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A crueza do realismo político nunca esteve tão presente no Brasil

Convenhamos: o quadro político e o momento vivenciados pela sociedade brasileira parecem esmerar-se no dar razão a Maquiavel

Marcos Corrêa/PR
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Por Cauby Dantas

Mas sendo minha intenção escrever coisa útil, destinada a quem por ela se interessar, pareceu-me mais conveniente ir diretamente à efetiva verdade do que comprazer-me em imaginá-la. (Maquiavel)

Os diálogos revelados pela publicação jornalística online The Intercept põem a nu, pela exposição, a mais que sabida decomposição da vida republicana brasileira. Pensando bem, não há grandes novidades. As personagens são velhas conhecidas. As práticas, imorais, compõem a longa história da secular mistura do público com o privado, do mercado com o Estado, coisa essa fincada, aqui, no solo comum da colonização portuguesa do Brasil.

O que choca é a desfaçatez, a crueza, o cinismo de delatores, corruptos e corruptores, de tamanhos e matizes os mais diversos. O Estado brasileiro e, dentro dele, a representação política, jamais se desvencilhou dos seus pecados originais, engendrado que foi no ambiente familiar, patriarcal, doméstico e privado da casa-grande colonial, segundo a percepção do sempre genial Gilberto Freyre.

A emersão das ruas, da indústria e da urbanização, a ampliação do instituto do sufrágio universal ou, ainda, a construção lenta e precária de uma noção de cidadania, o que implica – ou deveria implicar – numa consciência mínima em torno de noções basilares quanto aos direitos e deveres de cada um, ao respeito à coisa pública e obediência às leis socialmente acordadas – revelaram-se incapazes, pelo século XX afora, de debelar aqueles vícios.

Aqui, nesta terra outrora circundada pela imaginação europeia, sempre a vê-la como o jardim das delícias, espécie de Éden terreal (tema de “Visão do paraíso”, o melhor livro de Sérgio Buarque de Holanda), continuamos mergulhados em patrimonialismo, nepotismo, clientelismo e nas mais diversas formas de corrupção. Aqui, Estado e mercado, com seu séquito de ideólogos midiáticos, se juntam para sugar boa parte das energias produtivas de uma população, em sua maioria pobre e mal paga e honesta.

Continuamos desiguais em demasia; continuamos pagando, em impostos, o equivalente a cinco meses do nosso ano de trabalho, dinheiro que não implica em hospitais ou escolas qualificados, como sabe qualquer um que, por infortúnio, precisou, em dia ou noite de triste memória, recorrer ao SUS ou tenha, talvez, que matricular seus filhos na rede pública, descontando-se as óbvias e raras exceções.

São esses os fantasmas sociológicos que, insepultos, insistem em tornar sempiterno o nosso século XIX. Inevitável, assim, a percepção de que não há saída. Que sempre foi assim; que será sempre assim. Que Maquiavel e a crueza do seu realismo político nunca estiveram tão presentes.

Como sabemos, em seu “O príncipe”, escrito em 1513, o grande florentino empreende uma profunda e realista reflexão sobre o fenômeno da política, pensada como esfera autônoma e essencial à vida em sociedade.

No capítulo XVII, tece uma implacável concepção quanto à natureza humana. Os homens são aqui pensados como seres imutáveis em seu egoísmo, na sua ingratidão, sendo, ainda, “volúveis, dissimulados, esquivadores dos perigos, ambiciosos de ganho”.

Os homens, ruins por natureza, estariam, portanto, condenados à política e esta atividade – aqui interpelada em seus conteúdos institucionais – seria o lócus privilegiado em que se efetivaria o exercício das “qualidades” acima delineadas.

Convenhamos: o quadro político e o momento vivenciados pela sociedade brasileira parecem esmerar-se no dar razão a Maquiavel. São perceptíveis, com efeito, a qualquer observador, ainda que desatento, os sinais do desencanto, do desalento com a classe política.

Nos diálogos cotidianos com parentes, alunos, vizinhos, colegas de trabalho, expressamos as nossas raivas e decepções e angústias, nossos medos, etc. Há, rondando, um espectro que nos conduz à percepção de que “todos são iguais”, “todo mundo rouba”, “só mudam as siglas”, e que as portas dos infernos foram escancaradas para nós e não há salvação possível.

Destilamos nossos ódios aos políticos – a todos eles! – pelas mais que partidarizadas redes sociais. Somos, quase todos, ou “coxinhas” ou “petralhas”. Amizades antigas se desmancham ao sabor das preferências e opções político-partidárias do amigo que se torna ex, transformado que foi em inimigo.

São muitas as razões para o afastamento em relação à política. Mas tudo isso pode ser muito perigoso. Apesar de todos os pesares, fora da política, não há salvação: ruim com ela, muito pior sem ela. E é inútil a fuga. Não é possível se esconder da ubiquidade que parece constituir a própria essência do fazer político.

