Daniel Camargos

Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.

Daniel Camargos

A novela Cleitinho e o bê-á-bá para entender a confusão na eleição em Minas

Como a desistência do favorito, as pressões opostas de Brasília e a disputa pelas vagas ao Senado abriram a eleição no segundo maior colégio eleitoral do País

A novela Cleitinho e o bê-á-bá para entender a confusão na eleição em Minas
A novela Cleitinho e o bê-á-bá para entender a confusão na eleição em Minas
Quaest em MG aponta disputa entre o senador Cleitinho e o ex-prefeito de BH Alexandre Kalil na sucessão de Romeu Zema. Fotos: Jefferson Rudy/Agência Senado e Amira Hissa/PBH
Apoie Siga-nos no
Eleições 2026

Cleitinho Azevedo (Republicanos) conseguiu uma façanha rara até para os padrões da política mineira. Liderou todas as pesquisas, foi barrado pelo próprio partido, rebelou-se em praça pública, mobilizou o bolsonarismo para recuperar a candidatura e, quando a porta parecia novamente aberta, desistiu de atravessá-la.

Nesta segunda-feira 3, ao lado dos presidentes nacional e estadual do Republicanos, os deputados federais Marcos Pereira e Euclydes Pettersen, o senador anunciou que não disputará o governo de Minas. Chorou, pediu perdão e disse não ter condições emocionais de enfrentar uma campanha depois da morte do irmão Matheus Azevedo, aos 34 anos, em 18 de julho.

Pereira conduziu o vídeo postado nas redes sociais do partido, encerrando uma novela que, durante cinco dias, desmontou alianças, provocou uma rebelião partidária e deixou a eleição para o governo mineiro um caos.

A desistência bagunçou sobretudo a direita. Marcelo Aro (PP) saiu da disputa pelo Senado, rompeu com o governador Mateus Simões (PSD), apresentou-se como candidato ao Palácio Tiradentes e agora é o principal nome para ocupar o espaço deixado pelo favorito.

O PL ficou sem seu palanque mais competitivo em Minas e Simões perdeu PP e União Brasil, partidos sob forte influência de Aro no estado. O Republicanos, que quase voltou atrás para salvar Cleitinho, retomou a composição negociada em torno do ex-secretário.

Para entender o que sobrou da eleição mineira, é preciso entender um abecedário quase completo, que vai de A a Z, ou melhor: de Aro a Zema. 

O candidato do partido Novo à Presidência da República, Romeu Zema. Foto: Douglas Magno/AFP

Na quarta-feira 29, o Republicanos anunciou, em uma nota feita com o fígado, que Cleitinho não seria candidato. “Uma candidatura exige, antes de tudo, a decisão firme de quem pretende disputá-la. Tal decisão nunca aconteceu”, disparou o partido.

O partido alegou ter oferecido estrutura, procurado aliados e aguardado durante meses por uma resposta que nunca chegava. A ausência do senador na convenção estadual, quatro dias antes, foi apresentada como a gota d’água.

Poucas horas depois, Cleitinho reuniu apoiadores em uma praça de Divinópolis e anunciou exatamente o contrário. Disse que seria candidato a governador e que precisava respeitar a vontade dos mineiros. Pediu desculpas ao partido e relacionou parte do silêncio recente ao luto pelo irmão.

A indecisão, porém, começara muito antes. Cleitinho prometeu anunciar sua escolha em março, depois em abril, maio, após a Copa do Mundo e, por fim, no início de agosto. Em julho, chegou a brincar que poderia decidir apenas no último dia das convenções “para deixar esse povo mais louco”. Conseguiu.

O Republicanos chegou a reabrir a porta. Candidatos da legenda ameaçaram abandonar o partido e esvaziar as chapas proporcionais. Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, o governador paulista Tarcísio de Freitas e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, entraram no circuito. Todos esperavam que Marcos Pereira recuasse do veto.

A desistência desta segunda-feira transforma em profética uma preocupação manifestada pelo próprio Pereira na semana passada. Ao justificar o veto, o dirigente disse que não poderia correr o risco de o senador desistir em plena campanha. Cleitinho desistiu antes mesmo do fim das convenções.

A pesquisa Real Time Big Data divulgada na quinta-feira 30 ajudou a medir o impacto. No principal cenário, Cleitinho aparecia com 36%. O ex-presidente do Atlético e ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT) tem 15%; o deputado federal e ex-ministro Patrus Ananias (PT), 14%; o governador Mateus Simões, 10%; e o ex-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte Gabriel Azevedo (MDB), 7%. Cleitinho também venceria todas as simulações de segundo turno.

Sem ele, segundo  a pesquisa Real Time Big Data, a eleição vira outra. Segundo a pesquisa, Kalil chega a 20%, Patrus marca 17% e Aro estreia com 15%. Simões permanece com 10% e Gabriel alcança 8%. A diferença entre Kalil e Patrus supera a margem de erro, mas os três primeiros estão separados por apenas cinco pontos.

