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El Niño testa preparação do Brasil para incêndios florestais

Após queda da área queimada em 2025, fenômeno climático aumenta risco de fogo fora de controle e desafia ações preventivas e de combate

El Niño testa preparação do Brasil para incêndios florestais
El Niño testa preparação do Brasil para incêndios florestais
Queimada na Amazônia. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
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Em 2024, o Brasil registrou a maior área queimada por incêndios florestais desde 2012, segundo dados do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais do Departamento de Meteorologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em 2025, porém, a extensão atingida pelo fogo caiu significativamente, chegando ao terceiro menor patamar dessa série histórica. Dois fatores ajudam a explicar o resultado: o clima favorável e o avanço da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF).

Em 2026, o país volta a enfrentar um cenário de maior risco devido ao El Niño, que contribuiu para o recorde registrado em 2024. O fenômeno pode representar um teste para os avanços da política nacional e para a capacidade de prevenção e combate aos incêndios florestais. Embora sua força ainda seja incerta, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos previu, em junho, 63% de probabilidade de o evento atingir a categoria “muito forte”.

“Estamos preparados para uma situação muito complexa. Torcemos para que ela não ocorra. Mas temos a convicção de que tudo o que fizemos a partir de 2024 gerou aprendizados e ações”, afirmou João Paulo Sotero, secretário substituto e diretor do Departamento de Políticas de Controle do Desmatamento e Incêndios (DPCD) do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

Em julho de 2024, durante incêndios florestais que chamavam a atenção do Brasil, foi aprovada a PNMIF, considerada um novo paradigma por romper com a lógica da política de “fogo zero”. Desde então, também avançaram ações de prevenção, como a ampliação do uso de queimas prescritas, o aumento do contingente de brigadistas contratados e o reforço da estrutura de combate.

“No entanto, isso não significa que teremos necessariamente menos incêndios”, analisou Lívia Carvalho Moura, doutora em Ecologia pela Universidade de Brasília (UnB) e pesquisadora associada do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN). A especialista reconhece importantes avanços, mas aponta desafios, como a falta de implementação do Manejo Integrado do Fogo (MIF) em muitos estados, municípios e no setor privado, além de incertezas orçamentárias.

“Hoje enfrentamos um contexto mais desafiador, marcado por mudanças climáticas, eventos extremos mais frequentes, expansão de áreas degradadas e pelo uso inadequado do fogo em atividades humanas e conflitos territoriais. Esses fatores aumentam o risco de ocorrência, intensidade e severidade dos incêndios”, pontuou Moura.

A assinatura do El Niño

Se, no Sul do Brasil, o El Niño aumenta a chance de grandes volumes de chuvas, no restante do país o sinal costuma se inverter. “Os efeitos conhecidos são aumento das temperaturas na região central, ou seja, a possibilidade de um aumento de ondas de calor. E seca na região Norte e Nordeste. Isso contribui para condicionar a atmosfera para uma situação de maior exposição ao risco de fogo”, explicou o pesquisador Christopher Cunningham.

Cunningham é líder do Grupo de Estudos de Fogo do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Ele ressalta que cada El Niño tem uma espécie de assinatura – ou seja, os efeitos que causa. Isso ficou claro em um estudo publicado em maio. Os pesquisadores notaram que nos anos de 2015/2016 e 2023/2024, o fenômeno passou a favorecer condições de maior seca e calor nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, o que não era tão comum.

A previsão de probabilidade de fogo do Cemaden para os meses de julho, agosto e setembro coloca 1.863 municípios em atenção, 615 em alerta e 106 em alerta alto. Os níveis mais elevados de risco concentram-se principalmente no Centro-Oeste e no arco sul da Amazônia, abrangendo áreas de Mato Grosso, Rondônia, Acre, sul do Amazonas e sul do Pará, além de porções do Tocantins.

Esses locais correspondem em grande parte, segundo o Cemaden, às regiões de transição entre os biomas Amazônia e Cerrado, onde a combinação entre a consolidação da estação seca, a redução da umidade da vegetação e a intensa atividade agropecuária favorece a ocorrência e a propagação de incêndios. O norte do Cerrado e o Matopiba, que abrange áreas dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, também apresentam extensas áreas em alerta e atenção.

