Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

Augusto Diniz | Música brasileira

Livro transcreve milhares de documentos do século 19 relacionados à arte popular

A obra ‘Um Inventário das Violas, das Cantorias e dos Sambas Nortistas: de 1800 a 1930’ contém menções à viola, ao samba e à cantoria no Nordeste

Livro transcreve milhares de documentos do século 19 relacionados à arte popular
Livro transcreve milhares de documentos do século 19 relacionados à arte popular
Um Inventário das Violas, das Cantorias e dos Sambas Nortistas: de 1800 a 1930’ (Foto: Reprodução)
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Um diário de 1846 descreve um interrogatório na delegacia de uma escrava sobre um ocorrido em um “divertimento”, que era um batuque e a presença de um tocador de viola. No final da noite, houve uma questão que resultou no assassinato de uma pessoa com “cacetes e facas”.

Em um jornal maranhense datado de 1862, há um relato de um religioso que mandou queimar publicamente violas, rabecas, bandolins, entre outros instrumentos da época, como “extermínio” de “objetos de prostituição, ociosidade e desordem”. O veículo, no entanto, discordou da posição do sacerdote: “O Brasil está desmoralizado, mas não atribui a desmoralização que arruína o Estado às violas.”

Estas e muitas outras histórias resgatando registros antigos estão no livro ‘Um Inventário das Violas, das Cantorias e dos Sambas Nortistas: de 1800 a 1930’ (editora Garganta Records), um farto levantamento com 768 páginas e 120 imagens, com uma seleção de reproduções de documentos dos séculos 19 e início do 20 contendo menções à viola, ao samba e cantoria nas regiões Nordeste – que no período retratado era designado regionalmente como território nortista.

A obra transcreve – separando os capítulos em décadas a partir de 1800 a 1930 – milhares de documentos de inúmeras fontes, como cartas trocadas entre autoridades coloniais, ofícios, relatos de viajantes estrangeiros, anais de assembleias legislativas provinciais, jornais, trechos de romances, contos, crônicas e poemas, obras de folcloristas, entre outros registros.

A pesquisa e as transcrições foram realizadas pelo pernambucano radicado em São Paulo, Rodrigo Caçapa, músico, compositor, arranjador, produtor musical e pesquisador. Trata-se de um livro magistral, fonte de pesquisa à história do Brasil não contada pelos livros oficiais.

O organizador da obra afirma que o inventário se propõe a ser percebido, sobretudo, como um amplo e complexo pano de fundo diante do qual se desenrolam as vidas de uma multidão de cidadãos daquele período, como violeiros, cantadores e sambistas, de homens e mulheres negros, indígenas, brancos e mestiços, de trabalhadores rurais e urbanos, quilombolas, escravizados e alforriados.

O foco do livro são as menções às festas, rituais e folguedos que se constituíram na região Nordeste. Portanto, um projeto revelando a face do universo cultural longe da então capital federal do Rio de Janeiro, do qual se tem um número mais expressivo de registros do passado.

Os documentos transcritos no livro (respeitando a grafia da época) abordam os folguedos originados e derivados do catolicismo nos quais a viola se popularizou – como o bumba meu boi, os congos, os reisados e as folias de reis, as festas de São Gonçalo, as marujadas, fandangos e cheganças; e as inúmeras formas de dança que se designavam de forma geral como lundus e batuques com suas diferentes variáveis (chulas, tambores etc.) e, mais à frente, sambas.

O livro mostra a imensa diversidade já existente no país de formas de expressão musical e da dança, assim como era perseguido e discriminado o povo que representava a cultura popular daquele período. Notas de negros fugidos comumente eram descritos como ligados às manifestações culturais da época.

Interessante observar também os relatos reproduzidos relacionados às duas principais festas populares hoje: o Carnaval e o São João. Nesses casos, tem-se uma mostra no livro de como se procediam esses festejos nos séculos 19 e 20.

Em cada registro transcrito do livro ‘Um Inventário das Violas, das Cantorias e dos Sambas Nortistas: de 1800 a 1930’, tem-se uma ideia de como a cultura popular sofreu e sobreviveu ao apagamento ao longo da história.

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