A pandemia de partidarismo

'O meu conselho àqueles que tanto criticam as políticas erradas do governo: não façam o que criticam', escreve Atilla Kuş

Motociata de Bolsonaro. Foto: Miguel SCHINCARIOL / AFP

Motociata de Bolsonaro. Foto: Miguel SCHINCARIOL / AFP

Diálogos da Fé

No último artigo publicado neste espaço, tentei trazer à tona uma questão que, a meu ver, devia ser levada em consideração. Como já esperado, houve quem criticou e até “levei pedrada” por ter dito que a oposição não fez nada diferente do que o presidente Jair Bolsonaro ao organizar manifestações do dia 29 de maio.

Depois de críticas dirigidas a mim ao ponto de dizer que “nem parecia ser um doutorando quem escreveu aquilo”, comecei a pensar se fiz algo errado. Mas, como citei, essas reações eu esperava ao digitar aquelas linhas. Porém, logo depois daquele artigo, constatei que várias outras pessoas com posições antagônicas ao presidente falaram e partilharam da mesma ideia.

Na semana da publicação daquele artigo, continuamos acompanhando a CPI da Covid que recebeu duas médicas reconhecidas em suas respectivas áreas: a Nise Yamaguchi e Luana Araújo.

Porém, um ponto valeu a pena para ser considerado: as acusações de machismo direcionadas a alguns senadores que pressionaram a Dra. Nise Yamaguchi. Por esta ocasião, observei nas redes sociais pessoas que começaram a fazer publicações sobre o respeito à mulher, à ciência etc.

São essas as mesmas pessoas que vi ofenderem mulheres que não partilhavam de suas posições políticas e chamaram os cientistas de nomes inexpressáveis aqui. Ou seja, houve denúncias de machismo somente porque o alvo disso foi a Dra. Nise Yamaguchi. Somente se defendeu o respeito por uma mulher porque ela tem determinado posicionamento. Claro, não defendo que haja desrespeito a nenhuma mulher na face da terra. Todas elas merecem o dobro do respeito que os homens mereceriam.

Passadas quase duas semanas, novamente o presidente Jair Bolsonaro fez uma “motociata”. Desta vez, em São Paulo no dia 12 de junho. À parte os números de motos que ele reuniu para esta passeata, novamente praticou o que um chefe de Estado não devia: aglomeração em meio a uma pandemia que mata em média 2 mil pessoas por dia sem uso de máscara e não tendo devidos cuidados. Ignorou mais uma vez o fato de que estamos vivendo um momento crítico em que há variantes por aí andando, estamos próximos de ter 500 mil mortes ao total e com os sinais da terceira onda. Cabe a qualquer chefe de estado dar bom exemplo em momentos como este, porém, infelizmente isso está em falta no caso do Brasil.

No mesmo dia da motociata do presidente, a oposição novamente chamou manifestações. Ocorrerão no dia 19 de junho, próximo sábado. Inclusive, está sendo falado que o número de participantes será bem maior do que a motociata do dia 12 de junho. Repito o que falei no artigo anterior: a oposição está caindo em uma série de controvérsias com essas manifestações que causam aglomerações enormes e ainda há quem tende a se orgulhar disso.

Resumidamente, querido leitor, a ação em si é muito irrelevante. O que importa é quem age para dizer se é legítimo ou não. Noutras palavras, há uma pandemia de partidarismo que oferece legitimação para ações de cada um. Esta é uma pandemia pior do que qualquer outra.

Como diz Nietzsche, “quem luta monstruosidade, deve cuidar para não se tornar monstro”. Não estou a julgar ninguém como monstro, porém, aqui vai o meu conselho àqueles que tanto criticam as políticas erradas do governo: não façam o que criticam. Caso contrário, acabam por legitimar e perder o direito a criticar as ações erradas.

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Cientista da religião, mestre e doutorando em Ciência da Religião pela PUC-SP. Membro do Centro de Estudos das Religiões Alternativas e de Origem Oriental no Brasil-CERAL da PUC-SP e do Grupo de Trabalho Oriente Médio e Mundo Muçulmano-GTOMMM da USP.

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