Mais recursos e brigadistas

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino determinou, em maio, que o governo federal e os estados da Amazônia e do Pantanal informassem as providências de planejamento adotadas diante do avanço do El Niño. Os planos foram apresentados, mas ainda não foram avaliados pela Corte.

Ao falar sobre os planos e ações do governo federal para a prevenção e combate aos incêndios, João Paulo Sotero, do MMA, ressaltou a importância da PNMIF. “É um marco legal que nos orienta. Traz as diretrizes, as balizas, faz com que União, estados, municípios e sociedade civil possam dialogar, se articular. Isso ocorre por meio do Comitê Nacional do Manejo Integrado do Fogo.”

A partir dessa lei, Sotero avaliou que o Brasil estava melhor preparado em 2025. “Mas a situação climática também foi mais favorável que em 2024. Então foi bom, porque colocamos em prática nosso preparo, mas ainda em uma situação menos desafiadora.”

Em janeiro deste ano, o governo realizou uma reunião com especialistas para analisar as previsões climáticas e o risco de incêndios florestais, já com a possibilidade de um El Niño. Em fevereiro, o MMA publicou uma portaria que declarou emergência ambiental por risco de incêndios florestais em áreas vulneráveis.

Na reunião dos especialistas em maio, segundo Sotero, já estava praticamente certa a possibilidade do fenômeno climático. “Reunimos o Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] e o ICMBio [Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade] e falamos o seguinte: ‘Olha, vamos listar tudo que a gente precisa para estar bem preparados para a temporada’. E aí listamos uma série de demandas. A primeira delas foi recurso financeiro.”

Conforme reportagem da Folha de S. Paulo de janeiro, o orçamento para prevenir incêndios florestais e fiscalização do meio ambiente havia sofrido um corte, caindo 17%. Em uma nota de maio, apresentada ao STF, o Ibama chegou a alertar sobre a importância de novos recursos, ao informar que tinha solicitado um crédito extraordinário de R$ 196 milhões.

Em junho, uma medida provisória reverteu a situação e possibilitou a liberação de mais 337,5 milhões de reais – 194,4 milhões ao Ibama e 143,1 milhões ao ICMBio. Segundo o MMA, o orçamento para 2026 é de pouco mais de 1 bilhão de reais, o maior da história.

Ao todo, vão estar em ação 240 brigadas, responsáveis por fazer a prevenção e combate aos incêndios florestais. Serão 4.410 brigadistas contratados, além de outros 220 servidores federais – o maior contingente da história, segundo o MMA. Eles estão espalhados por áreas de vulnerabilidade climática, recorrência histórica de incêndios e áreas prioritárias para conservação ambiental.

A estrutura do governo federal também será composta por 27 veículos especiais de combate, duas vilas operacionais no Pantanal, 19 helicópteros, 18 aviões destinados ao lançamento de água e um de transporte de brigadas. Para descentralizar as decisões e ações, parte desse equipamento e do contingente estarão em postos de comando no Pará (duas unidades), Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Maranhão e Tocantins.

Avanços e desafios

O avanço mais importante na prevenção e no combate aos incêndios florestais no Brasil foi a PNMIF, que mudou a lógica de tratar o fogo apenas como problema e passou a reconhecer sua importância, avaliou Lívia Moura, do ISPN. “Esta mudança também inclui focar mais em ações de planejamento, prevenção, uso técnico do fogo quando adequado e coordenação entre instituições. Isso é um avanço muito relevante e coloca o Brasil em uma direção mais alinhada com o que a ciência e a experiência internacional recomendam.”

A especialista também vê avanços na contratação de brigadistas, na ampliação das queimas prescritas, no uso de dados climáticos para antecipar riscos e na maior integração entre os órgãos responsáveis pelo manejo do fogo.

“Mas ainda existem grandes desafios”, alertou Moura. “O primeiro é orçamentário: cortes ou incertezas de recursos, como tivemos no começo de 2026, podem comprometer justamente as ações de prevenção, contratação de brigadistas, logística, equipamentos e planejamento. E quando a prevenção enfraquece, o país acaba gastando mais com operações de combate, depois que o fogo já saiu do controle.”

Outro desafio, na visão de Moura, é que a PNMIF ainda está sendo regulamentada e o manejo integrado do fogo (MIF) não foi plenamente incorporado por muitos estados, municípios e setores privados. “Em boa parte do território brasileiro, o manejo do fogo ainda é muito reativo, baseado no combate, e pouco estruturado em prevenção.”

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