É aí que entra Aro. Ex-deputado federal e ex-secretário de Governo de Simões, ele pretendia concorrer ao Senado na chapa governista. O acordo naufragou depois que o PSD abrigou a candidatura à reeleição do senador Carlos Viana, recém-filiado à legenda. Aro e Viana são desafetos desde os tempos em que estavam no extinto PHS, e o primeiro avisou que não dividiria o mesmo palanque.

Quando o Republicanos retirou Cleitinho, Marcelo Aro já era a alternativa negociada por PP, União Brasil e PL – Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Aro rompeu com Simões e passou a trabalhar por uma candidatura ao Palácio Tiradentes. O governador reagiu exonerando Castellar Neto, que sucedera Aro na Secretaria de Governo, e outros integrantes da equipe ligados ao antigo aliado. Romeu Zema (Novo), ex-governador e candidato à Presidência, chamou Aro de “ave de rapina”.

O entorno de Aro é chamado, sem constrangimento, de Família Aro. O apelido designa o grupo de vereadores e dirigentes que gravita em torno dele, mas também tem sentido literal. A mãe, Marli, é vereadora de Belo Horizonte; o pai, Zé Guilherme, deputado estadual; e o irmão, Adriano Aro, presidiu até junho a Federação Mineira de Futebol, entidade ligada à família desde 1966. Adriano foi sucedido justamente por Castellar Neto, então aliado político de Aro.

Em março, revelei na Repórter Brasil que Aro foi acusado de agredir uma ex-namorada em um boletim de ocorrência registrado em outubro de 2007. Segundo o documento, ela relatou ter recebido “socos e pontapés”. Aro afirma que nunca respondeu a processo, não foi indiciado nem condenado.

Quando o Republicanos retirou Cleitinho, Aro já era a alternativa negociada por PP, União Brasil e PL. Na noite anterior ao anúncio, uma reunião em Brasília juntou o senador Rogério Marinho (PL), os deputados federais Zé Vitor e Domingos Sávio, também do PL, o presidente licenciado da Fiemg, Flávio Roscoe, e o próprio Aro. O grupo telefonou para Marcos Pereira e cobrou uma definição.

O plano previa Cleitinho candidato ao governo, com Domingos Sávio e Aro concorrendo ao Senado. Sem o favorito, Aro seria deslocado para a cabeça de chapa. O Republicanos indicaria para vice o ex-prefeito de Patos de Minas Luís Eduardo Falcão, que presidiu a Associação Mineira de Municípios e construiu relações com prefeitos de todo o estado.

A Federação União Progressista, formada por PP e União Brasil, realiza sua convenção na noite desta segunda-feira, na Assembleia Legislativa. O Republicanos já anunciou apoio a Aro, mas, até o fechamento desta coluna, a federação ainda não havia formalizado sua candidatura. A composição da chapa e a posição definitiva do PL permaneciam abertas.

A ofensiva de PP, União Brasil e PL por Aro foi apenas o lado visível do cerco a Marcos Pereira. Segundo apurei, o presidente do Republicanos era pressionado simultaneamente pelo Planalto, que negocia com ele para manter a legenda fora da coligação presidencial de Flávio Bolsonaro.

O governo petista queria esvaziar o palanque de Flávio no segundo maior colégio eleitoral do País. A articulação por Aro e a pressão do Planalto empurraram o senador na mesma direção por motivos opostos. A decisão pessoal de Cleitinho completou o serviço.

Além disso, a impaciência do Republicanos com o senador era antiga e não se limitava à hesitação sobre a candidatura. Cleitinho já havia dito que não confiava “100%” em Marcos Pereira, bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, e chamou Edir Macedo, fundador da igreja, de “falso profeta”. Em julho, voltou a atacá-lo ao comentar as investigações sobre o Banco Digimais, ligado ao bispo.

“Política deve ser feita à noite, de chapéu e sobretudo, dentro de um táxi em movimento”, dizia o finado ex-governador Hélio Garcia (1931-2016). A negociação dispensou o táxi, mas preservou o método e o chapéu que Lula tanto tem usado.

Enquanto o PT não encontrava um candidato em Minas, Lula primeiro tirou Patrus do bolso e depois tratou de melhorar as condições em que o velho companheiro entraria na disputa.

No plano nacional, Marcos Pereira encaminha o Republicanos para a neutralidade na eleição presidencial, posição que ainda dependerá da convenção da legenda nesta terça-feira 4. Ficar neutro significa não integrar formalmente a coligação de Flávio Bolsonaro.

Nos estados, contudo, os diretórios podem apoiá-lo. Tarcísio, candidato à reeleição em São Paulo, já oferece a Flávio um palanque no maior colégio eleitoral do País. Em Minas, caberia a Cleitinho desempenhar essa função. Com sua desistência, o PL terá de decidir se apoia Aro, procura outro candidato ou entra na eleição presidencial sem um palanque competitivo em Minas.

