Diálogos da Fé

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A inspiração das Marias que misturam dor e alegria neste Brasil 2023

É muito bom que, nas últimas décadas, leitura contemporâneas da Bíblia estejam recuperando o lugar das mulheres na história da fé cristã

Leituras contemporâneas da Bíblia têm realçado o papel inspirador de Maria no tempo de Advento. No Brasil, algumas igrejas evangélicas se distanciam dessa tradição (Foto: iStock)
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No domingo 3 de dezembro, foi iniciado, com base na tradição cristã, o período do Natal: é o chamado tempo do Advento, a primeira estação do calendário cristão. A palavra vem do latim “Adventus”, que significa chegada, o que está para vir. Nesta tradição, cristãos e cristãs se reúnem nos quatro domingos que antecedem o Natal, para ressaltar a expectativa da espera, da preparação para celebrar o nascimento de Jesus, a razão da existência, inspiração maior, deste grupo religioso.

Esta tradição é cultivada por cristãos católicos, evangélicos históricos (luteranos, anglicanos, reformados – presbiterianos, metodistas, batistas, congregacionais, entre outras igrejas) e ortodoxos (com duração estendida por seis semanas). Ela é recheada de símbolos, como a coroa do Advento (com velas acesas a cada domingo de espera mais a vela do Natal), leituras da Bíblia, outros textos e cânticos relacionados.

No Brasil, nem todas as igrejas evangélicas mantêm esta tradição. A rejeição a símbolos para demarcar diferenças dos católicos e rechaçar o que era risco de se tornar “idolatria”, foi marca do estabelecimento das igrejas evangélicas do ramo histórico no Brasil. Depois, com o crescimento pentecostal no país, segmento que se constituiu ainda mais distanciado das tradições litúrgicas do Cristianismo, e que passou a exercer uma influência significativa sobre todas as demais, a ênfase no tempo do Advento tornou-se mais restrita.

Nesta semana me peguei a pensar que o Catolicismo Popular celebra, logo nesta primeira semana do Advento, o Dia de Nossa Senhora da Conceição, 8 de dezembro. Os festejos desta face de Maria, a jovem mulher que concebeu Jesus, marcarão várias cidades espalhadas pelo país e emocionarão muita gente.

Evangélicos não veneram Maria, tampouco Nossa Senhora da Conceição. Esta é uma das grandes diferenças entre a doutrina evangélica e a católica. Para os evangélicos, Maria é uma das tantas personagens, narradas nos textos da Bíblia, que participaram do projeto redentor de Deus para o mundo. Foi especial por ser conhecida como aquela que foi escolhida por Deus como mãe de Jesus. 

No Brasil, o caráter de minoria religiosa do segmento evangélico e sua postura predominantemente anticatólica, tornou seus princípios de fé ainda mais redutores da figura de Maria. Ela é raramente lembrada em pregações, na educação religiosa, à exceção do Natal e em algumas situações na Páscoa (memória cristã da morte e da ressurreição de Jesus). 

Uma pena que seja assim! Como as igrejas evangélicas, marcadamente compostas, na maioria, por mulheres pobres e negras, aprenderiam da inspiração de Maria! Ela era de Nazaré, na Palestina hoje devastada por Israel. Não era da capital ou de uma grande cidade, mas de um lugar periférico, pequeno. Por isto ela sabia muito bem o que era pobreza, discriminação. Ser pobre, de Nazaré, e ser mulher não era fácil! E ao entrar para a história como mãe de Jesus, Maria era ainda uma adolescente, aprendendo a lidar com as dores do ser mulher. Porém misturava tudo isto com alegria, como diz a canção popular.

As narrativas bíblicas contam que Maria cantou a alegria de participar do projeto de Deus, trazendo Jesus ao mundo e acreditando que chegava a vez dos pobres e pequenos e não dos poderosos, como sempre havia sido! E ela cantou num momento em que teve que fugir para a casa da prima Isabel, nas montanhas, para esconder a gravidez precoce que seria alvo de ataques de intolerância.

Maria sofreu, mas teve alegria por ter tido uma experiência de fé com um Deus que não morava no templo da capital, como os religiosos da época tentavam fazer crer. Aquela mulher tão jovem, como as muitas que frequentam as igrejas espalhadas pelo Brasil, declarou ter descoberto um Deus que se importa e valoriza todas as pessoas, sem distinção. 

Assim viveu Maria de Nazaré, que encontrou força mesmo continuando a viver dores. Afinal, que dureza ser mãe de um filho que, quando adulto, foi preso, torturado e condenado à morte! Maria sofreu estas agonias, como muitas Marias deste nosso Brasil, mas não perdeu a fé na vida. 

A canção popular chama isto de “estranha mania”. Afinal, hoje tudo coopera para que se perca a fé na vida. Violências, negação de direitos, injustiça, discriminação… fontes para depressão, suicídio, rendição às drogas e à criminalidade. Porém, quem tem “manha, graça, sonho” e “mistura dor e alegria”, vê e vive a vida de outro modo.

Há muita inspiração que brota de Maria e das tantas Marias que seguem a trilha desta mistura. Muitas histórias ao longo dos séculos até chegar aos nossos dias. Mulheres que acreditaram, tiveram força, lutaram por direitos, pela terra, pela democracia e pela liberdade. Elas foram/vão até o fim e dedicam suas vidas em nome da fé na vida. Poderíamos citar tantas na nossa história passada e presente… quem lê este texto pode fazer o exercício de nomear estas “Marias”.

É muito bom que, nas últimas décadas, a leitura da Bíblia feita por teólogas evangélicas e católicas, junto com participantes das comunidades cristãs espalhadas Brasil afora, tem recuperado o lugar das mulheres na história da fé cristã. E estas leituras vão redescobrindo como a figura de Maria é inspiradora para cristãs e cristãos e também para todas as pessoas, em especial, neste tempo de Advento!

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