Daniel Camargos
Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.
Daniel Camargos
Em Minas, Lula corteja os herdeiros dos seus adversários
A indefinição expõe quase duas décadas de esvaziamento do PT mineiro, que hoje não consegue produzir um nome para a disputa
Quando o presidente Lula (PT) desembarcou em Minas Gerais na semana passada, trazia uma agenda carregada de entregas na área da saúde. Horas depois, voltou a Brasília sem resolver uma pendência fundamental para sua tentativa de reeleição: quem vai disputar o governo mineiro pelo campo lulista.
Nenhum dos três nomes mais cotados nos bastidores para encabeçar a chapa esteve ao lado de Lula durante a viagem. Marília Campos (PT), ex-prefeita de Contagem e hoje pré-candidata ao Senado, evitou a agenda. Gabriel Azevedo (MDB), ex-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte e pré-candidato ao governo, também não apareceu. Jarbas Soares Júnior (PSB), ex-procurador-geral de Justiça de Minas Gerais, muito menos.
Lula discursou sobre a mãe analfabeta, sobre o ProUni e sobre a fome que conheceu em Pernambuco antes de chegar à Presidência pela terceira vez. A multidão aplaudiu, mas a cena que os petistas mineiros esperavam, o presidente ao lado de um candidato batizado para outubro, simplesmente não aconteceu.
O impasse nasceu de uma aposta que ruiu, como escrevi nesta CartaCapital em maio. Lula apostou quase um ano inteiro em Rodrigo Pacheco (PSB), ex-presidente do Senado. O PT mineiro suspendeu o próprio debate interno à espera de uma definição. Depois de meses de especulação e de sucessivas negativas públicas, em meio a relatos de frustração por não ter sido indicado ao Supremo Tribunal Federal, Pacheco anunciou que deixaria a vida pública, e o partido descobriu que havia gastado tempo demais esperando uma resposta que não viria.
A partir daí começou uma corrida por alternativas. Veio Josué Gomes da Silva (PSB), empresário e ex-presidente da Fiesp, filho do ex-vice-presidente José Alencar, mas cuja própria empresa, a Coteminas, está em recuperação judicial.
Voltou Alexandre Kalil (PDT), ex-prefeito de Belo Horizonte, apoiado pelo PT em 2022 e derrotado no primeiro turno por Romeu Zema (Novo), deixando entre os petistas mais antipatia do que votos.
Tiraram da cartola até o nome de Sandra Goulart, ex-reitora da UFMG, testada em pesquisa interna ao lado da própria Marília e dos deputados federais Reginaldo Lopes (PT) e Rogério Correia (PT). Nenhum desses nomes prosperou, mesmo depois de o diretório estadual aprovar resolução defendendo candidatura própria; o partido segue olhando para fora dos seus próprios quadros e para perto de antigos adversários.
Entre os quadros do próprio PT, Marília Campos continua sendo a alternativa mais competitiva e, ao mesmo tempo, a menos disposta a assumir a candidatura. A preferência dela pelo Senado não é um capricho de última hora: deixou a prefeitura de Contagem, foi sob compromisso explícito de concorrer ao Senado, com aval da direção estadual do PT.
Pesquisas internas a testam tanto para o governo quanto para o Senado, e a mostram forte nos dois cenários, mas só no Senado ela evita o desgaste de uma corrida contra um adversário disparado na frente. No caso, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos).
A ausência de Marília nas agendas de Lula em Belo Horizonte e Divinópolis na semana aparenta ter sido uma estratégia para evitar a pressão direta do presidente e de aliados que ainda tentam convencê-la a mudar de rota. Depois da viagem, sua equipe intensificou ações para reforçar a imagem de pré-candidata ao Senado e encerrar de vez as especulações sobre o governo.
Não é exagero dizer que parte dessa resistência reflete o aprendizado de quem já viu esse filme antes: aceitar ser a aposta de última hora, depois de Pacheco e de uma fila de nomes de fora, tem gosto de plano C.
Há duas décadas, o problema do PT mineiro era escolher entre quadros demais: Patrus Ananias, Fernando Pimentel, Luiz Dulci e Nilmário Miranda, todos ministros em governos petistas, disputavam espaço dentro do próprio partido. Hoje a discussão interna gira em torno de quem aceitará representar a legenda.
