Augusto Diniz | Música brasileira
Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.
Augusto Diniz | Música brasileira
Livro desvenda o samba da Praça Onze, a outra parte da Pequena África, no Rio
Obra apresenta o local na ótica do samba e de seu mais ilustre morador, João da Baiana
O local onde hoje fica o Sambódromo da Marquês de Sapucaí, no Rio, já foi um trecho do bairro chamado Praça Onze. No final do século 19, imigrantes pobres que chegavam da Europa, judeus e – principalmente – negros provenientes de vários lugares se instalaram ali. O bairro foi demolido em 1942.
O livro Quando Vem da Alma de Nossa Gente – Sambas da Praça Onze (2025; 224 páginas, editora Garota FM Books), da pesquisadora Beatriz Coelho Silva, faz uma radiografia do bairro Praça Onze a partir do samba. O gênero foi bastante presente ali, assim como na zona portuária, outra área da região central do Rio comumente nomeada como “Pequena África” devido à forte presença da cultura negra no passado.
Alguns historiadores citam a Praça Onze de antigamente também como parte da Pequena África. Aliás, dias atrás foi divulgada pelo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro uma fotografia inédita da casa onde viveu Tia Ciata, figura central do samba que promoveu memoráveis rodas em sua residência, na Praça Onze.
No livro, a autora apresenta uma introdução sobre o desenvolvimento do bairro. Depois, relaciona o local com a história do samba. Em seguida, analisa 14 músicas do gênero relacionadas ao bairro, sendo três de João da Baiana.
Na primeira metade do século passado, a Praça Onze era um popular reduto de samba na então capital federal. Para lá, se dirigiam produtores e cantores da época, como Mário Reis e Francisco Alves, em busca de sambas para gravar na emergente indústria fonográfica brasileira.
No bairro, de acordo com o livro, se realizava o “carnaval dos pobres”, atraindo cerca de 40 mil pessoas. É um número bastante expressivo para a época. A obra conta que, mesmo com a demolição do bairro, fruto da política de reurbanização do centro da cidade do Rio, o local continuou sendo um ponto musical importante.
Beatriz Coelho Silva divide os sambas que se relacionam com a Praça Onze em três grupos: os compostos nos anos 1930, descrevendo os hábitos e a vida dos moradores do bairro; os feitos no período da demolição, lamentando a derrubada; e os desenvolvidos após os anos 1950, já em tom de nostalgia.
Destaque para dois sambas que são conhecidos até hoje e referenciam o bairro: Tempos Idos (Cartola e Carlos Cachaça), que trata com saudade a Praça Onze; e o samba-enredo Bumbum Paticumbum Prugurundum (Beto Sem Braço e Aluísio Machado), que afirma que a Praça Onze é “imortal”.
João da Baiana (1987-1974) tem capítulo à parte no livro – merecidamente. Nascido e criado no bairro, representou o samba na veia na época, trazendo a sua ancestralidade para dentro do gênero com propriedade. Cantor, compositor e percussionista, ele foi a mais pura tradução do nascimento do samba urbano.
Na obra, a autora analisa algumas composições de autoria de João da Baiana, morador mais famoso do extinto bairro. O livro, lançado no meio do ano passado, apresenta um ótimo contexto de seus personagens e do samba. É uma obra cuidadosa e agradável de ler para entender as nuances do samba em comunhão com o carnaval.
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