CartaCapital
Zema, o herdeiro rico que não gosta de pobre
O que nove anos de entrevistas, gafes e propostas revelam sobre o candidato do Novo
Na cabeça de Romeu Zema (Novo), ex-governador de Minas Gerais e candidato à Presidência, existe um brasileiro malandro e preguiçoso, que gosta de ser pobre e vive pendurado em programas sociais enquanto assiste à Netflix em casa. Esse personagem, que vira e mexe o político põe em cena, reapareceu na longa entrevista que ele concedeu à GloboNews na semana passada.
De camisa polo laranja por dentro da calça, o mineiro de Araxá apresentou-se como o oposto da caricatura que inventou: o rico trabalhador, que empreende, luta contra um Estado cruel e opressor e quer privatizar o que vê pela frente.
Em seguida, descreveu seu brasileiro imaginário: um homem saudável, sem criança nem idoso para cuidar, que recebera uma, duas, três propostas de emprego e recusara todas. Segundo Zema, o personagem quer “ficar só vivendo de bico” e é beneficiado por um país que se acostumou a “dar tudo de graça, sem nenhuma contrapartida”.
“Comigo isso vai acabar”, disse. Foi mais uma de muitas falas que, desde a entrada de Zema na vida pública, revelam no herdeiro milionário uma aversão aos pobres. Agora candidato à Presidência, ele falará muito e o País inteiro vai acabar ouvindo. O blá-blá-blá liberal com pitadas de nonsense não ficará restrito às montanhas carcomidas pela mineração.
E, como mostrou a sabatina conduzida por Andréia Sadi e Natuza Nery, quanto mais Zema fala, mais revela o que pensa. Em quase nove anos, desde que decidiu disputar o governo de Minas, em 2018, vem enchendo um bestiário de absurdos.
Comparou os estados do Norte e do Nordeste a “vaquinhas que produzem pouco”; disse que a Constituição conspirava contra a classe política e que o País assegurava direitos demais e deveres de menos e defendeu que crianças trabalhassem.
Também previu que famílias pobres gastariam o auxílio emergencial no boteco, comparou moradores de rua a carros que deveriam ser guinchados e disse que os programas sociais criavam uma “geração de imprestáveis”.
Para dizer que Zema não gosta de pobre, não é preciso adivinhar seus sentimentos privados. Basta ouvir o que ele diz. Para ele, o pobre é sempre o culpado até prova em contrário. Salário baixo, transporte precário, cuidado dos filhos e falta de vagas desaparecem da análise. Sobra sempre alguém que escolheu não trabalhar.
Uma semana antes da sabatina na GloboNews, no Podcast 3 Irmãos, Zema já falara em “muita fraude”, “muito marmanjão” e vagas recusadas ao tratar de programas sociais. Contudo, ao explicar seu patrimônio declarado de 178,8 milhões de reais, Zema capricha na biografia e no contexto.
O candidato diz que precisou “ralar para ganhar” o próprio dinheiro, mas nem sempre conta que é bisneto do fundador de uma empresa aberta em 1923 e que voltou da faculdade, na Fundação Getulio Vargas, para o grupo da família. Ao se formar, não precisou procurar emprego.
No PrimoCast, contou que separava porcas e parafusos no comércio da família aos 6 ou 7 anos. Gosta de dizer que, quando assumiu, eram apenas quatro lojas e que ajudou a levá-las a mais de 400. Zema pode até ter ajudado a multiplicar um patrimônio familiar, mas está muito longe de ser um self-made man.
Em agosto de 2025, numa entrevista, comparou pessoas em situação de rua a carros parados em local proibido, que deveriam ser guinchados. Dez dias depois, no Roda Viva, chamou os locais onde viviam os sem-teto de “chiqueiros humanos”, reclamou do “cheiro horrível” e disse que os defensores de direitos humanos deveriam colocar na porta de casa uma placa convidando os sem-teto a acampar ali.
Neste ano, disse que o Bolsa Família formava uma “geração de inúteis” e propôs obrigar o beneficiário a trabalhar um ou dois dias por semana para a prefeitura, ajudando em creches, escolas municipais ou na limpeza urbana. Não haveria pagamento: seria a compensação pelo benefício.
Foi sofisticando, ou melhor, deixando mais tosco o argumento. Falou dos “marmanjões” com internet e Netflix que recusariam carteira assinada, prometeu cortar o auxílio após a segunda oferta de trabalho e voltou a falar da “geração de imprestáveis”, como se todo mundo tivesse as mesmas facilidades que ele.
