5 de junho, Dia do Meio Ambiente: oportunidade para as igrejas se arrependerem

Teólogas e teólogos têm alertado há muito tempo sobre os reclames da terra explorada

Conciliação. No encerramento do encontro, o papa pediu desculpas por ataque de fanáticos ultraconservadores.  Ouvidos, os indígenas veem com bons olhos os resultados do evento em Roma. Foto: Andreas Solaro/AFP

Conciliação. No encerramento do encontro, o papa pediu desculpas por ataque de fanáticos ultraconservadores. Ouvidos, os indígenas veem com bons olhos os resultados do evento em Roma. Foto: Andreas Solaro/AFP

Diálogos da Fé

O dia 5 de junho tem passado despercebido a cada ano – vivemos uma moda de se estabelecer dia para tudo, do abraço ao DNA. É uma antiga data muito significativa do calendário, por destacar a importância do meio ambiente, fonte de vida e saúde para todos que habitam o planeta Terra. 

Em 2021, muito especialmente, com a tragédia da Covid-19, o sinal amarelo que o meio ambiente dá para a humanidade se amplia. Temos, não apenas que conviver com a pandemia e sobreviver a ela, mas de forma, cada vez mais urgente, refletir sobre estes tempos terríveis. Não para resolver o presente, mas a construir um futuro sustentável.

No Novo Testamento da Bíblia cristã, há um texto belíssimo do apóstolo Paulo, um dos últimos que escreveu:

Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora. E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo. Porque, na esperança, fomos salvos. Ora, esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera? (Carta aos Romanos 8.22-24).

Paulo se refere à criação de Deus, a terra habitada, dizendo que, quando ela sofrem, também sofrem com ela todas as pessoas que a habitam. Naquele tempo, os cristão viviam sob a opressão e a exploração do Império Romano. Hoje, é o império do capital (e dos que dele se alimentam) que oprime e explora a criação.

Teólogas e teólogos têm alertado há muito tempo sobre os reclames da terra explorada. Os seres humanos, apesar de serem portadores de um chamado divino para cuidarem e guardarem o Éden, desprezaram e negligenciaram essa tarefa. Os homens se tornaram a própria ameaça da Terra, nossa Casa Comum, por meio da exploração abusiva dos seus recursos, do maltrato ao seres não-humanos e do descaso com os seus iguais. Consolidou-se a partir daí de um modelo de vida baseado na cobiça, na competição e no consumo sem medida, no lucro gerador de injustiça e ausência de paz.

 

Cientistas explicam que as pandemias estão conectadas a estas questões ecológicas. Epidemias virais sempre surgem na relação da sociedade humana com a vida selvagem, de uma dominação de humanos sobre animais. O coronavírus, portanto, está no centro das discussões sobre a vida, o presente e o futuro. 

Este clamor pela justiça, pela paz e pela integridade da Criação tem ecoado há décadas como uma preocupação que deveria estar nos primeiros lugares das prioridades das igrejas cristãs.  

Desde os anos 1960, o Conselho Mundial de Igrejas dialoga sobre o tema e criou, na década seguinte, o programa “Por uma Sociedade Justa, Participativa e Sustentável” com ênfase na participação e na sustentabilidade. O tema do cuidado com a Criação foi destacado na 6ª Assembleia do CMI (Canadá, 1983), quando foi estabelecido o “Processo Justiça, Paz e Integridade da Criação”, e a questão ambiental foi definitiva e integralmente incorporada à preocupação e às ações ecumênicas nos processos de desenvolvimento. 

Desde os seus primórdios no século 20, o movimento ecumênico, que atua pela ação conjunta das igrejas, já enfatizava em suas ações as noções de paz e justiça. Atravessando guerras mundiais e conflitos localizados, defrontando-se com buscas humanitárias intensas, o movimento ecumênico foi aprendendo que justiça e paz são elementos inseparáveis e deveriam estar na raiz de todo testemunho cristão neste mundo. Foi a partir dos anos 1970, com o conceito de comunidades sustentáveis, que ajudou a construir, que o CMI trouxe as noções inseparáveis de justiça e paz para a relação com o meio ambiente, atribuindo-lhe o conceito teológico da Criação.

A dimensão da justiça, paz e integridade da criação tornou-se espaço privilegiado nas ações do CMI. O organismo ecumênico reconhece que os impactos ambientais são históricos na trajetória da humanidade, mas a Casa Comum vive um momento mais grave do que nunca. Um novo e grande mal que afeta a Criação é a cultura global do consumo exacerbado, amplamente vivido e estimulado por e para países ricos e países pobres. A vida, na sua integralidade, vem sendo afetada por isto. O documento “AGAPE (Alternative Globalization Addressing Peoples and Earth [Globalização Alternativa Dirigida aos Povos e à Terra]) – Um chamado ao amor e à ação”, de 2005, já aprofundava este aspecto do contexto global.

A proclamação da Encíclica Laudato Si’ – “Sobre o cuidado da casa comum” –, do Papa Francisco, em junho de 2015, se coloca no contexto desta história da busca ecumênica pelo cuidado e a guarda da casa comum. Ela se coloca na forma de um eco que torna possível a amplificação das vozes e escritos produzidos ao longo das décadas anteriores. Várias afirmações da Encíclica Laudato Si’ estão em sintonia com estas perspectivas.

As palavras de Francisco são enfáticas quanto à perversidade do sistema que rege o mundo hoje. O capitalismo globalizado é reconhecido como um processo perverso para o meio ambiente, por meio de amplo caminho para a exploração e menos espaço para a solidariedade. As igrejas são chamadas a agir unidas para transformar a injustiça econômica.

O que estamos vivendo em 2021 é um forte sinal das ameaças intensas ao meio ambiente em várias frentes. A pandemia sinaliza isto, mas também  as ações destrutivas de governos: como o do Brasil, na figura do Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, que, nitidamente, atua pelos interesses de mineradoras, madeireiras, do agronegócio na destruição dos recursos e das vidas da Casa Comum em prol da exploração e do lucro.

Por isso, este precisa ser um tempo de oportunidade, de redenção e esperança, como escreve o apóstolo Paulo, no texto citado no início deste artigo. 

Oportunidade de se pensar um mundo ecológico e justo organizado em torno do cuidado, não centrado nos humanos, mas que busque a harmonia de todos os seres que habitam a mesma Terra, Casa Comum. 

Oportunidade de se retomar a dimensão da coletividade e do cuidado de uns com os outros, superando-se o individualismo e o egoísmo de uma sociedade centrada na competição e no lucro, muitas vezes propagados dentro das próprias igrejas, em gritante contradição. Por isso, é também oportunidade de elas se arrependerem disto e do silêncio e da omissão diante dos agentes da morte em franca atuação.

Se partirmos destes princípios básicos de coexistência, dá para ter esperança de que sobreviveremos para fazermos um outro mundo possível.

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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