Lula chegou a Patrus depois de perder a paciência com a incapacidade do PT mineiro de construir um palanque. Durante mais de um ano, insistiu para que Rodrigo Pacheco (PSB), presidente do Senado entre 2021 e 2025, concorresse ao governo. Pacheco recusou e indicou que deixará a vida pública ao fim do mandato.

Marília Campos (PT), ex-prefeita de Contagem por quatro mandatos, também disse não. Reeleita em 2024 com 60,68% dos votos, deixou a prefeitura em março para disputar o Senado e manteve o projeto mesmo sob pressão do partido. Kalil recusou uma composição e seguiu candidato pelo PDT.

O empresário Josué Gomes e o ex-procurador-geral de Justiça Jarbas Soares Júnior (PSB) também apareceram nas conversas, além de uma sucessão de nomes menores. Como escrevi nesta CartaCapital, chamar Patrus de plano D é até uma gentileza.

Ex-prefeito de Belo Horizonte e ministro de Lula e Dilma Rousseff (PT), Patrus completou 74 anos em janeiro. Aceitou concorrer depois de cobrar estrutura, alianças e participação direta do presidente.

A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, confirmou Patrus para o governo e Marília para o Senado. O PSB negociava a indicação de Jarbas para a segunda vaga ao Senado, mas resistia a assumir a vice para evitar uma debandada de candidatos a deputado. A composição permanece aberta até o momento.

A saída de Cleitinho dá fôlego à candidatura petista. Patrus aparece com 17%, atrás de Kalil e dois pontos à frente de Aro. Para chegar ao segundo turno, precisará disputar com o ex-prefeito os votos do campo não bolsonarista enquanto tenta impedir que Aro herde sozinho o eleitorado da direita.

O novo cenário atende ao interesse imediato de Lula, que precisa de um palanque forte em Minas para tentar a reeleição. Desde a volta das eleições diretas para presidente, em 1989, todos os vencedores nacionais também venceram em Minas.

Por ironia, a desistência de Cleitinho também favorece, no futuro, um adversário do presidente: Nikolas Ferreira.

Deputado federal mais votado do País em 2022 e principal liderança bolsonarista de Minas, Nikolas completou 30 anos em maio. Poderia concorrer ao governo agora, mas preferiu tentar a reeleição para a Câmara.

Em 2030, terá 34 anos durante a eleição e continuará com 34 na posse de 2031. Pela regra atual, não poderá disputar a Presidência, a Vice-Presidência ou o Senado, cargos para os quais a Constituição exige 35 anos.

O governo de Minas será sua principal possibilidade de salto eleitoral. Se Cleitinho vencesse em 2026, chegaria quatro anos depois como governador com direito à reeleição e ocuparia justamente o espaço que Nikolas poderá reivindicar.

Enquanto os antigos aliados brigam, Simões tenta impedir o esvaziamento da própria candidatura. Ex-vice de Zema, assumiu o governo em março e foi oficializado no domingo 2 pelo PSD como candidato à reeleição. A chapa também confirmou Carlos Viana para o Senado. A aliança reúne, por enquanto, Novo, Avante e DC.

A saída de Aro levou consigo PP e União Brasil e expôs os limites da capacidade de articulação do grupo de Zema. O ex-governador deixou o cargo em 22 de março para concorrer à Presidência, mas não conseguiu transformar o projeto nacional em força para o sucessor. Seu desempenho pífio nas pesquisas e os atritos com o bolsonarismo ajudaram a afastar partidos antes abrigados na base governista.

Quase sempre esquecido, o ex-governador e presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, segue circulando pelas entrelinhas. Conversou nos últimos meses com Pacheco, Gabriel, Kalil e emissários de Simões. Apesar da decadência, o partido ainda conserva prefeitos, deputados e tempo de televisão.

Gabriel tentou porque tentou deixar as plumas tucanas e tornar-se afeito ao vermelho petista, mas terminou sozinho. Foi confirmado no sábado 1º como candidato do MDB. Sem aliança formalizada, anunciou uma chapa própria e prometeu escolher uma mulher como vice por meio de um processo interno. Kalil permanece no PDT e conta com o recall de 2022, quando perdeu o governo para Zema.

No PL, o empresário Vittorio Medioli, ex-prefeito de Betim, e Flávio Roscoe chegaram a ser discutidos como alternativas. Com Cleitinho definitivamente fora e Aro ainda sem confirmação, os dois podem voltar à mesa.

Em Minas, cada candidatura nasceu do fracasso ou da recusa de outra. Patrus existe porque Pacheco, Marília e Kalil disseram não. Aro apareceu porque Cleitinho hesitou, perdeu a confiança do partido e desistiu. Simões tenta recompor uma aliança desmontada pela disputa ao Senado.

No bê-á-bá da eleição mineira, ninguém controla sozinho o próprio destino. De Aro a Zema, o C de confusão (e de Cleitinho) continua sendo a letra mais doida da disputa.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo