Atores diferentes, atos semelhantes

Movimentos da oposição, que tanto criticam o presidente, também aglomeraram, escreve Atilla Kuş

O presidente Jair Bolsonaro, em ato no Rio de Janeiro, junto ao ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Foto: Fernando Frazão/Agencia Brasil

O presidente Jair Bolsonaro, em ato no Rio de Janeiro, junto ao ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Foto: Fernando Frazão/Agencia Brasil

Diálogos da Fé,Opinião

Há mais de um ano lutamos contra a Covid-19. Infelizmente, as maneiras governamentais e sociais de combate à pandemia têm registrado ações mais propícias à disseminação do novo coronavírus do que ao seu enfrentamento.

Como todos que vivem no Brasil, venho acompanhando a Comissão Parlamentar de Inquérito – CPI da Covid-19. Dentre tanta omissão revelada na investigação, vimos quem mentiu. Ou seja, aqueles que são ou foram responsáveis por tomar medidas de preservação de vidas não só descumpriram a tarefa como omitiram tudo que houve e foi declarado no período.

Enquanto isso, durante as sessões da CPI, houve tentativas de sabotar votações e depoimentos, assim como  desrespeitos à ciência. Isso aconteceu de maneira tão clara que o presidente da CPI, senador Omar Aziz, teve de chamar a atenção de seus colegas nas frases a seguir durante o depoimento de Dr. Dimas Covas, Diretor do Instituto Butantan: “Nós, aqui, fazemos política. O professor Dimas é cientista, faz ciência. Então, deve ser respeitado como tal”. É triste observarmos que uma pessoa ter de recordar os seus colegas da importância da ciência neste exato momento. Infelizmente, desde que entrei na academia, o que mais presenciei em todos os níveis da sociedade é o menosprezo que os cientistas e acadêmicos sofrem.

Por outro lado, observei as manifestações que ocorreram nas últimas duas semanas. Em 23 de maio, o presidente da República, que tem em média 2.000 mortos por dia por causa da Covid-19, provocou uma aglomeração no Rio de Janeiro – assim como tem feito em outros lugares – onde defendeu que “nenhum brasileiro pode ser privado de seu direito de ir e vir dado pela Constituição Brasileira”.

Porém, ele se esqueceu que na mesma Constituição o direito mais básico e imprescindível é o Direito à Vida. Direito este que está acima de qualquer outro, pois se não há vida não haverá nenhum direito a se discutir. Portanto, na minha ideia, se tratou, naquele e em demais outras declarações do senhor presidente, um recorte do texto constitucional, que serve aos seus objetivos eleitorais.

Não muito diferente do que a supracitada ação do presidente, no dia 29 de maio, houve uma manifestação organizada por movimentos da esquerda contra Jair Bolsonaro. Nas manifestações, exigiu-se a vacina, o impeachment e o auxílio emergencial. Não cabe a mim avaliar o caso do impeachment, porém, concordo com as outras duas demandas. É necessário que haja vacina e auxílio financeiro para que o povo se recupere imediatamente desta crise sanitária e econômica. Além disso, é um direito do cidadão fazer essas demandas.

Porém, discordei de uma ação dos manifestantes do último ato: a aglomeração. Os movimentos da oposição, que tanto criticam o presidente pelas aglomerações que causou e declarações que fez, aglomeraram em diversas cidades do Brasil cometendo o erro que criticou. Caiu-se numa contradição e jogou-se vidas em perigo. O brasileiro é um povo que consegue criar maneiras de expressar as suas demandas de várias maneiras que não necessariamente seja aglomeração frente a uma terceira onda.

Política, dizia Rubem Alves, é o ato de cuidar do jardim que é de todos. Jardim, neste caso, é o País em que vivemos e o povo com que convivemos. A política serviu de destruir e não de cuidar, pois cada um se preocupou com o seu próprio jardim, nas palavras de Rubem Alves.

Pois bem, meu querido leitor. As diferentes posições políticas são diferentes formas de interpretar o cuidado com o país e com o povo. Cada uma traz uma perspectiva diferente de colaborar para com o bem na medida em que os jardineiros (os políticos e suas posições) se preocupam com o jardim de todos. Quando se preocupam com o seu próprio, estragam aquilo que é de todos. Portanto, o que vemos constantemente é que os atores são diferentes, mas os atos sempre são sempre são semelhantes.

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Cientista da religião, mestre e doutorando em Ciência da Religião pela PUC-SP. Membro do Centro de Estudos das Religiões Alternativas e de Origem Oriental no Brasil-CERAL da PUC-SP e do Grupo de Trabalho Oriente Médio e Mundo Muçulmano-GTOMMM da USP.

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