Complexo eólico ameaça arara-azul-de-lear, já em perigo de extinção

Caatinga baiana é o habitat natural da espécie; uma campanha lançada por ativista e pela Fundação Biodiversitas tenta impedir a construção

As aves saem de seus dormitórios ao amanhecer para se alimentar em áreas vizinhas e retornam no fim da tarde (Foto: João Marcos Rosa/Fundação Biodiversitas)

As aves saem de seus dormitórios ao amanhecer para se alimentar em áreas vizinhas e retornam no fim da tarde (Foto: João Marcos Rosa/Fundação Biodiversitas)

Change.org

Um complexo eólico em Canudos, na Bahia, pode colocar em risco a sobrevivência da arara-azul-de-lear, espécie em perigo de extinção. Construído pela multinacional francesa Voltalia, o empreendimento está sendo erguido em uma região considerada um dos últimos refúgios dessa espécie. Para impedir a ameaça, uma petição online foi lançada na plataforma Change.org e ultrapassa as 40 mil assinaturas coletadas no Brasil e na França. 

A campanha foi lançada pela ativista da causa animal Náthaly Marcon, de 18 anos, em coautoria com a Fundação Biodiversitas, que se dedica à conservação de espécies ameaçadas de extinção e atua há anos na linha de frente para proteger essa ave.

“Eu espero conscientizar as pessoas a não fazer obras que venham prejudicar o meio ambiente e os animais”, conta Náthaly sobre o objetivo da petição. “Que eles se conscientizem que podem estar extinguindo uma espécie rara e que estudem melhor o lugar para construir. Não pensar só no dinheiro e no lucro, e sim no meio ambiente”, completa a estudante de auxiliar de veterinária, que há oito anos mantém um blog dedicado à defesa da arara-azul. 

De acordo com uma classificação da União Internacional para Conservação da Natureza, a Anodorhynchus leari, considerada uma das sete maravilhas da natureza, já está em perigo de extinção. A região de Canudos também é considerada prioritária e de importância extremamente alta para a conservação da biodiversidade da Caatinga.

No projeto do parque eólico, está prevista a instalação de 81 turbinas divididas em duas fases. O complexo terá, ainda, uma rede de transmissão, que venderá toda a energia produzida no local à Companhia Energética de Minas Gerais , a Cemig. 

As araras-azul-de-lar costumam realizar diariamente longos voos, de até 80 quilômetros. Além de voar em pares, elas também se locomovem em bandos. Caso sofram uma colisão nas turbinas eólicas, muitas podem morrer, levando, em pouco tempo, à diminuição de sua população. A espécie já esteve na categoria “criticamente em perigo”. 

A bióloga Glaucia Drummond, superintendente geral da Fundação Biodiversitas, explica que o parque fica em uma rota de dispersão, ou seja, um corredor que as araras utilizam para alcançar suas áreas de alimentação. “As pesquisas atualmente disponíveis apontam que a colisão de animais voadores com as hélices e as torres de sustentação dos aerogeradores são frequentes e fatais, especialmente para as aves, insetos e morcegos”, diz. Acidentes do tipo levam à morte centenas de milhares de aves nos Estados Unidos, por exemplo.  

Glaucia afirma que o impacto da construção do empreendimento poderá ser a extinção da espécie, o que define como algo “gravíssimo” e “incalculável” para biodiversidade. “Escancara a relação predatória e arrogante do homem com a natureza, especialmente neste caso quando existe a possibilidade de isso ser evitado”, ressalta. Para a bióloga, a partir daquilo que sabe atualmente, a melhor alternativa é a transferência do complexo a outra área próxima – um local que tenha vento suficiente e que não seja utilizado pelas araras. 

“O genoma de uma espécie é como um manual, com o desaparecimento de uma espécie, esse manual se perde, a história evolutiva se perde, outras espécies e serviços podem também ser afetados e se perderem”, detalha a superintendente da Biodiversitas. 

A profissional aponta que algumas alternativas estão sendo propostas pela Voltalia, mas não oferecem garantias de que sejam eficientes. Entre essas medidas estariam, por exemplo, a pintura das pás das turbinas com tinta especial para que se tornem visíveis às aves e o desligamento dos geradores nos períodos em que elas saem e voltam aos seus dormitórios.

Licenças

Segundo a Biodiversitas, o processo para a construção do empreendimento está em desacordo com uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que exige o Estudo de Impacto Ambiental completo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima). As obras, porém, foram autorizadas sem que houvesse a apresentação de um licenciamento ambiental completo, o que inclui, entre outros itens, a realização de audiências públicas para plantas eólicas em áreas de ocorrência de espécies ameaçadas de extinção e endemismo restrito.

