Daniel Camargos
Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.
Daniel Camargos
A novela Cleitinho e o bê-á-bá para entender a confusão na eleição em Minas
Como a desistência do favorito, as pressões opostas de Brasília e a disputa pelas vagas ao Senado abriram a eleição no segundo maior colégio eleitoral do País
Cleitinho Azevedo (Republicanos) conseguiu uma façanha rara até para os padrões da política mineira. Liderou todas as pesquisas, foi barrado pelo próprio partido, rebelou-se em praça pública, mobilizou o bolsonarismo para recuperar a candidatura e, quando a porta parecia novamente aberta, desistiu de atravessá-la.
Nesta segunda-feira 3, ao lado dos presidentes nacional e estadual do Republicanos, os deputados federais Marcos Pereira e Euclydes Pettersen, o senador anunciou que não disputará o governo de Minas. Chorou, pediu perdão e disse não ter condições emocionais de enfrentar uma campanha depois da morte do irmão Matheus Azevedo, aos 34 anos, em 18 de julho.
Pereira conduziu o vídeo postado nas redes sociais do partido, encerrando uma novela que, durante cinco dias, desmontou alianças, provocou uma rebelião partidária e deixou a eleição para o governo mineiro um caos.
A desistência bagunçou sobretudo a direita. Marcelo Aro (PP) saiu da disputa pelo Senado, rompeu com o governador Mateus Simões (PSD), apresentou-se como candidato ao Palácio Tiradentes e agora é o principal nome para ocupar o espaço deixado pelo favorito.
O PL ficou sem seu palanque mais competitivo em Minas e Simões perdeu PP e União Brasil, partidos sob forte influência de Aro no estado. O Republicanos, que quase voltou atrás para salvar Cleitinho, retomou a composição negociada em torno do ex-secretário.
Para entender o que sobrou da eleição mineira, é preciso entender um abecedário quase completo, que vai de A a Z, ou melhor: de Aro a Zema.
O candidato do partido Novo à Presidência da República, Romeu Zema. Foto: Douglas Magno/AFP
Na quarta-feira 29, o Republicanos anunciou, em uma nota feita com o fígado, que Cleitinho não seria candidato. “Uma candidatura exige, antes de tudo, a decisão firme de quem pretende disputá-la. Tal decisão nunca aconteceu”, disparou o partido.
O partido alegou ter oferecido estrutura, procurado aliados e aguardado durante meses por uma resposta que nunca chegava. A ausência do senador na convenção estadual, quatro dias antes, foi apresentada como a gota d’água.
Poucas horas depois, Cleitinho reuniu apoiadores em uma praça de Divinópolis e anunciou exatamente o contrário. Disse que seria candidato a governador e que precisava respeitar a vontade dos mineiros. Pediu desculpas ao partido e relacionou parte do silêncio recente ao luto pelo irmão.
A indecisão, porém, começara muito antes. Cleitinho prometeu anunciar sua escolha em março, depois em abril, maio, após a Copa do Mundo e, por fim, no início de agosto. Em julho, chegou a brincar que poderia decidir apenas no último dia das convenções “para deixar esse povo mais louco”. Conseguiu.
O Republicanos chegou a reabrir a porta. Candidatos da legenda ameaçaram abandonar o partido e esvaziar as chapas proporcionais. Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, o governador paulista Tarcísio de Freitas e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, entraram no circuito. Todos esperavam que Marcos Pereira recuasse do veto.
A desistência desta segunda-feira transforma em profética uma preocupação manifestada pelo próprio Pereira na semana passada. Ao justificar o veto, o dirigente disse que não poderia correr o risco de o senador desistir em plena campanha. Cleitinho desistiu antes mesmo do fim das convenções.
A pesquisa Real Time Big Data divulgada na quinta-feira 30 ajudou a medir o impacto. No principal cenário, Cleitinho aparecia com 36%. O ex-presidente do Atlético e ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT) tem 15%; o deputado federal e ex-ministro Patrus Ananias (PT), 14%; o governador Mateus Simões, 10%; e o ex-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte Gabriel Azevedo (MDB), 7%. Cleitinho também venceria todas as simulações de segundo turno.
Sem ele, segundo a pesquisa Real Time Big Data, a eleição vira outra. Segundo a pesquisa, Kalil chega a 20%, Patrus marca 17% e Aro estreia com 15%. Simões permanece com 10% e Gabriel alcança 8%. A diferença entre Kalil e Patrus supera a margem de erro, mas os três primeiros estão separados por apenas cinco pontos.
É aí que entra Aro. Ex-deputado federal e ex-secretário de Governo de Simões, ele pretendia concorrer ao Senado na chapa governista. O acordo naufragou depois que o PSD abrigou a candidatura à reeleição do senador Carlos Viana, recém-filiado à legenda. Aro e Viana são desafetos desde os tempos em que estavam no extinto PHS, e o primeiro avisou que não dividiria o mesmo palanque.
