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Zema, o herdeiro rico que não gosta de pobre

O que nove anos de entrevistas, gafes e propostas revelam sobre o candidato do Novo

Zema, o herdeiro rico que não gosta de pobre
Zema, o herdeiro rico que não gosta de pobre
O candidato a presidente Romeu Zema (Novo), em 22 de agosto de 2025. Foto: Mauro Pimentel/AFP
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Na cabeça de Romeu Zema (Novo), ex-governador de Minas Gerais e candidato à Presidência, existe um brasileiro malandro e preguiçoso, que gosta de ser pobre e vive pendurado em programas sociais enquanto assiste à Netflix em casa. Esse personagem, que vira e mexe o político põe em cena, reapareceu na longa entrevista que ele concedeu à GloboNews na semana passada.

De camisa polo laranja por dentro da calça, o mineiro de Araxá apresentou-se como o oposto da caricatura que inventou: o rico trabalhador, que empreende, luta contra um Estado cruel e opressor e quer privatizar o que vê pela frente.

Em seguida, descreveu seu brasileiro imaginário: um homem saudável, sem criança nem idoso para cuidar, que recebera uma, duas, três propostas de emprego e recusara todas. Segundo Zema, o personagem quer “ficar só vivendo de bico” e é beneficiado por um país que se acostumou a “dar tudo de graça, sem nenhuma contrapartida”.

“Comigo isso vai acabar”, disse. Foi mais uma de muitas falas que, desde a entrada de Zema na vida pública, revelam no herdeiro milionário uma aversão aos pobres. Agora candidato à Presidência, ele falará muito e o País inteiro vai acabar ouvindo. O blá-blá-blá liberal com pitadas de nonsense não ficará restrito às montanhas carcomidas pela mineração.

E, como mostrou a sabatina conduzida por Andréia Sadi e Natuza Nery, quanto mais Zema fala, mais revela o que pensa. Em quase nove anos, desde que decidiu disputar o governo de Minas, em 2018, vem enchendo um bestiário de absurdos.

Comparou os estados do Norte e do Nordeste a “vaquinhas que produzem pouco”; disse que a Constituição conspirava contra a classe política e que o País assegurava direitos demais e deveres de menos e defendeu que crianças trabalhassem.

Também previu que famílias pobres gastariam o auxílio emergencial no boteco, comparou moradores de rua a carros que deveriam ser guinchados e disse que os programas sociais criavam uma “geração de imprestáveis”.

Para dizer que Zema não gosta de pobre, não é preciso adivinhar seus sentimentos privados. Basta ouvir o que ele diz. Para ele, o pobre é sempre o culpado até prova em contrário. Salário baixo, transporte precário, cuidado dos filhos e falta de vagas desaparecem da análise. Sobra sempre alguém que escolheu não trabalhar.

Uma semana antes da sabatina na GloboNews, no Podcast 3 Irmãos, Zema já falara em “muita fraude”, “muito marmanjão” e vagas recusadas ao tratar de programas sociais. Contudo, ao explicar seu patrimônio declarado de 178,8 milhões de reais, Zema capricha na biografia e no contexto.

O candidato diz que precisou “ralar para ganhar” o próprio dinheiro, mas nem sempre conta que é bisneto do fundador de uma empresa aberta em 1923 e que voltou da faculdade, na Fundação Getulio Vargas, para o grupo da família. Ao se formar, não precisou procurar emprego.

No PrimoCast, contou que separava porcas e parafusos no comércio da família aos 6 ou 7 anos. Gosta de dizer que, quando assumiu, eram apenas quatro lojas e que ajudou a levá-las a mais de 400. Zema pode até ter ajudado a multiplicar um patrimônio familiar, mas está muito longe de ser um self-made man.

Em agosto de 2025, numa entrevista, comparou pessoas em situação de rua a carros parados em local proibido, que deveriam ser guinchados. Dez dias depois, no Roda Viva, chamou os locais onde viviam os sem-teto de “chiqueiros humanos”, reclamou do “cheiro horrível” e disse que os defensores de direitos humanos deveriam colocar na porta de casa uma placa convidando os sem-teto a acampar ali.

Neste ano, disse que o Bolsa Família formava uma “geração de inúteis” e propôs obrigar o beneficiário a trabalhar um ou dois dias por semana para a prefeitura, ajudando em creches, escolas municipais ou na limpeza urbana. Não haveria pagamento: seria a compensação pelo benefício.

