Diálogos da Fé
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Diálogos da Fé
‘Avivamentos’ e flashmobs como os de Petrópolis tendem a aumentar
O país – e o mundo – estão muito longe do ideal de secularização
Na última semana foram registrados dois episódios em que, de forma aparentemente espontânea, grupos de pessoas passaram a cantar hinos evangélicos em lugares públicos. O primeiro deles aconteceu em um supermercado, o segundo em um shopping center, ambos da cidade de Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro. Os eventos foram chamados por alguns de “avivamentos”. Por outros, de “flashmob”.
Segundo consta até o momento, os episódios foram ações organizadas por uma igreja neopentecostal. A intenção dos organizadores seria levar o evangelho para pessoas que não o conhecem, em uma ação evangelizadora. Certamente, a repercussão do assim chamado avivamento de Asbury – evento recente em que um culto na Universidade de Asbury acabou gerando manifestações de louvor que duraram semanas – impulsionou as ações de demonstração pública da fé nos moldes mostrados nos vídeos.
A questão é que, ainda que sejam eventos combinados, pelas imagens é possível ver um público emocionado e os transeuntes sendo incorporados à manifestação de fé. Ou seja, há neles também uma dose de espontaneidade, ao menos na proporção alcançada.
Nas redes sociais houve quem gostou, dizendo ser a manifestação pura do Espírito Santo e da fé em Cristo, e também quem se incomodou com a expressão de fé em lugar público de forma a chamar atenção de quem, por quaisquer motivos, poderia se incomodar com a atitude.
No discurso dos críticos, há uma defesa de uma sociedade secularizada, em que a fé das pessoas estaria reservada para o âmbito privado, e não para a exposição pública, ainda mais nos moldes expostos, em que o objetivo é justamente atrair a atenção do público e repercussão na mídia e nas redes sociais.
Acontece que o país – e o mundo – está muito longe do ideal de secularização. Eventos como os ocorridos em Petrópolis, na verdade, tendem a aumentar no Brasil – com o crescimento acelerado dos evangélicos no nos últimos anos, é natural esperar também uma crescente ocupação dessa manifestação de fé nos espaços públicos.
Ainda que este seja um diagnóstico verdadeiro, ele é também um diagnóstico apenas parcial do cenário religioso brasileiro. Um olhar atento perceberá que, além do crescimento da população evangélica, há também um aumento importante do contingente de pessoas sem religião. Principalmente entre jovens, esse número é significativo: 25% das pessoas entre as faixas de 16 e 24 anos, segundo levantamento do Datafolha do ano passado. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, esse número alcança respectivamente 30% e 34%, colocando os “Sem Religião” acima dos evangélicos e católicos da mesma faixa etária.
O que temos, portanto, é a constituição de um cenário perfeito para controvérsias e polêmicas como a dessa semana. Para superá-las, será preciso uma boa dose de tolerância.
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