Quando o Republicanos retirou Cleitinho, Marcelo Aro já era a alternativa negociada por PP, União Brasil e PL – Foto: Geraldo Magela/Agência Senado
Aro rompeu com Simões e passou a trabalhar por uma candidatura ao Palácio Tiradentes. O governador reagiu exonerando Castellar Neto, que sucedera Aro na Secretaria de Governo, e outros integrantes da equipe ligados ao antigo aliado. Romeu Zema (Novo), ex-governador e candidato à Presidência, chamou Aro de “ave de rapina”.
O entorno de Aro é chamado, sem constrangimento, de Família Aro. O apelido designa o grupo de vereadores e dirigentes que gravita em torno dele, mas também tem sentido literal. A mãe, Marli, é vereadora de Belo Horizonte; o pai, Zé Guilherme, deputado estadual; e o irmão, Adriano Aro, presidiu até junho a Federação Mineira de Futebol, entidade ligada à família desde 1966. Adriano foi sucedido justamente por Castellar Neto, então aliado político de Aro.
Em março, revelei na Repórter Brasil que Aro foi acusado de agredir uma ex-namorada em um boletim de ocorrência registrado em outubro de 2007. Segundo o documento, ela relatou ter recebido “socos e pontapés”. Aro afirma que nunca respondeu a processo, não foi indiciado nem condenado.
Quando o Republicanos retirou Cleitinho, Aro já era a alternativa negociada por PP, União Brasil e PL. Na noite anterior ao anúncio, uma reunião em Brasília juntou o senador Rogério Marinho (PL), os deputados federais Zé Vitor e Domingos Sávio, também do PL, o presidente licenciado da Fiemg, Flávio Roscoe, e o próprio Aro. O grupo telefonou para Marcos Pereira e cobrou uma definição.
O plano previa Cleitinho candidato ao governo, com Domingos Sávio e Aro concorrendo ao Senado. Sem o favorito, Aro seria deslocado para a cabeça de chapa. O Republicanos indicaria para vice o ex-prefeito de Patos de Minas Luís Eduardo Falcão, que presidiu a Associação Mineira de Municípios e construiu relações com prefeitos de todo o estado.
A Federação União Progressista, formada por PP e União Brasil, realiza sua convenção na noite desta segunda-feira, na Assembleia Legislativa. O Republicanos já anunciou apoio a Aro, mas, até o fechamento desta coluna, a federação ainda não havia formalizado sua candidatura. A composição da chapa e a posição definitiva do PL permaneciam abertas.
A ofensiva de PP, União Brasil e PL por Aro foi apenas o lado visível do cerco a Marcos Pereira. Segundo apurei, o presidente do Republicanos era pressionado simultaneamente pelo Planalto, que negocia com ele para manter a legenda fora da coligação presidencial de Flávio Bolsonaro.
O governo petista queria esvaziar o palanque de Flávio no segundo maior colégio eleitoral do País. A articulação por Aro e a pressão do Planalto empurraram o senador na mesma direção por motivos opostos. A decisão pessoal de Cleitinho completou o serviço.
Além disso, a impaciência do Republicanos com o senador era antiga e não se limitava à hesitação sobre a candidatura. Cleitinho já havia dito que não confiava “100%” em Marcos Pereira, bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, e chamou Edir Macedo, fundador da igreja, de “falso profeta”. Em julho, voltou a atacá-lo ao comentar as investigações sobre o Banco Digimais, ligado ao bispo.
“Política deve ser feita à noite, de chapéu e sobretudo, dentro de um táxi em movimento”, dizia o finado ex-governador Hélio Garcia (1931-2016). A negociação dispensou o táxi, mas preservou o método e o chapéu que Lula tanto tem usado.
Enquanto o PT não encontrava um candidato em Minas, Lula primeiro tirou Patrus do bolso e depois tratou de melhorar as condições em que o velho companheiro entraria na disputa.
No plano nacional, Marcos Pereira encaminha o Republicanos para a neutralidade na eleição presidencial, posição que ainda dependerá da convenção da legenda nesta terça-feira 4. Ficar neutro significa não integrar formalmente a coligação de Flávio Bolsonaro.
Nos estados, contudo, os diretórios podem apoiá-lo. Tarcísio, candidato à reeleição em São Paulo, já oferece a Flávio um palanque no maior colégio eleitoral do País. Em Minas, caberia a Cleitinho desempenhar essa função. Com sua desistência, o PL terá de decidir se apoia Aro, procura outro candidato ou entra na eleição presidencial sem um palanque competitivo em Minas.