Foi sofisticando, ou melhor, deixando mais tosco o argumento. Falou dos “marmanjões” com internet e Netflix que recusariam carteira assinada, prometeu cortar o auxílio após a segunda oferta de trabalho e voltou a falar da “geração de imprestáveis”, como se todo mundo tivesse as mesmas facilidades que ele.

A cantilena meritocrática e liberal foi repetida diante de empresários e recebida com aplausos. Teve ainda uma proposta de pagar 5 mil reais a quem deixasse o Bolsa Família depois de conseguir um emprego formal.

Para Zema, a pobreza precisa mais de disciplina e castigo do que de política pública. Fez uma ressalva: as exigências valeriam apenas para os homens. Ao justificar a diferença, disse que as mulheres tinham “outras atribuições” em casa, revelando um machismo estrutural.

Na GloboNews, confrontado com o vídeo, admitiu que havia generalizado e se desculpou. O recuo, porém, limitou-se ao preconceito que destinava às mulheres o trabalho doméstico. Zema não retirou o diagnóstico sobre os homens pobres nem a proposta de transformar o benefício em pagamento por serviço sem salário.

Uma análise da FGV, a mesma instituição em que Zema estudou, mostrou que 60,7% dos beneficiários de 2014 já haviam deixado o programa em 2025. O mundo real mostra que receber o benefício e trabalhar não são condições excludentes. Mas a evidência é mais complicada do que a fábula do marmanjo diante da Netflix.

O mesmo rigor cobrado de quem recebe o benefício estatal não se aplica à empresa da família. A Eletrozema, da qual Zema é acionista, recebeu 2,28 milhões de reais em créditos presumidos de ICMS em 2025. A informação só veio a público depois de uma longa queda de braço.

Em junho de 2025, o governo anunciou que divulgaria a lista das empresas beneficiadas por regimes especiais de tributação. No mês seguinte, recuou sob o argumento de que a publicidade poderia ameaçar a estabilidade econômica de Minas. A deputada estadual Lohanna França (PV) pediu as informações pela Lei de Acesso à Informação, recebeu duas negativas e foi à Justiça. A relação só foi divulgada em junho deste ano, três meses depois de Zema deixar o governo.

Outro discurso recorrente é o da austeridade, de não ter privilégios, de ter morado de aluguel em vez de ocupar a residência oficial e de não usar os voos do governo para fins particulares. Contudo, os registros mostram duas caronas dadas a seu filho, Domenico Zema, em 2019. O governo disse que os voos atendiam a agendas oficiais, não mudaram de rota e que Zema ressarciu ao Estado o equivalente às passagens comerciais.

A incoerência entre a severidade com os pobres e a indulgência com a própria história poderia ocupar o centro do debate. Mas Zema frequentemente a encobre com uma avalanche de gafes e provocações.

Algumas mostram sobretudo despreparo e desespero por atenção: em 2023, presenteado em Divinópolis com um livro de Adélia Prado, perguntou se ela trabalhava na rádio, revelando desconhecimento de uma das maiores escritoras de Minas Gerais; em 2020, ao ser questionado pela jornalista Monalisa Perrone se a ouvia, respondeu “ouvo muito bem”; e, em 2025, gravou um vídeo comendo uma banana com casca para ironizar a alta dos alimentos.

Outras são menos inocentes: na pandemia, defendeu deixar “o vírus viajar um pouco”; publicou uma frase atribuída ao ditador fascista Benito Mussolini; e tratou como “questão de interpretação” a existência da ditadura militar que fechou o Congresso, censurou, torturou, matou e fez desaparecer opositores.

A receita de absurdos com casca de banana não se converteu em votos. Nas pesquisas publicadas até agora, Zema aparece atrás de Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) e muito distante dos favoritos Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Em Minas, seu sucessor, Mateus Simões (PSD), também está atrás do pelotão da frente.

Ao ouvir Zema forçar a barra no sotaque mineiro antes de despejar uma dessas sentenças, sinto vergonha, como se nosso jeito de falar, algo tão caro a nós, mineiros, fosse usado para dar aparência de simplicidade a crueldades ditas para agradar uma elite que odeia pobre.

Ser rico não é uma falha moral, assim como ser pobre não é prova de virtude. O problema começa quando o herdeiro transforma a própria trajetória em mérito puro e a privação alheia em defeito de caráter.

O bestiário que cerca o cerne do preconceito distrai, rende memes e oferece ao candidato o papel cômodo do homem autêntico que tropeça nas palavras. Por baixo dele há algo nem um pouco engraçado: um projeto em que os vulneráveis precisam provar o tempo todo que merecem existir sem punição.

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