Daniel Camargos

Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.

Daniel Camargos

Como El Niño pode mexer com a eleição presidencial no Brasil

O País sabe, com meses de antecedência, que o fenômeno vai marcar a campanha e pesar no bolso do eleitor e na Amazônia, que pode arder outra vez 

Como El Niño pode mexer com a eleição presidencial no Brasil
Como El Niño pode mexer com a eleição presidencial no Brasil
O chefe dos serviços de previsão climática da Organização Meteorológica Mundial, Wilfran Moufouma-Okia, em 1º de junho de 2026. Foto Fabrice Coffrini/AFP
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Eleições 2026

El Niño vem aí e, além de secar os rios, encarecer a comida e favorecer as queimadas, pode afetar as eleições de outubro e expor um paradoxo: o dinheiro que financia o desmatamento está ateando fogo no próprio negócio. É a primeira vez, desde a redemocratização, que o governo brasileiro chega a uma eleição presidencial com tantos alertas oficiais, boletins técnicos e medidas preparatórias diante de um fenômeno potencialmente forte.

Contudo, não basta a política. Se os donos do dinheiro não tomarem juízo, não vai adiantar muito estocar alimento, equipar brigadas contra incêndio e dar auxílio a pescadores. Por isso, movimentos sociais e organizações ambientais do Brasil, da Malásia e da Indonésia preparam uma carta a dezenas de bancos cobrando que parem de financiar empresas ligadas a commodities associadas ao desmatamento, à degradação florestal e ao uso ilegal do fogo.

O documento, articulado pela Agro é Fogo em parceria com a coalizão Forests & Finance, afirma que El Niño encontrará florestas mais secas e cadeias produtivas de gado, soja, madeira, óleo de palma, papel e celulose operando em territórios já vulneráveis. Entre 2016 e 2025, segundo levantamento das organizações autoras da carta, os bancos concederam 429 bilhões de dólares em crédito a atividades relacionadas a setores definidos como vetores de desmatamento em florestas tropicais.

O pedido aos bancos é que tenham juízo, não financiem quem fez uso ilegal do fogo e ampliem crédito a atividades sustentáveis, como agroecologia e sistemas agroflorestais. O argumento é simples: quando o fogo chega, ele não nasce apenas da seca. Ele também nasce do dinheiro que tornou a paisagem inflamável.

No Brasil, El Niño não será apenas um fenômeno meteorológico que dividirá as atenções com a campanha eleitoral. O Painel El Niño 2026-2027, do governo federal, trabalha com probabilidade superior a 90% de permanência do fenômeno até o início de 2027.

A Organização Meteorológica Mundial afirma que El Niño deve se intensificar rapidamente até setembro e se tornar forte. A NOAA, a agência de oceanos e atmosfera dos Estados Unidos, estima 63% de chance de um evento muito forte entre novembro e janeiro, com possibilidade de anomalias superiores a 2°C no Pacífico equatorial, patamar raro na série iniciada em 1950.

Quando Fernando Henrique Cardoso (PSDB) se reelegeu no primeiro turno, em 1998, sob uma seca severa no Nordeste, com moradores da região, famintos, promovendo saques a armazéns da Companhia Nacional de Abastecimento, El Niño daquele ciclo já se dissipava na hora do voto, e a campanha se organizou em torno da estabilidade econômica do Plano Real.

Em 2026, o eleitor votará com o Oceano Pacífico ainda esquentando. O fenômeno ganhou esse nome porque pescadores peruanos associavam a chegada de águas anormalmente quentes ao período do Natal, mas desta vez o “menino” chegará em plena campanha presidencial brasileira.

O detalhe parece meteorológico, mas se torna político. Não existem evidências de que o clima decida eleições. O que a literatura sobre o tema sugere é mais incômodo: eleitores podem punir governantes por infortúnios fora de seu controle, de secas a ataques de tubarão, e costumam recompensar mais o socorro visível depois do desastre do que a prevenção feita antes dele.

É nessa armadilha que Lula (PT) está metido. Em maio, ele disse que a natureza é “incontrolável”, mas afirmou que o governo estava “estruturado” para enfrentar o El Niño. Em junho, voltou ao tema e disse que o País estava, pela primeira vez, “preparado antecipadamente”, ao assinar decreto que agiliza repasses a estados e municípios para prevenção e combate a incêndios e anunciar 834 milhões de reais do Fundo Clima para restauração de vegetação nativa.

O governo também prevê um auxílio emergencial de 3.242 reais, equivalente a dois salários mínimos, para pescadores atingidos pela seca, com mais de 600 mil cadastrados na região Norte. O valor foi calculado com base na experiência de 2024, quando rios secaram, comunidades ficaram isoladas e houve risco de desabastecimento de alimentos, remédios e insumos básicos.

