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Por que não devemos discutir com Bolsonaro

Devemos, muito pelo contrário, continuar a ocupar as ruas e avenidas em protesto contra a destruição sistemática do Estado brasileiro

Jair Bolsonaro (Foto: Isac Nóbrega/PR)
Jair Bolsonaro (Foto: Isac Nóbrega/PR)
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Não sei se, como tem-se ultimamente repetido, de fato existe um método por trás da retórica presidencial. Eu me sentiria mais tentado a dizer que não encontraremos nada de planejado ou estratégico nas polêmicas incessantemente renovadas pelo presidente. Isso, contudo, não muda em nada a eficácia de seu comportamento escarninho.

O mesmo poderíamos dizer a respeito de Donald Trump e, em um exemplo recente, a polêmica em torno de seus comentários xenófobos contra algumas congressistas norte-americanas.

Seus discursos têm, em parte, o funcionamento de uma aposta. Penso que não é em absoluto necessário que o seu eleitor partilhe da mesma vileza que depreendemos de suas falas preconceituosas e ofensivas para que se sintam reconfortados por elas.

Basta que vejam nelas um repúdio sólido contra os supostos inimigos de seus valores para que enxerguem no presidente um bastião pela defesa de seus interesses.

Em parte, eles têm também a função paradoxal de dar estabilidade aos insólitos governos de seus enunciadores.

O paroxismo da ignorância política é que uma lógica de enfrentamentos constantes, de secessões e rupturas sociais precise ser instituída para garantir a apatia dos sujeitos políticos.

Enquanto se aviventa uma guerra de valores que não pode ser ganha, dado o simples fato de que as diferenças continuarão a ser ofensivas enquanto não forem respeitadas, os sujeitos políticos são mantidos inconscientes e à margem da destruição de cada um dos fundamentos de nossa democracia.

Aqui, falamos da existência de um espaço público que envolve e pertence a todos, de uma democracia cujo princípio inalienável é a garantia de uma vida universalmente digna, em função da qual zelam um sistema de saúde e de educação universal e os direitos trabalhistas, que devem estar sob proteção do Estado.

Pois enquanto as arengas de Jair Bolsonaro desnorteiam os sujeitos políticos minimamente informados, o Poder Executivo procede paulatina, mas continuamente na destruição sistemática de todo o aparato governamental de defesa às garantias sociais e trabalhistas, de todos os mecanismos de proteção ao meio ambiente e de financiamento da educação superior e da pesquisa docente.

É por isso que não devemos discutir com Bolsonaro. Ele ganha a aposta quando inflamos ainda mais as tensões que rasuraram o debate político brasileiro nos últimos anos e nos fizeram perder de vista a verdadeira coisa pública.

Devemos, muito pelo contrário, continuar, e sempre com maior ênfase, a ocupar as ruas e avenidas em protesto contra a destruição sistemática do Estado Brasileiro.

Devemos dar provas de nossa indignação consciente quando ministros como os senhores Paulo Guedes, Abraham Weintraub e Ricardo Salles agem para minar aquilo que temos em comum, que abriga e preenche todas as diferenças que Bolsonaro insiste em deslegitimar.

Resta saber se o protagonismo descoberto pelo Congresso no hiato aberto entre o jogo presidencial e o oficioso trabalho de seus ministros poderá resultar em um modelo de governo mais sadiamente republicano ou se ele reduzirá ao órgão pragmático que, até agora, tem vestido os interesses econômicos de uma elite como se fossem os interesses do Brasil.

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