Change.org

Ativismo digital cresce no Brasil e terá papel neste ano de eleições

“A sociedade quer mais espaços democráticos, livres e seguros para se engajar em pautas e se fazer ouvida”, afirma diretora de plataforma de petições

Monica Souza ressalta necessidade de os candidatos olharem para as mobilizações online (Foto: Arquivo pessoal)
Monica Souza ressalta necessidade de os candidatos olharem para as mobilizações online (Foto: Arquivo pessoal)
Apoie Siga-nos no

O brasileiro está a cada ano mais atuante em formas alternativas de mobilização e manifestação política, como movimentos e abaixo-assinados na internet. O chamado “ativismo digital” ganhou, em 2021, ao menos 5 milhões de novos participantes, segundo dados da plataforma Change.org. Com 39 milhões no total, o contingente de usuários do site de petições corresponde à soma das populações dos Estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais.

O dado sugere que 16% dos brasileiros querem exercer sua cidadania para além do voto na urna a cada quatro anos. A partir desta modalidade de ativismo, eles vêm apresentando demandas e cobrando ação de políticos e autoridades para os problemas que afetam a sociedade. Em ano de eleição, esse fenômeno deve ganhar ainda mais relevância. 

“Esses dados demonstram que a sociedade quer mais espaços democráticos, livres e seguros para se engajar em pautas e se fazer ouvida. Durante as eleições, sabemos que esse desejo se intensifica ainda mais”, afirma Monica Souza, diretora-executiva da Change.org no Brasil. “E uma das maneiras que o cidadão encontra para exercer o ativismo são as petições.”

De 2020 para 2021, o aumento de brasileiros atuando no ativismo digital por meio de abaixo-assinados foi de quase 15%. Uma análise mais detida  dos números da Change.org mostra um crescimento de 246% de adeptos a essa forma de ativismo nos últimos quatro anos. Em 2017, apenas 11,2 milhões de pessoas tinham alguma atuação na plataforma de petições. 

O professor de Filosofia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Daniel Tourinho Peres, é um dos que passou a se engajar no universo das campanhas na internet nos últimos anos. Em 2018, o docente teve a primeira experiência ao criar um abaixo-assinado. No ano seguinte, lançou o segundo, no outro mais dois e, no ano passado, chegou ao quinto. 

“Um [dos abaixo-assinados] teve mais de 1,5 milhão de assinantes em defesa das universidades, e outro teve algo como 300.000, e foi um pedido por debate no segundo turno de 2018. Os dois foram publicados com um timing perfeito, pois em poucos dias já tinham milhares de assinaturas. O abaixo-assinado em defesa das universidades, em três dias, teve 1 milhão. Uma loucura!”, lembra o professor sobre as grandes campanhas que liderou.  

Além de lançar suas próprias mobilizações – a maioria ligadas a temas políticos -, Peres também costuma apoiar diversas campanhas online: já assinou quase 100 petições. 

“Com algo desta proporção você consegue abrir portas, ir além dos assinantes e chegar a quem tem poder. Enfim, não derrubei o ministro, muito menos o presidente, mas conseguimos dizer que não se brinca com as universidades, que estamos atentos e dispostos a lutar em sua defesa”. Em 2019, o docente levou as assinaturas coletadas em defesa das universidades ao Congresso Nacional, entregando-as nas mãos de senadores e deputados. 

Debate seguro e responsável 

Neste ano de eleições em que serão escolhidos o presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais, o professor Peres acredita que a importância do ativismo digital para o exercício da democracia, manifestação e articulação cidadã “será enorme”. 

“Creio que haverá um equilíbrio maior, com uma redução da presença da extrema direita, que praticamente dominava. Hoje, o número de pessoas de esquerda, de centro, é muito maior, como é muito, mas muito maior o número de intelectuais sérios, que têm um trabalho fora das redes”, explica. O docente ainda diz esperar por uma participação nas redes menos partidarizada. “Você pode defender ideias, causas, projetos, mas sem necessariamente defender partidos políticos”, opina.

Para a diretora da Change.org, o papel que o ativismo digital desempenhará neste ano de eleições será significativo não só para a repercussão, mas também para pautar os debates. Por isso, Monica enfatiza a necessidade de os ambientes onde eles ocorrem serem seguros, responsáveis e plurais a fim de colaborarem com a construção e a defesa da democracia. 

“Na Change.org, buscamos manter um espaço livre, porém, seguro para debates de todas as partes, não importa qual seja a sua preferência política. Em ano eleitoral, reforçamos ainda mais o nosso cuidado para que não haja conteúdos com fake news, por exemplo, além disso, não permitimos petições que façam propaganda aos candidatos”, detalha Monica. 