A cantilena meritocrática e liberal foi repetida diante de empresários e recebida com aplausos. Teve ainda uma proposta de pagar 5 mil reais a quem deixasse o Bolsa Família depois de conseguir um emprego formal.
Para Zema, a pobreza precisa mais de disciplina e castigo do que de política pública. Fez uma ressalva: as exigências valeriam apenas para os homens. Ao justificar a diferença, disse que as mulheres tinham “outras atribuições” em casa, revelando um machismo estrutural.
Na GloboNews, confrontado com o vídeo, admitiu que havia generalizado e se desculpou. O recuo, porém, limitou-se ao preconceito que destinava às mulheres o trabalho doméstico. Zema não retirou o diagnóstico sobre os homens pobres nem a proposta de transformar o benefício em pagamento por serviço sem salário.
Uma análise da FGV, a mesma instituição em que Zema estudou, mostrou que 60,7% dos beneficiários de 2014 já haviam deixado o programa em 2025. O mundo real mostra que receber o benefício e trabalhar não são condições excludentes. Mas a evidência é mais complicada do que a fábula do marmanjo diante da Netflix.
O mesmo rigor cobrado de quem recebe o benefício estatal não se aplica à empresa da família. A Eletrozema, da qual Zema é acionista, recebeu 2,28 milhões de reais em créditos presumidos de ICMS em 2025. A informação só veio a público depois de uma longa queda de braço.
Em junho de 2025, o governo anunciou que divulgaria a lista das empresas beneficiadas por regimes especiais de tributação. No mês seguinte, recuou sob o argumento de que a publicidade poderia ameaçar a estabilidade econômica de Minas. A deputada estadual Lohanna França (PV) pediu as informações pela Lei de Acesso à Informação, recebeu duas negativas e foi à Justiça. A relação só foi divulgada em junho deste ano, três meses depois de Zema deixar o governo.
Outro discurso recorrente é o da austeridade, de não ter privilégios, de ter morado de aluguel em vez de ocupar a residência oficial e de não usar os voos do governo para fins particulares. Contudo, os registros mostram duas caronas dadas a seu filho, Domenico Zema, em 2019. O governo disse que os voos atendiam a agendas oficiais, não mudaram de rota e que Zema ressarciu ao Estado o equivalente às passagens comerciais.
A incoerência entre a severidade com os pobres e a indulgência com a própria história poderia ocupar o centro do debate. Mas Zema frequentemente a encobre com uma avalanche de gafes e provocações.
Algumas mostram sobretudo despreparo e desespero por atenção: em 2023, presenteado em Divinópolis com um livro de Adélia Prado, perguntou se ela trabalhava na rádio, revelando desconhecimento de uma das maiores escritoras de Minas Gerais; em 2020, ao ser questionado pela jornalista Monalisa Perrone se a ouvia, respondeu “ouvo muito bem”; e, em 2025, gravou um vídeo comendo uma banana com casca para ironizar a alta dos alimentos.
Outras são menos inocentes: na pandemia, defendeu deixar “o vírus viajar um pouco”; publicou uma frase atribuída ao ditador fascista Benito Mussolini; e tratou como “questão de interpretação” a existência da ditadura militar que fechou o Congresso, censurou, torturou, matou e fez desaparecer opositores.
A receita de absurdos com casca de banana não se converteu em votos. Nas pesquisas publicadas até agora, Zema aparece atrás de Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) e muito distante dos favoritos Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Em Minas, seu sucessor, Mateus Simões (PSD), também está atrás do pelotão da frente.
Ao ouvir Zema forçar a barra no sotaque mineiro antes de despejar uma dessas sentenças, sinto vergonha, como se nosso jeito de falar, algo tão caro a nós, mineiros, fosse usado para dar aparência de simplicidade a crueldades ditas para agradar uma elite que odeia pobre.
Ser rico não é uma falha moral, assim como ser pobre não é prova de virtude. O problema começa quando o herdeiro transforma a própria trajetória em mérito puro e a privação alheia em defeito de caráter.
O bestiário que cerca o cerne do preconceito distrai, rende memes e oferece ao candidato o papel cômodo do homem autêntico que tropeça nas palavras. Por baixo dele há algo nem um pouco engraçado: um projeto em que os vulneráveis precisam provar o tempo todo que merecem existir sem punição.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.
Leia também
A novela Cleitinho e o bê-á-bá para entender a confusão na eleição em Minas
Por Daniel Camargos
Resistência indígena arranca novo recuo no corredor da soja pelo Tapajós
Por Daniel Camargos
Depois de colecionar nãos, Lula escolhe Patrus como plano D em Minas
Por Daniel Camargos



