Blog do Sócio

Como canta Emicida, ‘tempero do mar foi lágrima de preto’

Não podemos deixar de lembrar que logo após a assinatura da Lei Áurea nada foi feito para inserir o negro na sociedade brasileira

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O dia pode ter nascido ensolarado naquele 13 de maio de 1888, mas o sol que nasceu iluminando o ocidente livrando o dia da escuridão da noite que passou não teve ares de iluminação com a pretensa luz acesa pela Lei Áurea assinada pela princesa Isabel, que levou a fama da história oficial como redentora dos flagelados e possuidora da benevolência branca, cristã e europeia.

A escravidão foi o eixo da economia colonial por mais de 300 anos, foi a face do latifúndio monocultor que predominou como deliberação auspiciosa de nossa economia servil, foi o que de mais cruel pode-se ver debaixo deste céu azul. Quantos açoites nestes mais de três séculos? Quanto sangue escorrendo pelas costas? Quanto suor escorrendo pela face, nas canas, engenhos, gados? Quantas mãos pretas servindo as sinhás com o pão dela de cada dia enquanto a noite engolia na solidão escura o pão que o dia amassou?

O tempero do mar foi lágrima de preto, canta Emicida na música Boa Esperança. Quanta história em uma frase, quanta história em uma canção, quanta história que, se o Atlântico pudesse, esqueceria. O tempero do mar foi lágrima de preto: cinco milhões de africanos arrancados de suas terras para servir de mão de obra no Brasil entre 1500 e 1860, num total de pelo menos 12 milhões trazidos à América, em navios negreiros que levavam arma, prata, tecido, fumo, pólvora, e traziam vidas. Um negócio tão lucrativo que no século XVIII representantes comerciais existiam somente para esse comércio: tráfico de negros – homens, mulheres, crianças… escravizados.

Era um sonho dantesco… O tombadilho; que das luzernas avermelha o brilho. Em sangue a se banhar. Tinir de ferros… Estalar de açoite… Legiões de homens negros como a noite, horrendos a dançar… Negras mulheres, suspendendo às tetas; magras crianças, cujas bocas pretas; rega o sangue das mães: outras moças, mas nuas e espantadas, no turbilhão de espectros arrastadas, em ânsia e mágoa vãs!

O último país a eliminar o maior crime já praticado na história da humanidade de forma contínua e por tanto tempo, e no primeiro dia após a abolição as folhas do Diário da Maranhão já estampavam os planos dos escravagistas que, não contentes com o acontecido, insistiam: “façam-se leis para coibir à vagabundagem; façam-se leis para que possam trabalhar e livrar-se da sua ociosidade natural; façam-se leis…” Um dia após a abolição e a Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, como que prevendo a publicação citada e como uma resposta ao imaginário sórdido dos escravistas, escreve: nada de querer propor leis de vagabundagem, curar consequências de uma lepra que levou três séculos em nosso organismo para continuar o parasitismo por outras vias legais.

Houve algo a comemorar naquele 13 de maio? Há algo a comemorar no 13 de maio? Certamente que sim. Houve uma ruptura que modificaria as relações sociais, econômicas e culturais do Brasil. Porém, não podemos deixar de lembrar que logo após a assinatura da lei nada foi feito para inserir o negro na sociedade brasileira. Não vimos nenhuma política compensatória e de incentivo, nenhuma terra distribuída, e nem mesmo a introdução dos negros no novo formato de trabalho, destinado, inclusive, esse espaço, a imigrantes europeus na lógica eurocêntrica, que envergonhava o país comparando o seu atraso à África que por tanto tempo teve seus filhos arrancados para servir de instrumento de produção aqui.

Mas muitas mudanças vêm ocorrendo por meio de políticas públicas realizadas com pressão dos movimentos negros, e o aumento da reflexão acerca do assunto contribui muito para constantes discussões, e é de extrema necessidade, ainda mais quando figuras “ilustres” da nossa política nacional e celebridades da TV em rede aberta dizem que o papo de racismo já cansou e essa “balela” deveria ser superada, mesmo que os negros ganhem em média 1.200 reais a menos que os brancos, mesmo que entre os negros o analfabetismo chegue a 10% enquanto para os brancos a 4%, mesmo que 71% dos assassinados sejam de negros, mesmo que não haja 25% de representação negra no congresso com mais 50% da população autodeclarada negra.

A luta continua! E para finalizar, um trecho de poesia, pois não há nada que possa expressar melhor a dor da humanidade do que ela, e que essa, especificamente, representa um pouco da luta dos negros antes mesmo do fim da escravidão, iniciadas fortemente com o movimento abolicionista de 1870 com políticos, advogados, artistas, mas também representado pelas fugas e revoltas, e que continua hoje, de outras formas, mas com alguns propósitos ainda muito parecidos: “Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus, Se eu deliro… Ou se é verdade; tanto horror perante os céus?!… Ó mar, por que não apagas; co’a esponja de tuas vagas; do teu manto este borrão? Astros! Noites! Tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão!… (Castro Alves).

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