A conta da reconstrução costuma ser muito mais alta que a da prevenção. Depois das enchentes no Rio Grande do Sul, o governo federal informou que as ações para o estado já somavam 111 bilhões de reais, com 90 bilhões pagos, além de um novo pacote de 3,3 bilhões de reais anunciado em novembro.

Se a máquina pública funcionar, parte do resultado será invisível. Se falhar, será imperdoável. O fenômeno ainda nem atingiu seu pico, mas qualquer pressão adicional sobre alimentos, energia e logística chegará ao eleitor pelo caminho mais curto: o bolso. O mercado projeta inflação acima de 5%, e a comida pesa justamente sobre a base social que elegeu Lula.

El Niño também pode pressionar a economia pela logística. A Amazônia virou corredor para as exportações do agronegócio, e rios baixos podem reduzir a navegação, exigir dragagem cara e tardia (com impactos ambientais) e deslocar parte da produção para rodovias esburacadas.

Até maio, saíram pelos portos do Arco Norte, na Amazônia, 21 milhões de toneladas de soja, 39% do total exportado pelo Brasil, e 2,5 milhões de toneladas de milho, 34% do volume nacional. Se a hidrovia falhar, estimativas do setor apontam alta de até 30% no frete rodoviário e 20% na cabotagem.

Do outro lado, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) repete a cartilha antiambiental do pai. Se levar para o clima a mesma relação que o bolsonarismo teve com a ciência durante a pandemia, estamos lascados caso ele vença. Quando percorre a Amazônia, a cantilena de Flávio é a mesma: menos rigor no licenciamento ambiental, menos fiscalização, menos multa e muitos aplausos dos ruralistas de chapéu.

O Observatório das Florestas Públicas, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, mostra que 31 milhões de hectares de florestas públicas não destinadas estão sobrepostas por registros privados no Cadastro Ambiental Rural, ou seja, grilagem de terra na cara dura. Desse total, 2,1 milhões já foram desmatados e 78% do que cai vira pasto. Entre janeiro de 2025 e abril de 2026, essas áreas concentraram 83,3 mil hectares de desmatamento, um quinto do total das categorias fundiárias analisadas na Amazônia.

O dado mais incômodo para o discurso ruralista, porém, está no topo da lista: quem mais derrubou no período foram os grandes e médios imóveis privados, com 172,3 mil hectares, 42,6% do total. Um terço de toda a área queimada nessas florestas públicas entre 2019 e 2025 se concentrou num único ano, 2024, o do último El Niño, e o mesmo boletim credita a queda das queimadas em 2025 tanto à virada para La Niña quanto ao fortalecimento das políticas de prevenção.

O clima carrega o fósforo, mas quem espalha a gasolina é a ocupação irregular do território. El Niño não produz grilagem, não abre estrada clandestina, não registra imóvel fictício nem converte floresta em pasto. Ele apenas acende o que decisões políticas, fundiárias e financeiras deixaram seco.

A carta preparada pela Agro é Fogo e pela Forests & Finance acrescenta uma camada que costuma ficar fora da disputa eleitoral: os incêndios não são apenas resultado da ação de fazendeiros, grileiros e madeireiros na ponta. Eles também são consequência de sistemas de crédito que alimentam cadeias produtivas de risco e depois tratam a fumaça como tragédia.

Se os incêndios voltarem a engolir a Amazônia, Flávio Bolsonaro poderá cobrar o governo Lula na campanha, mas será cobrado, é claro, pelas condições que seu campo de extrema-direita ajudou a consolidar e promete aprofundar.

Há ainda uma ironia que a campanha ruralista dificilmente conseguirá esconder num ano de seca. O agronegócio que aplaude a desregulamentação depende dos rios voadores, o vapor d’água que a floresta bombeia para irrigar a soja e o milho do Centro-Oeste. Cada hectare grilado enfraquece a máquina de chuvas da qual a própria fronteira agrícola vive.

O governo Lula também terá de provar que aprendeu com o fogo recente. Em 2024, o Brasil queimou 30,8 milhões de hectares, alta de 79% sobre o ano anterior e a maior marca desde que o MapBiomas começou a monitorar, em 2019, mais da metade dela na Amazônia.

Em 2025, a área queimada na Amazônia caiu de forma expressiva, alívio que especialistas atribuem tanto a um regime de chuvas mais favorável quanto ao avanço das políticas de prevenção, como a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo.

El Niño deste ano será o primeiro grande teste dessa política sob estresse real. O governo diz que os aprendizados de 2024 geraram ações. A oposição dirá que não bastaram. Os bancos terão de explicar por que financiam atividades que aumentam a probabilidade de o fogo sair do controle. A floresta, como sempre, será quem dará a resposta menos retórica.

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