O abaixo-assinado visa sensibilizar a multinacional francesa e o governador da Bahia, Rui Costa, para que as exigências do Conama sejam cumpridas e respeitadas. O Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), a Secretaria de Meio Ambiente da Bahia (Sema), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (CEMAVE) também são pressionados.  

A região da Caatinga é considerada um dos últimos refúgios dessa espécie (Foto: João Marcos Rosa/Fundação Biodiversitas)

No texto da petição online, as autoras da campanha exigem que o parque não seja construído e que os órgãos públicos responsáveis pela emissão de licenças ambientais se atentem para a legislação ambiental. “Não queremos barrar o progresso, queremos apenas que ele aconteça com manejo sustentável e respeito à biodiversidade”, reivindicam. 

Glaucia tem a expectativa de que os órgãos gestores cumpram com a legislação antes de prosseguirem com o licenciamento e que o banco financiador das obras recue até que o empreendimento demonstre sua viabilidade ambiental ou sustentabilidade a longo prazo. Da multinacional francesa, espera que o patrimônio genético brasileiro seja respeitado e que ela apresente os estudos completos ou busque outro local para construir o empreendimento. “Continuaremos insistindo para que o processo seja conduzido nos termos da lei”, garante. 

Por ser uma empresa francesa à frente do projeto, a campanha na Náthaly e da Biodiversitas também está engajando apoiadores na França. No país, mais de 17 mil pessoas já se uniram à causa. O abaixo-assinado segue aberto: https://change.org/SalveArarasAzuis 

O outro lado 

A equipe da Change.org entrou em contato com a Voltalia Energia do Brasil. Por meio de nota, a empresa disse que possui todas as licenças necessárias para a fase atual do parque eólico e que já realizou e permanece realizando estudos para avaliação e monitoramento de potenciais impactos na região, com propostas de ações de controle e preservação. 

A multinacional afirmou estar ciente das milhares de assinaturas coletadas na petição e disse que está aberta ao diálogo. “O intuito da empresa é tornar o processo totalmente transparente para toda a sociedade e órgãos competentes”, diz trecho da nota enviada. 

Como parte da aprovação do licenciamento ambiental expedido pelo Inema, a Voltalia falou que está desenvolvendo os programas de conservação da arara-azul-de-lear e do licuri, principal alimento dessas aves. A empresa comentou, ainda, que já investiu R$ 2 milhões em ações socioambientais e que elas são planejadas para todo o período de vida útil do projeto. 

“Entendemos a preocupação das pessoas e achamos legítimas as manifestações para proteger a fauna e flora tão rica no Brasil”, disse Robert Klein, CEO da Voltalia no Brasil, na nota. Reforçamos o nosso compromisso socioambiental e, acreditamos que, a presença de um projeto eólico com investimentos em programas sociais e ambientais propostos potencializará o que vem sendo feito, ampliando ainda mais as ações que são realizadas por outras entidades. Além disso, contribui para coibir o tráfico de aves e a caça ilegal”, completou.  

Por fim, a empresa alegou que tem realizado reuniões com a comunidade e autoridades locais e estaduais e se colocou à disposição para apresentar o projeto à sociedade. 

O Governo do Estado da Bahia foi procurado, mas disse que a demanda seria atendida pela Secretaria do Meio Ambiente. Já a secretaria informou que estava aguardando resposta dos técnicos do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) sobre os questionamentos feitos pela reportagem. Até o final da matéria, não houve posicionamento. 

Movimento em defesa dos animais

A campanha pelas araras-azuis foi incluída em um movimento contra os maus-tratos aos animais, lançado no ano passado pela Change.org. A página na internet reúne 200 petições e engaja mais de 20 milhões de assinaturas em mobilizações em defesa dos direitos dos animais. Confira outras campanhas do movimento: https://maustratosnao.org/ 

A ativista autora da mobilização conta que sempre faz pesquisas sobre eventos que podem afetar essas aves e foi desta forma que tomou conhecimento das obras do parque. “Fiquei indignada porque esse complexo pode prejudicar não só as araras-azuis-de-lear, como outros animais”, ressalta a jovem. Náthaly desenvolveu uma “paixão” pelas araras-azuis – desta e de outras espécies – ainda criança. O desejo de fazer algo para salvá-las intensificou-se ainda mais depois de assistir ao filme Rio, animação que aborda o tráfico de aves raras.  

“Eu espero conscientizar as pessoas que as araras-azuis, além de serem aves em risco de extinção, elas também têm seu lugar no ciclo da vida. Se todos nós nos unirmos e ajudarmos uma espécie em extinção estaremos todos fazendo o bem não só para elas, mas para outras espécies e todos nós. Juntos podemos fazer a diferença”, finaliza a estudante. 

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