A diretora da organização comenta também a importância de os candidatos a cargos públicos olharem para as mobilizações que surgem em plataformas de ativismo digital, já que nelas estão colocadas inúmeras demandas do povo, com direcionamento ao poder público. 

Monica lembra que, em 2020, três candidatos que disputavam as eleições municipais para Prefeituras – dois de São Paulo e um de Salvador – apresentaram propostas nas áreas da saúde e educação, respondendo oficialmente a petições abertas por cidadãos na plataforma. 

“A petição online é um instrumento sempre possível e acessível à ação política. E traz resultados. No ano passado, chegamos e superamos a marca de 1 mil petições vitoriosas em nossa plataforma. Apenas em 2021, mais de 14 mil abaixo-assinados foram abertos por cidadãos em nosso site e, juntos, receberam quase 32 milhões de assinaturas”, comenta.  

“Não é só todo voto que importa, mas também todo engajamento”

Das redes para a rua: petição contra supersalários é levada à Câmara (Foto: Divulgação CLP)

Além de cidadãos comuns, o ativismo digital também tem crescido no meio de coletivos e organizações que enxergam na prática uma forma de levantar causas e engajar a população em torno de pautas. O movimento suprapartidário Unidos pelo Brasil – coalizão formada por mais de 20 entidades -, por exemplo, é um dos adeptos deste tipo de manifestação cidadã. 

Desde 2020, o movimento lidera uma ação pelo fim dos supersalários no setor público, os famosos penduricalhos que fazem alguns servidores ganharem acima do teto permitido pela Constituição. Com ajuda do ativismo digital, a campanha conseguiu colocar o assunto em debate, recebeu o apoio de quase 300 mil pessoas em um abaixo-assinado e obteve a aprovação de um projeto de lei na Câmara dos Deputados, depois de cinco anos parado.

“Ela [a petição online] tem um papel fundamental de pressão junto ao Congresso Nacional, tendo em vista que ela nos permite ‘furar bolhas’”, destaca o gestor público José Henrique Nascimento, coordenador do movimento Unidos pelo Brasil. “Ou seja, a petição online é uma ferramenta primordial para que consigamos chegar em pessoas de diferentes regiões, permitindo que diversas destas se engajem em uma mesma causa”, acrescenta. 

Nascimento, que também é head de Causas do Centro de Liderança Pública (CLP), ressalta que os abaixo-assinados online são uma ferramenta de fácil acesso e compreensão para a maioria das pessoas, já que qualquer um pode assinar, compartilhar ou até mesmo criar. Em dezembro de 2020, o movimento Unidos pelo Brasil e o CLP foram até a Câmara dos Deputados e fizeram uma entrega da petição contra os supersalários a 11 parlamentares.

O ativismo digital se tornou uma importante ferramenta de controle social e interferência positiva dos cidadãos e cidadãs nas decisões políticas”, pontua Nascimento. “A tecnologia é fundamental nesse processo, e quanto mais as pessoas se engajarem em audiências públicas, votações online, aplicativos que permitem avaliar políticas que estão sendo debatidas no Congresso, e principalmente em petições públicas, mais o Estado Democrático de Direito agradece, e mais o Congresso sente a verdadeira força da população”. 

O coordenador do movimento Unidos pelo Brasil considera todo engajamento cívico e popular nas redes virtuais “muito bem-vindos”, além de “fundamental” a participação de todas as pessoas em qualquer meio virtual que seja legítimo e confiável no processo político. 

“O ativismo digital, em sua concepção, busca o engajamento por meio de propostas e debates no meio online daqueles que mais importam nas eleições e no Estado Democrático de Direito: a população”, define Nascimento sobre o papel deste ativismo no debate eleitoral. 

Para Nascimento, não é só todo voto que importa nos debates que constroem a democracia, mas também todo engajamento – de uma curtida nas redes sociais a uma assinatura em uma petição na intenet. “Se interesse e participe de grupos nas redes sociais nos quais você se encaixa e acredite! Fique atento a petições que tratam de propostas ou repudiam ações de políticos, e sempre assine aquelas que te interessem”, aconselha o gestor. 

Change.org

Change.org
É a maior plataforma de petições online do Brasil e do mundo. São 329 milhões de pessoas assinando e criando abaixo-assinados em 196 países e 26 milhões somente no Brasil.

Tags: , , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor...

Apoiar o bom jornalismo nunca foi tão importante

Obrigado por ter chegado até aqui. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, que chama as coisas pelo nome. E sempre alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se este combate também é importante para você, junte-se a nós! Contribua, com o quanto que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo completo de CartaCapital.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor...

Apoiar o bom jornalismo nunca foi tão importante

Obrigado por ter chegado até aqui. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, que chama as coisas pelo nome. E sempre alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se este combate também é importante para você, junte-se a nós! Contribua, com o quanto que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo completo de CartaCapital.