A queda remonta a 2008, quando Pimentel, então prefeito de Belo Horizonte, articulou com o governador Aécio Neves (PSDB) a eleição de Marcio Lacerda (PSB) para sucedê-lo na capital. A aliança garantiu a vitória e a reeleição de Lacerda, mas deixou entre os petistas locais a sensação de que aquele acordo esterilizou o solo do próprio partido.
As últimas três candidaturas do PT à prefeitura de Belo Horizonte somaram votações de 7,27% com Reginaldo Lopes em 2016, 1,88% com Nilmário Miranda em 2020 e 4,37% com Rogério Correia em 2024, sem que nenhuma terminasse melhor que a quarta colocação. O vácuo na capital nunca foi preenchido por um nome competitivo do próprio partido. Nesse cenário, Lula passou a testar dois nomes que, até pouco tempo atrás, seriam impensáveis num palanque petista.
Gabriel Azevedo começou a vida pública aos 19 anos no PSDB, onde ajudou a fundar a Turma do Chapéu, grupo de jovens tucanos que fez campanha para Aécio Neves e Antonio Anastasia (PSDB). Depois de deixar o ninho tucano, ele se aproximou de Kalil no Atlético Mineiro e coordenou sua campanha à prefeitura de Belo Horizonte, enquanto disputava uma vaga de vereador pelo mesmo partido. A aliança não durou um ano: os dois romperam ainda em 2016, e Gabriel se tornou um dos principais algozes políticos do ex-prefeito na Câmara.
Hoje, pré-candidato pelo MDB, soma conversas com o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), com dirigentes petistas e com o ex-ministro Walfrido dos Mares Guia. Gabriel foi recebido pelo empresário amigo de Lula por seis horas, em sua fazenda em Ouro Preto, quando o anfitrião ligou para o presidente e para Edinho Silva, que comanda o PT.
Que esse processo dependa tanto da mediação pessoal de um veterano sem mandato e sem partido diz mais sobre o esvaziamento das estruturas partidárias mineiras do que qualquer pesquisa de intenção de voto.
A hesitação interna em relação a Gabriel não é só ideológica. Auxiliares de Lula temem que, mesmo sem vencer, uma boa votação com apoio do PT o transforme num adversário natural para a prefeitura de Belo Horizonte em 2028 ou para o próprio governo em 2030.
Jarbas Soares Júnior segue caminho ainda mais revelador. Foi procurador-geral de Justiça de Minas Gerais por quatro mandatos, dois deles indicado pelo então governador Aécio Neves e outros dois pelo governador Romeu Zema, os dois políticos que mais encarnaram o antipetismo mineiro nas últimas duas décadas. Jarbas deixou o Ministério Público em abril para entrar na política e tenta transformar o capital institucional acumulado ao longo de décadas numa candidatura competitiva ao governo.
Que parte do PT mineiro cogite, com seriedade, apoiar um nome construído sob a sombra de seus dois maiores adversários estaduais diz mais sobre o esgotamento do próprio partido do que sobre qualquer mérito específico de Jarbas. Diferentemente de Gabriel, que construiu carreira em sucessivas eleições, Jarbas nunca disputou um cargo.
O pano de fundo eleitoral também não ajuda Lula. Cleitinho, senador, lidera isolado todas as pesquisas divulgadas neste ano, mas ainda não decidiu se disputa o governo ou se aceita compor, como vice, a chapa presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), senador e pré-candidato à Presidência, hipótese já ventilada nos bastidores.
Mateus Simões (PSD), governador de Minas, assumiu o cargo após a renúncia de Zema para a corrida presidencial e segue sem conseguir converter a máquina estadual em popularidade própria, pois carrega com ele um carisma quase negativo.
Na cúpula do G7, na França, Lula disse à diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, que nunca foi esquerdista. Fato. Lula sempre construiu poder por meio de alianças pragmáticas e heterodoxas, recrutando onde encontrava força, não onde encontrava identidade. Foi assim que venceu pela primeira vez em 2002, levando para vice José Alencar, pai do mesmo Josué Gomes que hoje aparece na lista de nomes testados para o governo de Minas.
Em Minas, o mesmo pragmatismo produziu um resultado inédito. Depois de apostar sucessivamente em Pacheco, Josué Gomes, Kalil, Sandra Goulart e agora em dois nomes formados na casa de seus próprios adversários históricos, o presidente está sem candidato no segundo maior colégio eleitoral do País. Em Divinópolis, Lula inaugurou um hospital que levou quase dezessete anos para sair do papel; mas há uma obra ainda mais difícil de concluir: um palanque.
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