Daniel Camargos
Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.
Daniel Camargos
‘Foi o Osmarzinho’: a história do jingle que Lula usou contra Flávio Bolsonaro
Uma nota fiscal, versões contraditórias e decisões judiciais cercam o mistério sobre a autoria da música que tocou nos carros de som do interior do Piauí e chegou ao horário eleitoral
Um jingle criado para tentar derrotar um candidato do PT em uma cidade de pouco mais de seis mil habitantes acabou, dez anos depois, na propaganda de Lula (PT) contra Flávio Bolsonaro (PL). A música viralizou, mas o autor continua desconhecido. Nas contas da única campanha adversária, há 500 reais pagos pela produção de jingles, mas quem recebeu nega ter feito justamente esse.
A letra de 2026 é nova, mas a base musical e a fórmula vêm da peça feita contra Osmar de Sousa Vieira, o Osmarzinho, candidato do PT à prefeitura de Cocal dos Alves em 2016. Em 23 de agosto, o jornalista George Marques publicou o áudio no X. A gravação passou por perfis de humor, chegou às páginas de influenciadores e virou resposta para culpas domésticas, vexames e pequenas trapaças. Ou seja, virou meme.
Dois dias depois, o perfil Lulaverso publicou a adaptação contra Flávio em colaboração com Camila Moreno, secretária nacional adjunta de Comunicação do PT. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), também divulgou a música. Na sexta-feira, 28, primeiro dia do horário eleitoral, a campanha de Lula usou a versão em uma de suas três inserções de 30 segundos no rádio.
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A peça pergunta quem teria pedido 61 milhões de reais a Daniel Vorcaro para produzir um filme sobre Jair Bolsonaro. O coro responde: “Foi o Flávio Bolsonaro”. Depois, repete a fórmula com outras acusações contra o senador e seus parentes. O ataque feito contra um petista do interior do Piauí agora serve ao principal petista do País.
Não confunda Cocal dos Alves com Cocal. O primeiro município foi desmembrado do segundo por lei estadual e instalado em 1997. Cada um tem prefeitura, Câmara e disputa política próprias. Cocal dos Alves tem pouco mais de seis mil moradores; Cocal, 28 mil.
A família de Osmarzinho construiu poder nos dois municípios. O pai de Osmar, Valdemar Cardoso Vieira, era agricultor, mantinha um armazém de castanhas e ficou conhecido como Valdemarzinho. Teve com Duçulina Florença de Sousa uma família numerosa. Rubens Vieira, irmão de Osmar e décimo filho do casal, é deputado estadual pelo PT e candidato à reeleição.
Rubens foi vereador e prefeito de Cocal antes de se eleger deputado estadual, em 2022. Osmar elegeu-se vereador de Cocal dos Alves pelo PSDB em 2012. Quatro anos depois, já no PT, derrotou Ivan de Almeida Brito, do PDT, por apenas 151 votos. Reelegeu-se em 2020, com 59%. Em 2024, o sobrinho Wodson Vieira, também petista, venceu a sucessão com 70%.
Embora repita o apelido de Osmar, a letra distribui acusações por sua família. Menciona o pai, um tio, um irmão, um sobrinho e outros parentes. Fala em 19 milhões de reais desviados da Educação, processos, um fazendeiro morto, um acidente de trânsito com morte no povoado de Pitombeiras, uma suposta fuga da Polícia Federal, dívida com um tio e obras que não teriam sido feitas.
O áudio não prova nenhuma dessas acusações. À coluna, o advogado de Osmar, Ivan Lopes de Araújo Filho, afirmou que o ex-prefeito não responde a processos pelas acusações mencionadas no jingle e não sofreu condenações. Segundo ele, certidões negativas foram juntadas à ação que pediu a retirada da música das plataformas.
O advogado atribuiu a criação do jingle ao grupo político derrotado por Osmar em 2016 e disse que o mesmo grupo alugou os carros de som que divulgaram a gravação. Afirmou ainda que a Justiça Eleitoral reconheceu um ilícito, proibiu a veiculação e determinou uma retratação.
Conversei com Godofredo Brito, comunicador local e adversário da família Vieira. Ele contou que a música circulou em carros de som e CDs. Segundo Godofredo, o jingle foi uma reação a insinuações de Osmar sobre supostos vínculos de Ivan com milicianos no Rio de Janeiro.
Procurado, Ivan, o candidato derrotado por Osmarzinho, disse que não poderia dar declaração por afirmar ter sido notificado pela Justiça e temer represálias. Ainda assim, escreveu que “tudo que está no jingle era realidade”. Ivan não ocupa cargo eletivo e disse não pretender disputar outra eleição.
As contas de Ivan no Tribunal Superior Eleitoral ajudam a reconstruir a campanha. Foram declarados 33,4 mil reais em despesas. Um reboque com paredão de som, avaliado em 3,4 mil reais, entrou na prestação em 21 de agosto de 2016. No dia anterior, foram registrados 500 pagos reais a Marcifran Costa Sousa pela “produção de jingles, vinhetas e slogans”.
Marcifran também recebeu 5 mil reais por palco e som em dois comícios. É o único fornecedor com despesa classificada nas contas de Ivan como produção de jingles. Confirmou que trabalhou para o candidato, disse não se lembrar de ter composto ou gravado o ataque. “Tu é doido, homem? Faço isso não”, respondeu depois que enviei o link da música.
A nota fiscal apresentada ao TSE fala em jingles no plural, mas não informa títulos, letras ou intérpretes. Procurado novamente para identificar o que entregou à campanha, disse que precisaria buscar nos arquivos de seu estúdio, mas não retornou até o fechamento.
Godofredo, que apoiou Ivan em 2016, levantou a possibilidade de a gravação ter sido feita no Maranhão e de a melodia adaptar uma música anterior. Depois recuou: “Na verdade, eu não posso afirmar quem foi”. Não indicou compositor, cantor, estúdio ou testemunha.
Na última segunda-feira 24, a juíza Elvanice Pereira de Sousa Frota Gomes, da 4ª Vara Cível de Teresina, determinou que a Meta, dona do Instagram, e a ByteDance, controladora do TikTok, retirassem as publicações indicadas pela defesa de Osmar. Fixou prazo de 24 horas e multa diária de 5 mil reais. O processo corre em segredo de Justiça. A liminar chegou depois que o áudio já havia sido copiado por perfis com milhões de seguidores. Quatro dias depois, a melodia estava no horário eleitoral de Lula.
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