorância sobre as religiões afro-brasileiras
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O cenário das religiões de matriz africana em São Paulo sempre foi bastante peculiar. A visível predominância da umbanda abriu caminho e preparou o terreno fértil para a introdução e expansão do candomblé. A conversão considerável de umbandistas, um fluxo quase natural nos anos 1970 e 1980, empresta características muito próprias ao candomblé praticado em São Paulo e inaugura o modelo daquilo que poderíamos chamar de “candomblé paulista”, um movimento com personagens marcantes, cuja memória pode auxiliar na compreensão de um momento fundamental no processo de difusão das religiões afro-brasileiras.

De certa forma, a conversão, em geral, sempre caracterizou o confuso universo religioso brasileiro, numa dinâmica que inclui a inserção de novas modalidades em contextos específicos, como a profusão das igrejas neopentecostais na Bahia, nos anos 1980, ou a chegada do candomblé em São Paulo, no final da década de 1950, além da formação de um mercado religioso e da ascensão midiática e política dos segmentos cristãos, sobretudo os evangélicos.

Alguns pesquisadores, como Maria Helena Villas-Boas Concone, ressaltam que a umbanda tem sido reiteradamente identificada como a religião brasileira por excelência. Seria o resultado do encontro de tradições africanas, espíritas e católicas, marcada também pelas reminiscências indígenas, ainda que simbólicas. Uma religião aberta e organizada para responder às demandas de uma sociedade complexa, heterogênea e com uma estrutura nitidamente racista.

Mais do que uma referência fundamental na formação da umbanda, o espiritismo oferece sua base filosófica, que se alinha em grande medida às ideias evolucionistas do final do século XIX. A versão recorrente de que o primeiro terreiro de umbanda teria surgido como dissidente de um centro kardecista que não aceitava a manifestação dos espíritos menos “evoluídos” de índios e negros demonstra o quadro subjacente que relegava as religiões de matriz africana à marginalidade.

As profundas relações entre as duas modalidades mais populares de religião afro-brasileira encontram no trânsito de seus adeptos o fomento que as dinamiza. Ao tentar reconstituir o processo histórico de formação dessas religiões, confirma-se sua organização a partir de segmentos marginalizados da sociedade brasileira, congraçando negros e pobres e sofrendo uma perseguição sistemática.

Nas lembranças do povo do candomblé, a perseguição aparece de forma recorrente e marca não só as narrativas, mas os comportamentos e os corpos, impondo ainda um cuidado com a fala ou deixando que silêncios e não ditos revelem as memórias subterrâneas. Numa tradição que fundamenta sua transmissão na oralidade, sem uma organização institucionalizada e com inúmeras referências doutrinárias, um levantamento verossímil de sua história só é possível com a análise da memória e do ritual, que, para Muniz Sodré, é uma “fonte” teórica da qual nenhum historiador daria conta.

Contudo, o passado recente do candomblé, as modificações e adaptações que sofreu ao ser introduzido em grandes centros urbanos como São Paulo e Rio de Janeiro são extremamente importantes. Vários autores já demonstraram como a explicação sociológica acerca do candomblé se transformou profundamente diante dos desafios que a religião enfrentou no seu processo de inserção na sociedade industrializada.

Compreender esse panorama, no qual pais e mães de santo vêm apresentar seus préstimos em outros estados e passam a disputar clientes num mercado religioso, ajuda a traçar as linhas gerais das mudanças que demarcam os candomblés de São Paulo e tudo que os diferencia dos terreiros mais tradicionais. A sociedade industrializada impôs novos contornos e explicações. Agora, os desafios da religião numa sociedade de consumo emprestam novos tons aos quadros da memória do povo do axé. Nesse contexto, ao buscar reconstruir a memória de um dos baluartes do candomblé paulista, revemos também uma história de resistência e vanguarda.

Pai Pérsio de Xangô, por exemplo, pode ser considerado uma espécie de fundador do candomblé paulista, inscrevendo-se no rol de personalidades que marcaram época e contribuíram decisivamente para a construção de uma prática ritual que se tornou referência. Da mesma forma, o Axé Batistini, terreiro que fundou nos anos 1960, do qual descendem outras tantas casas e que possui milhares de filhos e filhas espalhados por todo Brasil, configura-se como a grande casa matriz de São Paulo.

A possibilidade de um candomblé paulista, do qual Pai Pérsio seria protagonista e fundador, permite que se fale de sua existência como algo extremamente significativo, presumindo que seria um movimento importante na luta e resistência da ancestralidade e do povo negro em São Paulo. Mais do que descrever um processo de inserção e consolidação, ajuda a explicar a função de uma religião étnica num contexto urbano e numa sociedade de consumo.

A força da religiosidade africana deu fundamento e base para a reconstituição de um povo em diáspora e para a reinvenção de sua gente. Olhar para as tradições e visões de mundo preservadas no candomblé nos possibilita atingir uma concepção mais completa do que foi e ainda é a realidade do negro no Brasil e a formatar um conceito de memória ancestral que nos faz entender as estratégias de sobrevivência que se executam desde sempre em seus territórios de segregação e resistência.

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