A urgente superação da divisão entre esquerda e religião

'Não podemos nos fragmentar em um momento de tanto sofrimento', escreve Angelica Tostes

Foto: iStock

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Diálogos da Fé

Rubem Alves dizia que os teólogos e teólogas são, na verdade, contadores de histórias. Cá estou eu, partilhando uma velha história que se encontra no evangelho de Mateus. Jesus estava passeando pelas lavouras, em um sábado, fazendo o que ele mais sabia fazer, comungar com seus amigos, amigas, e, então, vieram os fariseus – religiosos apegados à Lei – questionar o motivo dele e seus discípulos trabalharem aos sábados – dia do descanso. Jesus, com sua sagacidade, respondia com perguntas, como os grandes sábios.

Mais a frente, o texto nos diz que ele curou um enfermo e novamente vieram, atormentando-o: “mas pode curar aos sábados?”. Jesus sempre colocando mais perguntas do que respostas aos seus inquisidores dizia que a vida de um ser humano é mais valiosa que a tradição.

Jesus seguia caminhando, curando e comungando com o povo até que expulsou demônios de um homem. Mais uma vez, os religiosos questionaram, não mais a ação de Jesus, mas de onde vinha esse poder para curar os enfermos, expulsar demônios e fazer outras tantas maravilhas. Diziam entre eles: “é por Satanás, Belzebu, que ele faz essas coisas…”. Como o texto diz, conhecendo os pensamentos maldosos, Jesus se antecedeu dizendo inúmeras coisas, do tipo: “como o diabo expulsaria o próprio diabo?” e por fim diz a máxima:

“Todo o reino dividido contra si mesmo é devastado; e toda a cidade, ou casa, dividida contra si mesma não subsistirá.” Mateus 12:25

Retomo essa história bíblica para falar de uma relação que ainda está um pouco desgastada ou fragilizada, por inúmeros erros e distanciamentos, que é a relação da esquerda com a religião.

A relação, que era tão forte no florescimento da Teologia da Libertação aqui na América Latina, foi sendo corroída por sentimentos anti-religiosos de um lado e por sentimentos anti-comunistas propagados contra o cristianismo revolucionário do outro.

O diretor do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, o intelectual indiano Vijay Prashad, nos mostra, em seu livro “Balas de Washington” (2020, Ed. Expressão Popular), a ofensiva imperialista no continente latino-americano contra a Teologia da Libertação: “Seitas protestantes, particularmente aquelas com raízes estadunidenses (…) pregavam o evangelho da empresa individual e não da justiça social.” No Chile, 32 igrejas pentecostais celebraram o golpe de Pinochet contra o socialista Salvador Allende, afirmando que o golpe “foi a resposta de Deus às orações de todos os crentes que reconheceram que o marxismo era a expressão de um poder satânico das trevas”, relata Prashad.

Dentro desses espinhos, há aqueles e aquelas que perseveraram na fé inspirada no caminhar de Jesus, evangélicos e evangélicas, pentecostais, históricos, ecumênicos, que permaneceram e permanecem resistindo em suas identidades religiosas e no compromisso de uma sociedade justa, no compromisso de um cristianismo revolucionário.

Os marginais dentro do centro são aqueles e aquelas que estão nos entrelugares,  às margens da religião fundamentalista que os nega como religiosos e crentes e às margens da esquerda, que, por vezes, ainda desconfia dos saberes e construções a partir da religião. Isso não faz com que desistam, mas podem desanimar, cansar de muitas vezes não serem escutados. Faço parte, com inúmeros companheiros e companheiras de fé e luta, desses marginais da fé. Seguimos…

E seguem também os movimentos sociais, que estão nos territórios, nas ações de solidariedade e que hoje têm encontrado a periferia urbana e rural com linguagem, demandas e sonhos diferentes, e que se organizam socialmente a partir das muitas igrejas que frequentam.

A companheira Marina, militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra em Mato Grosso do Sul, que a partir da atuação nos territórios periféricos, por meio das Brigadas de Trabalho de Base do Congresso do Povo, tem tido um diálogo profundo com a periferia usando ações de solidariedade, relata:

“Como a gente começou a conversar com eles? Nas campanhas de solidariedade. Aí, a pastora falava: ‘Marina, Léia, a nossa comunidade é muito carente, estamos passando por uma situação assim…’ E fizemos campanha de roupas, calçados, móveis. Eles têm uma gratidão muito grande, porque viam que eram gestos de solidariedade de um pequeno grupo. Uma vez, teve uma fiel que disse: ‘até agora não entendi porque vocês vieram’. Aí a gente: ‘olha, como é que você vê esse governo?’ Ela, que era uma jovem, inquieta: ‘meu Deus, a gente não tem governo! Vou falar a linguagem nossa aqui, a gente tem um capeta dirigindo o mundo’. Aí eu: ‘é, essa visão sua é a nossa visão, nós temos alguém aí que não se preocupa com essa sociedade, principalmente com os menos favorecidos’”.

“A gente tem um capeta dirigindo o mundo”! Não há resistência se a nossa casa progressista está divida. Não há enfrentamento aos fundamentalismos se não conseguirmos superar as dificuldades que tivemos no caminho entre fé e luta. Nossa revolução não acontecerá se ficarmos ressentidos uns com os outros! A esquerda tem reconhecido os erros em relação à religião e tem buscado entender o fenômeno com profundidade.

A pesquisa do Instituto Tricontinental “Neopentecostais na Política” segue nesse esforço, com o qual tenho a alegria de contribuir junto com a companheira Delana Corazza. As pessoas de fé revolucionária, na qual me incluo, devem, na linguagem cristã, perdoar esses erros e seguir adiante na luta. Não podemos nos fragmentar em um momento de tanto sofrimento e no qual necessitamos expulsar demônios e capetas em nosso meio! Como Jesus nos alertou, não faremos isso se a nossa casa estiver dividida contra si mesma!

O companheiro do MST Ángel Garcia nos relembra, ao escrever sobre o sacerdote colombiano e guerrilheiro Camilo Torres, que: “ Retomar o trabalho político a partir de uma perspectiva de fé e revolução, assim como ressuscitar e renovar as teologias emancipatórias (contextualizadas para os tempos atuais) são tarefas de ordem estratégica. Superar os preconceitos e a falsa dicotomia entre materialismo e espiritualidade para assumir a ‘aliança estratégica entre cristãos e marxistas’ (como disse Fidel Castro em 1985 em sua entrevista com Frei Betto) é um elemento vital para esse propósito”.

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Teóloga, mestra em Ciências da Religião, professora e pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social

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