Lula chegou a Patrus depois de perder a paciência com a incapacidade do PT mineiro de construir um palanque. Durante mais de um ano, insistiu para que Rodrigo Pacheco (PSB), presidente do Senado entre 2021 e 2025, concorresse ao governo. Pacheco recusou e indicou que deixará a vida pública ao fim do mandato.
Marília Campos (PT), ex-prefeita de Contagem por quatro mandatos, também disse não. Reeleita em 2024 com 60,68% dos votos, deixou a prefeitura em março para disputar o Senado e manteve o projeto mesmo sob pressão do partido. Kalil recusou uma composição e seguiu candidato pelo PDT.
O empresário Josué Gomes e o ex-procurador-geral de Justiça Jarbas Soares Júnior (PSB) também apareceram nas conversas, além de uma sucessão de nomes menores. Como escrevi nesta CartaCapital, chamar Patrus de plano D é até uma gentileza.
Ex-prefeito de Belo Horizonte e ministro de Lula e Dilma Rousseff (PT), Patrus completou 74 anos em janeiro. Aceitou concorrer depois de cobrar estrutura, alianças e participação direta do presidente.
A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, confirmou Patrus para o governo e Marília para o Senado. O PSB negociava a indicação de Jarbas para a segunda vaga ao Senado, mas resistia a assumir a vice para evitar uma debandada de candidatos a deputado. A composição permanece aberta até o momento.
A saída de Cleitinho dá fôlego à candidatura petista. Patrus aparece com 17%, atrás de Kalil e dois pontos à frente de Aro. Para chegar ao segundo turno, precisará disputar com o ex-prefeito os votos do campo não bolsonarista enquanto tenta impedir que Aro herde sozinho o eleitorado da direita.
O novo cenário atende ao interesse imediato de Lula, que precisa de um palanque forte em Minas para tentar a reeleição. Desde a volta das eleições diretas para presidente, em 1989, todos os vencedores nacionais também venceram em Minas.
Por ironia, a desistência de Cleitinho também favorece, no futuro, um adversário do presidente: Nikolas Ferreira.
Deputado federal mais votado do País em 2022 e principal liderança bolsonarista de Minas, Nikolas completou 30 anos em maio. Poderia concorrer ao governo agora, mas preferiu tentar a reeleição para a Câmara.
Em 2030, terá 34 anos durante a eleição e continuará com 34 na posse de 2031. Pela regra atual, não poderá disputar a Presidência, a Vice-Presidência ou o Senado, cargos para os quais a Constituição exige 35 anos.
O governo de Minas será sua principal possibilidade de salto eleitoral. Se Cleitinho vencesse em 2026, chegaria quatro anos depois como governador com direito à reeleição e ocuparia justamente o espaço que Nikolas poderá reivindicar.
Enquanto os antigos aliados brigam, Simões tenta impedir o esvaziamento da própria candidatura. Ex-vice de Zema, assumiu o governo em março e foi oficializado no domingo 2 pelo PSD como candidato à reeleição. A chapa também confirmou Carlos Viana para o Senado. A aliança reúne, por enquanto, Novo, Avante e DC.
A saída de Aro levou consigo PP e União Brasil e expôs os limites da capacidade de articulação do grupo de Zema. O ex-governador deixou o cargo em 22 de março para concorrer à Presidência, mas não conseguiu transformar o projeto nacional em força para o sucessor. Seu desempenho pífio nas pesquisas e os atritos com o bolsonarismo ajudaram a afastar partidos antes abrigados na base governista.
Quase sempre esquecido, o ex-governador e presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, segue circulando pelas entrelinhas. Conversou nos últimos meses com Pacheco, Gabriel, Kalil e emissários de Simões. Apesar da decadência, o partido ainda conserva prefeitos, deputados e tempo de televisão.
Gabriel tentou porque tentou deixar as plumas tucanas e tornar-se afeito ao vermelho petista, mas terminou sozinho. Foi confirmado no sábado 1º como candidato do MDB. Sem aliança formalizada, anunciou uma chapa própria e prometeu escolher uma mulher como vice por meio de um processo interno. Kalil permanece no PDT e conta com o recall de 2022, quando perdeu o governo para Zema.
No PL, o empresário Vittorio Medioli, ex-prefeito de Betim, e Flávio Roscoe chegaram a ser discutidos como alternativas. Com Cleitinho definitivamente fora e Aro ainda sem confirmação, os dois podem voltar à mesa.
Em Minas, cada candidatura nasceu do fracasso ou da recusa de outra. Patrus existe porque Pacheco, Marília e Kalil disseram não. Aro apareceu porque Cleitinho hesitou, perdeu a confiança do partido e desistiu. Simões tenta recompor uma aliança desmontada pela disputa ao Senado.
No bê-á-bá da eleição mineira, ninguém controla sozinho o próprio destino. De Aro a Zema, o C de confusão (e de Cleitinho) continua sendo a letra mais doida da disputa.
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