Daniel Camargos
Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.
Daniel Camargos
Depois de colecionar nãos, Lula escolhe Patrus como plano D em Minas
Preterido no auge da carreira, o deputado assume aos 74 anos uma missão que o partido demorou duas décadas para lhe entregar
O deputado federal Patrus Ananias (PT-MG) não foi a primeira escolha do presidente Lula (PT) para o governo de Minas Gerais. Também não foi a segunda ou a terceira. Sua pré-candidatura surgiu depois que o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) refugou, a ex-prefeita de Contagem Marília Campos (PT) recusou o convite e o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT) disse não, além do fracasso das conversas com outros partidos. Chamar Patrus de plano D é até uma gentileza.
Antes de ser a opção tardia do PT, Patrus foi prefeito de Belo Horizonte, ministro de Lula, professor e advogado de movimentos populares. Fala sem pressa, com uma oratória que mistura sala de aula e reunião de bairro, e costuma ouvir o interlocutor antes de responder. No dedo da mão esquerda, usa um anel de tucum, símbolo adotado por setores católicos ligados à Teologia da Libertação como símbolo de compromisso com os pobres, os povos indígenas e as lutas populares.
Patrus participou de pastorais sociais e diz que sua formação política tem em Jesus uma referência fundamental. No vídeo de apresentação da pré-candidatura, divulgado nesta segunda-feira, 20, destacou sua formação cristã. Aos 74 anos, pertence a uma geração anterior às alianças que mudaram o PT mineiro para pior neste século.
Essa preocupação com os pobres apareceu na Prefeitura de Belo Horizonte entre 1993 e 1996, quando ele se tornou o primeiro petista a governar a capital. Criou o Orçamento Participativo, levou moradores das periferias às decisões sobre obras e reabriu o Restaurante Popular em 1994. A segurança alimentar ganhou uma estrutura permanente, experiência que mais tarde o projetaria nacionalmente.
Em 1998, Patrus disputou o governo de Minas e terminou em terceiro, atrás do ex-presidente Itamar Franco (PMDB) e do então governador Eduardo Azeredo (PSDB). Quatro anos depois, foi o deputado federal mais votado do estado, com 520.046 votos. O recorde mineiro para a Câmara durou duas décadas, até ser superado, em 2022, pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que teve quase 1,5 milhão de votos.
Em janeiro de 2004, assumiu o recém-criado Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, comandou a implantação do Bolsa Família e levou a Brasília parte da experiência de Belo Horizonte. Foi durante essa ascensão que Patrus perdeu espaço nas decisões do próprio partido.
Em 2008, o então prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel (PT) se aliou ao então governador Aécio Neves (PSDB) para lançar o empresário Márcio Lacerda (PSB) como sucessor na prefeitura. O nome natural do PT era o então vice-prefeito Roberto Carvalho (PT), e Patrus resistiu à composição ao lado do ex-secretário nacional de Direitos Humanos Nilmário Miranda (PT) e do então ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência Luiz Dulci (PT). Lula aprovou o acordo, e Patrus aceitou a decisão partidária sem participar da campanha nem do governo.
Dois anos depois, Patrus deixou o ministério para tentar disputar o governo de Minas. Nas prévias do PT, perdeu para Pimentel. A campanha presidencial da então ministra Dilma Rousseff (PT) entregou a cabeça de chapa ao senador e ex-ministro Hélio Costa (PMDB), lançou Pimentel ao Senado e acomodou Patrus na vice. A chapa Hélio Costa–Patrus perdeu no primeiro turno para o então governador Antônio Anastasia (PSDB), sucessor de Aécio.
Patrus deixava uma das áreas mais conhecidas do governo Lula e ainda carregava o peso da votação recorde de 2002. Mesmo assim, o PT não lhe entregou a candidatura ao governo. A comparação com o presente revela como o partido administrou seu maior patrimônio político em Minas.
Em 2012, PT e PSB romperam perto do prazo eleitoral, quando já discutiam a reeleição de Lacerda com um vice petista. Patrus foi chamado para enfrentar o prefeito que seu partido ajudara a eleger quatro anos antes e, mais uma vez, aceitou a missão. Perdeu no primeiro turno para Lacerda. O PT recorria a Patrus para enfrentar o resultado de uma aliança que a corrente de Pimentel havia construído contra a resistência de seu grupo.
