Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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Silvio Modesto lança álbum com participação de Zeca Pagodinho e Eduardo Gudin

Trabalho é dedicado a André Carvalho, coordenador de produção do álbum, que dias antes de morrer expressou desejo de ver matéria sobre o disco em CartaCapital  

Silvio Modesto lança álbum com participação de Zeca Pagodinho e Eduardo Gudin
Silvio Modesto lança álbum com participação de Zeca Pagodinho e Eduardo Gudin
Silvio Modesto – foto: Divulgação
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Ligado ao mundo do samba no Rio de Janeiro e São Paulo, Silvio Modesto, 81 anos, lança o álbum Confidências de um Sambista. Com 12 faixas, o trabalho reúne sambas inéditos e já gravados do compositor, com as participações de Zeca Pagodinho, Eduardo Gudin, Bernadete, Raquel Tobias, entre outros.

Silvio Modesto atuou por quase 20 anos como ritmista, lançou o álbum Silvio Modesto em Oficina do Samba (2005) e tem composições gravadas por Beth Carvalho, Jovelina Pérola Negra, Bezerra da Silva e Zeca Pagodinho.

Os shows de lançamento do álbum acontecem no dia 27 de março, às 19h, no Centro Cultural Mestre Assis – Largo 21 de Abril, 29, em Embu das Artes, na Grande São Paulo -; e no dia 29, às 18h, no Centro Cultural São Paulo – rua Vergueiro, 1000, Liberdade, na capital paulista.

No dia 6 de março foi realizado em São Paulo um evento de audição para convidados do álbum Confidência de um Sambista. No dia 3 de março o jornalista, pesquisador e coordenador de produção do disco, André Carvalho, também conhecido pelo apelido de Piruca, enviou uma mensagem de áudio para o celular deste colunista sobre o acontecimento. Infelizmente, sete dias depois desse contato, André Carvalho morreria em decorrência de um câncer nas glândulas salivares.

“Estou te mandando um convite especial para audição do disco do Silvio Modesto, que a gente está finalizando. Em breve tem o release para você também”, disse ele na mensagem. “E, posteriormente, se puder ajudar na divulgação. Se sair na Carta seria fantástico! Tenho certeza que você vai gostar muito do disco”, emendou.

“Eu talvez não esteja (na audição) por questão de saúde. Mas a equipe toda vai estar. Abração, irmão!”, finalizou. André Carvalho morreu aos 42 anos no dia 10 de março.

André Carvalho morreu em março de 2026, aos 42 anos – foto: reprodução/Instagram

André Carvalho manteve blogs de samba, como O Couro do Cabrito, e também escreveu sobre cultura à grande imprensa. Ligado de forma seminal com o samba, um dos seus trabalhos favoritos era pesquisar e resgatar obras de antigos sambistas.

A seguir, alguns trechos do texto que André Carvalho produziu sobre Silvio Modesto e seu novo álbum, Confidências de um Sambista – o disco é dedicado a Carvalho.

Silvio Modesto é, de fato, um dos grandes baluartes do samba brasileiro e, embora carioca (de Brás de Pina), fez por merecer o reconhecimento como um dos mais representativos e talentosos compositores, versadores e intérpretes da vertente paulista do samba.

Mas, se foi São Paulo que o consagrou como um sambista magistral, toda a base para que pudesse alcançar este reconhecimento foi sedimentada no Rio de Janeiro. Foi lá, entre morros e mares, pagodes na praia e noitadas de samba, cortejos carnavalescos e rodas de partido-alto, que Silvio Luis Fernandes virou Silvio Modesto.

Em 1970, aos 26 anos, em busca de uma vida melhor, mudou-se para São Paulo. Em suas andanças pelas ruas do centro da cidade, teve um encontro de alma com Plínio Marcos, que seria o grande responsável por sua profissionalização como compositor, intérprete, instrumentista e ator. Àquela época, o autor e teatrólogo “maldito” já produzia uma série de peças teatrais acompanhado de sambistas.

Foi com o compositor e ritmista Jangada que Modesto fez seus primeiros sambas-enredo para as escolas de samba paulistanas Lavapés, Acadêmicos do Peruche e Império do Cambuci, ainda no começo dos anos 70.

Um clássico desta parceria, a mais profícua do sambista neste primeiro decênio de Paulicéia, é Samba Sem Tristeza (10ª faixa do disco) no qual apresenta a temática que marcaria sua obra pelas décadas seguintes: o samba como filosofia de vida.

Primeiro sucesso do compositor, Confidências de um Sambista – Silvio Modesto com Neylda Leão; 11ª faixa -, o samba traz o conceito do disco. Em Minha Vida É Cantar – dele com Paulinho Timor; 2ª faixa – fala do sambista que teve a graça e a fortuna de ter nascido para (en)cantar.

Para Silvio Modesto, no entanto, falar sobre samba vai muito além de enaltecê-lo. Para exaltá-lo, é preciso defendê-lo. Seu lema “o samba merece respeito” aparece em Do Samba Não Vou Sair (medley de partido alto da 6ª faixa).

Em Elos da Raça – dele com Capri; 1ª faixa – o verso ganha uma força maior, tornando-se uma verdadeira bandeira de defesa do samba.

Já em Meu Lirismo (3ª faixa) o samba continua vivíssimo. Modesto (neste samba) faz questão de afirmar que seu triunfo como um artista do povo está atrelado à sua atuação em defesa da cultura popular. Para ele, só há glória na contenda – como diria o mestre Candeia, “enquanto se samba, se luta também”.

Um compositor popular não deixa de ser um cronista social, atento a questões como a defesa da classe trabalhadora – expressada em Se Segura, Joaquim; no medley da 6ª faixa – e na exaltação à negritude – em Axé e Amor, dele com Borba e Capri; 8ª faixa.

Ele também faz uso de caprichadas doses de inspiração e expressividade lírica ao falar de amor em Cravo e Canela – dele com Eduardo Gudin; 4ª faixa – e Amor de Insensatez – dele com Jangada; 7ª faixa.

Ainda morando no Rio, ofereceu sambas ao mar, como em No Fundo do Mar (medley da 6ª faixa). Tempos depois, na Paulicéia, em um período de grande dificuldade, dedicou a si mesmo o samba O Provérbio (5ª faixa): Tome cuidado com a vida/ Com a vida, tome cuidado/ Quem não escuta conselho/ Mais tarde, escuta coitado.

No Carnaval de 1978, pela Pérola Negra, pôde exaltar a cidade que o abrigou: O Palco é São Paulo – dele com Pasquale Nigro; 9ª faixa.

Por fim, há um samba extremamente representativo neste cancioneiro que não carrega sua assinatura. O (samba) dolente Olha pra Trás, Amor (12ª faixa), criado há mais de 70 anos, é da lavra de Morenito, baluarte da Unidos da Capela e responsável por sua iniciação no universo do samba.

Para artistas populares como Silvio Modesto, a partilha da vida só pode ser feita por meio do samba.

O álbum Confidências de um Sambista, de Silvio Modesto, tem arranjos e produção musical de Caê Rolfsen, direção artística e Paulinho Timor, coordenação de produção, pesquisa e textos de André Carvalho (in memoriam) e produção executiva de Maria Pinheiro.

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