Economia
No G7, Lula manda recado a Trump sobre protecionismo, crime organizado e ajuda ao desenvolvimento
O Brasil, ao lado de Coreia do Sul, Índia, Quênia e Egito, participa do segundo dia da cúpula, em Évian, na França
Em uma reunião com os líderes dos países do G7 (Estados Unidos, França, Alemanha, Reino Unido, Itália, Japão e Canadá), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso marcado por recados ao presidente Donald Trump. O líder brasileiro defendeu o combate ao crime organizado, com “respeito à soberania dos Estados”, e criticou o protecionismo e a queda da ajuda internacional ao desenvolvimento.
O Brasil, ao lado de Coreia do Sul, Índia, Quênia e Egito, participa do segundo dia da cúpula do G7, sediada na cidade francesa de Évian. No painel desta tarde, sobre “novas parcerias e a reconstrução da solidariedade internacional”, Lula lembrou que esta é a décima vez que ele é convidado a fazer parte dos debates do grupo de países industrializados.
“Em todas elas nos defrontamos com crises e desafios que afetam milhões de pessoas ao redor do mundo. Mas em nenhuma conseguimos construir respostas coletivas e duradouras”, salientou. “O neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e a crise política que hoje assolam as democracias. Agora, o protecionismo e o unilateralismo ressurgem como respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas.”
Esta foi a primeira oportunidade de encontro de Lula com o presidente dos Estados Unidos desde a visita realizada à Casa Branca, em maio, e após o anúncio de que o governo americano poderá aplicar mais uma rodada de tarifas contra produtos brasileiros. Os dois líderes estão desde segunda-feira no Hotel Royal, onde ocorre a cúpula, mas não há previsão de uma reunião bilateral entre ambos.
Há duas semanas, o Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) recomendou a adoção de uma nova rodada de tarifas, de até 25%, contra uma série de produtos brasileiros, com o argumento de que o Brasil adota práticas desleais de comércio. Negociações bilaterais estão em curso entre os dois países e deverão ser concluídas até 15 de julho.
Respeito à soberania
Em outro tópico de tensão entre os dois países, Lula evocou em seu discurso o combate ao crime organizado, que, segundo ele, deve fazer parte da agenda de desenvolvimento. “Esse esforço deve levar em conta do respeito à soberania dos Estados”, frisou o presidente brasileiro.
“A Declaração de Líderes do G7 sobre o Combate ao Tráfico de Drogas é um passo positivo. Mas o enfrentamento ao narcotráfico não pode ser dissociado de outros ilícitos como a lavagem de dinheiro e o tráfico de armas”, afirmou. “Valorizar o diálogo e a cooperação institucional, inclusive por meio da Interpol, contribuirá para a localização de ativos e indivíduos vinculados a essas atividades criminosas.”
Em maio, Donald Trump classificou as facções Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas. A medida pode facilitar o caminho para intervenções americanas no Brasil, a exemplo dos bombardeios realizados contra embarcações na costa colombiana e venezuelana, em nome da luta contra o tráfico.
Ajuda ao desenvolvimento
Na reunião do G7 ampliado, Lula também salientou a queda “histórica” de 23% na Ajuda Oficial ao Desenvolvimento, a exemplo da perda de 40% do financiamento do Programa Mundial de Alimentos, desde que Trump decidiu cortar o apoio às instituições da ONU e outras. “Elas impactam diretamente o cotidiano dos habitantes de países em desenvolvimento. São milhões de pessoas sem acesso à alimentação adequada, crianças sem frequentar a escola, mulheres privadas de proteção e comunidades vulneráveis diante de doenças que podem ser prevenidas”, alegou.
O presidente criticou, ainda, o alto custo do endividamento para os países em desenvolvimento, que gastam 1,4 trilhão de dólares para quitar suas dívidas, e recebem sete vezes menos em ajuda ao desenvolvimento dos países ricos. “Precisamos de um sistema financeiro no qual os países não sejam obrigados a escolher entre pagar credores e alimentar suas crianças”, disse.
Oito declarações conjuntas estão sendo preparadas na cúpula. Como país convidado, o Brasil não tem poder de influenciar as decisões e pode decidir acatar ou não os comunicados finais do G7.
Dos três textos divulgados até o momento pela presidência francesa do evento, o governo brasileiro apoiou apenas um, sobre o combate ao câncer. Os outros dois, a respeito de parcerias internacionais e combate ao ebola, não foram endossados porque, na visão de Brasília, não acomodam a posição da diplomacia brasileira.
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