O plano inicial de Lula para outubro era Pacheco, recém-filiado ao PSB depois de construir a carreira no campo conservador. O senador reunia o centro (e um bocado da direita) e oferecia um palanque menos identificado com o PT, mas anunciou que encerrará a carreira ao fim do mandato. Lula passou então a pressionar Marília, que deixou a Prefeitura de Contagem para concorrer ao Senado e lidera as pesquisas para uma das vagas.
Marília não cedeu. Em nota divulgada em 25 de junho, classificou uma candidatura própria do PT como “equívoco estratégico” e defendeu um acordo mais amplo. Depois, compareceu ao anúncio de Patrus, declarou apoio e elogiou sua experiência. A mudança de tom não apagou o diagnóstico que ela havia feito menos de um mês antes.
Kalil também descartou repetir a aliança de 2022. O empresário Josué Gomes (PSB), ex-presidente da Fiesp e filho do ex-vice-presidente José Alencar, morto em 2011, foi procurado, mas não entrou na disputa.
Também foram discutidos a ex-reitora da UFMG Sandra Goulart Almeida (PT), o ex-vereador Gabriel Azevedo (MDB) e o ex-procurador-geral de Justiça Jarbas Soares (PSB). O PT chegou a Patrus depois de testar candidatos de fora do partido e herdeiros de adversários históricos.
Há um argumento a favor da escolha. Patrus liga sua biografia a uma política federal conhecida por milhões de famílias e não foi o formulador das alianças que desgastaram o PT mineiro. Também oferece a Lula um palanque sem o constrangimento de esconder o vermelho. O problema é que esse patrimônio foi construído há duas décadas, e as urnas registram desde então outra trajetória.
Depois dos 520 mil votos de 2002, a votação de Patrus encolheu em todas as eleições seguintes para deputado federal: foram 147 mil votos em 2014, 112 mil em 2018 e 87 mil em 2022. A queda entre a primeira e a última dessas quatro campanhas para a Câmara foi de 83,1%, e sua posição no estado passou do primeiro para o 30º lugar.
Comparar eleições proporcionais com disputas majoritárias seria impreciso, mas a série do mesmo cargo permite medir a perda de força eleitoral. Patrus ainda dispõe de biografia, identidade e reconhecimento; já não dispõe da votação pessoal que o PT desperdiçou quando ele estava no auge.
Patrus entra em uma eleição na qual dois adversários despontam. O senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) apareceu na frente da maioria das pesquisas já realizadas, seguido por Kalil. O governador Mateus Simões (PSD-MG), que assumiu o cargo em 22 de março após a renúncia do ex-governador Romeu Zema (Novo) para disputar a Presidência, ainda não engrenou, mas dispõe da estrutura estadual. Os levantamentos não incluíam Patrus, cuja candidatura ainda não havia sido anunciada.
A chapa petista também está incompleta. O PT negocia a vice com o PSB, partido no qual são mencionados Josué, Jarbas e o ex-senador e ex-vice-governador Clésio Andrade, enquanto parte dos socialistas resiste. A federação Rede-PSOL pretende indicar a ex-deputada federal Áurea Carolina (PSOL-MG) para a segunda vaga ao Senado. Uma ala do PV preferia apoiar Gabriel Azevedo para o governo, mas a federação obriga os verdes a caminharem com PT e PCdoB.
Patrus aceitou uma candidatura que o PT demorou para organizar. Quando estava no auge eleitoral e deixava o ministério, terminou na vice de Hélio Costa; agora, com bem menos votos na eleição mais recente, recebe a cabeça de chapa e a tarefa de construir em poucos meses um palanque para Lula.
Pode cumprir essa missão com a disciplina de quem nunca abandonou o partido, mesmo quando o partido o empurrou para o lado. Se o projeto fracassar, a conta não poderá ser apresentada ao último nome chamado, mas a quem passou meses procurando outros.
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