Diálogos da Fé

Blog dedicado à discussão de assuntos do momento sob a ótica de diferentes crenças e religiões

Diálogos da Fé

A fé como expressão da vida que pulsa no Carnaval

Por mais que alguém declare que não goste do Carnaval, como ignorar, neste período, o lugar dessa manifestação cultural tão popular no Brasil?

Foto: Prefeitura do Recife
Apoie Siga-nos no

Historicamente identificado como festa profana, festa da carne, o Carnaval existe há muitos séculos e nasceu como festa cristã, na Idade Média. Era uma forma de controle da Igreja no Ocidente (a Católica) sobre as festas populares que vinham da antiguidade, da cultura greco-romana, como as bacanais (dedicadas ao deus do vinho Baco, para os romanos, Dionísio, para os gregos) ou as saturnais (romanas, no solstício de inverno, em dezembro).

Estas festas antigas duravam vários dias, com comidas, bebidas e danças. Eram marcadas pela inversão da ordem estabelecida: os escravos tomavam o lugar dos senhores que se colocavam no papel de escravos; os bobos e os prisioneiros transformavam-se em rei e este era humilhado diante do seu deus; os castos, que “decidiam esperar”, entregavam-se à sensualidade; os demônios viravam deuses e deuses se tornavam demônios.

A história do Carnaval é recuperada de forma brilhante pelo filósofo russo Mikhail Bakhtin, na tese de doutorado que escreveu no início do século XX, transformada no livro “A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais”. O Carnaval, criado na Europa medieval pela Igreja, foi uma forma de controlar aquelas festas antigas tão populares, condenadas por ela por representarem uma entrega aos prazeres mundanos. A Igreja também criticava a inversão dos papéis sociais que estas festas promoviam, uma vez que estava comprometida com os senhores que eram alvo de crítica e deboche, e ela própria tinha seus líderes satirizados.

A tentativa de dar um sentido cristão às festividades populares gerou, nos meados da Idade Média, a ideia do Carnaval (carnis levale, ou, “retirar a carne”), como um período entre o Natal e a Páscoa em que as pessoas estariam liberadas para cometer todos os “excessos da carne”. Com isto foi criado, também, o período da Quaresma, um tempo de 40 dias antes da Páscoa, logo depois do Carnaval, caracterizado pelo arrependimento dos excessos cometidos e pelo jejum (purificação).

Bakhtin concluiu em sua tese que, no Carnaval, o poder é deposto pelo riso e o deboche, afinal, neste tempo, o povo, ganha a vez e a voz que lhe são negadas durante o ano e satiriza as autoridades (seculares e religiosas). Eram os dias em que “a ordem oficial” das coisas e dos papéis eram suspensas e o “pecado” e a crítica liberados. Para Bakhtin, o Carnaval só ganhava sentido por ser uma potência total diante da repressão máxima. Por isso, segundo o filósofo, nos regimes políticos e sociais não-autoritários, a força do Carnaval como expressão popular autêntica e libertadora não se concretiza, não se torna possível.

O Carnaval, na versão europeia medieval, chegou ao Brasil por meio da colonização portuguesa. A festa, tornada rapidamente popular, gerou reação das elites, que entrou em colisão com as classes populares. As autoridades logo promoveriam a retirada do Carnaval das ruas, com a introdução de disciplina policial e criação dos bailes fechados em clubes e teatros e estabelecimento dos desfiles das sociedades para “limpar” as ruas das cidades.

Porém, outras transformações vieram com as interações com as culturas negras. Grupos populares driblaram a repressão das elites com a utilização estética das procissões religiosas nos ranchos e cordões. Logo as marchinhas de Carnaval ganharam espaço e o samba ocupou seu lugar na cultura da festa, no sudeste do país, no início do século XX. Deste processo, emergiram no Nordeste os afoxés, o frevo, o maracatu. As escolas de samba conquistaram lugar como expressões das classes populares no Rio e os trios elétricos surgiram em Salvador.

De festa popular, marcada por conflitos de classe, o Carnaval se constituiu no Brasil como fonte de negócios, de turismo e até suporte para contraventores. Porém, esta manifestação cultural nunca perdeu as características que estão no seu DNA, desde a Idade Média na Europa: a oportunidade da transgressão crítica com sátira à ordem vigente.  E isto se intensifica, como alertava Bakhtin, em contextos que lidam com repressão e autoritarismo – caso do Brasil, forjado na colonização que gerou, entre tantas marcas, o coronelismo do latifúndio, o militarismo, as ditaduras.

As religiões e as religiosidades vividas no cotidiano de grande parcela da população sempre tiveram lugar nas manifestações do Carnaval no Brasil. São temas de blocos, de sambas-enredo de escolas de samba e de canções entoadas nas ruas, estão presentes em toques de instrumentos dedicados a divindades, são expressas em fantasias em desfiles ou de foliões nas ruas. Isto faz com que a origem religiosa do Carnaval permaneça viva, ainda que ressignificada, não apenas na manutenção do calendário na tradição Católica Romana, mas também como fonte de subversão, crítica, denúncia e anúncio da possibilidade de libertação de amarras, algo também próprio das religiões.

É por estas características que os conflitos e tensões gerados pelo Carnaval e suas transgressões estão sempre presentes. Um caso clássico ocorreu em 1989, com o enredo “Ratos e urubus… larguem minha fantasia”, da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis (da castigada empobrecida região da Baixada Fluminense, Rio). O carnavalesco Joãozinho Trinta, que se apresentou na avenida vestido de gari, havia criado o carro abre-alas, um Cristo Redentor mendigo, em farrapos, emergindo de uma favela.  Dois dias antes, o carro teve sua exibição pública proibida, a pedido da Arquidiocese Católica, acatada por liminar do juiz da 15ª Vara Cível.

Porém, o ato de censura gerou uma subversão que fez história no Carnaval do Rio: a imagem do Cristo Mendigo foi para o final do desfile, coberta com plástico preto mais a faixa gigante “Mesmo proibido, olhai por nós” e representou uma apoteose na avenida.

Por mais que haja quem rejeite a “bagunça, a sujeira e os excessos” do Carnaval; que a festa sofra críticas da exploração comercial e de ilegalidades; que grupos religiosos promovam retiros para afastar fiéis das tentações da folia, interpretada como fonte do mal, o Carnaval permanece como festa popular de grande apelo no Brasil.  O Carnaval segue com suas expressões transgressoras e irreverentes, sem deixar de demarcar a fé no Divino como uma aliada da brincadeira que trata a vida de forma muito séria.

ENTENDA MAIS SOBRE: , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor…

O bolsonarismo perdeu a batalha das urnas, mas não está morto.

Diante de um país tão dividido e arrasado, é preciso centrar esforços em uma reconstrução.

Seu apoio, leitor, será ainda mais fundamental.

Se você valoriza o bom jornalismo, ajude CartaCapital a seguir lutando por um novo Brasil.

Assine a edição semanal da revista;

Ou contribua, com o quanto puder.