Onde quer que estejamos, na esfera pública ou na vida íntima, e ela estará por perto, determinando o rumo das nossas vidas, para o bem ou para o mal. A despolitização é, portanto, o caminho mais curto para o desespero. Seus efeitos, nefastos, já podem, inclusive, ser visualizados.

Há uma sensação incômoda na presença midiática e parlamentar do fundamentalismo religioso mais tacanho, a atentar contra o caráter laico do Estado. Há criminalização de partidos e movimentos sociais. A política, em função dos seus próprios desvios e imoralidades, desde há muito deixou de ser relevante e se transfere de modo cada vez mais recorrente, das casas parlamentares para os Palácios do Judiciário.

Há muita opinião nas ruas ou nas redes sociais e pouca reflexão. Fico triste ao me deparar, por exemplo, com jovens aparentemente saudáveis, bem alimentados, alunos de bons colégios privados ostentando, em seus carros ou em suas camisas, adesivos que fazem apologia a certas figuras macabras que representam a negação do lado bom da vida, defensores que são da tortura e de torturadores. Tudo isso é muito ruim.

Lembro agora de Menocchio, um moleiro medieval perseguido pela Inquisição em função de sua peculiar cosmogonia e que foi resgatado do esquecimento pela pesquisa do historiador italiano Carlo Ginzburg, fixada nas páginas deste belo livro que é “O queijo e os vermes”, publicado no Brasil em 1996. Permito-me a citação: Tudo era um caos, isto é, terra, ar, fogo e água juntos; e de todo aquele volume se formou uma massa, do mesmo modo como o queijo é feito do leite, e do qual surgem os vermes, e esses foram os anjos. A santíssima majestade quis que aquilo fosse Deus e os anjos, e entre todos aqueles anjos estava Deus, ele também criado daquela massa, naquele mesmo momento (Ginzburg, 1996. p.46).

Não precisamos de anjos. Aliás, o grande Max Weber já nos alertava, em texto de 1904, que o exercício da vocação política não comporta anjos ou inocentes: não há lugar ali para um nem outro. Nossos políticos – que nada têm de angelical – bem que poderiam nos servir um queijo menos putrefato.

O aroma fétido que exala da nossa vida pública é intenso e nos enoja. Se resultar, no entanto, na depuração dos nossos costumes políticos, terá sido um mal necessário. É preciso ir até o fim. Que sejam expostas – é essencial que aconteça – todas as vísceras da nossa República apodrecida.

Acredito que está na hora do eleitor começar a agir, consistentemente, em nome dos interesses maiores da coletividade. 2018 é logo ali e nos trará a chance de fazer, nós mesmos, a higienização da política, afastando dela muitas figuras macabras que ficariam muito melhor por trás das grades. Quem sabe, e nas profundezas do nosso lamaçal não estejam sendo sedimentadas as placas que, haverá de chegar o dia, darão a conhecer-se à república e virão para alicerçar a construção efetiva da nossa cidadania, que terá que ser civilizada, educada, tolerante com as diferenças, moralmente íntegra.

 

Não devemos esquecer ou obliterar: os nossos vermes estão todos aqui, ao lado. E eles furam a fila do banco, e entregam trabalhos copiados aos seus mestres, e querem levar vantagem em tudo. Tudo isso é corrupção e infesta a vida pública.

É muito mais grave, óbvio, o desvio de bilhões e bilhões de reais dos cofres públicos, dinheiro que, escondido em contas secretas na Suíça, levará à morte prematura de crianças, seja de fome ou pela falta de atendimento ou de remédio no hospital público.

Não nos enganemos: o “representante” do povo que rouba, certamente terá furado a fila do restaurante quando estudante universitário. Terá, ainda, copiado o trabalho do colega e estacionou em lugar proibido.

O nosso trabalho é imenso e passa pela reinvenção de nós mesmos. Não dá pra continuar reelegendo os mesmos políticos de sempre, sabidamente canalhas e corruptos. Não há inocentes aqui. Quem vota em ladrão, sabe muito bem em quem está votando.

Quem defende a candidatura à Presidência de um racista, defensor da tortura, misógino e homofóbico é, também, tudo isso aí e talvez muito mais. Cada povo tem a representação política que merece. Melhorá-la, qualificá-la, inclusive e principalmente em seus aspectos éticos, é tarefa mais que necessária e urgente. E que deve começar aqui, na base, de onde emana ou deve emanar toda a legitimidade da representação. E passa pela auto-reflexão, pela busca de informação, pela leitura, pela escuta atenta e generosa do outro.

A política que se quer, saudável e purificada, na medida dos limites que circundam a condição humana, por essência precária e finita, deve ter uma dimensão pedagógica, no sentido de tornar possível a vida coletiva. Deve ser, portanto, a porta de entrada do nosso processo civilizador, segundo as palavras do grande Norbert Elias. Eis a nossa batalha.

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